As complicações cirúrgicas, como o próprio nome já diz, é quando o paciente é submetido a um procedimento cirúrgico e no pós-operatório ocorrem complicações devido as comorbidades do paciente, do estado nutricional, do uso de fatores de risco modificáveis (como é o caso do tabagismo) ou pelo uso de uma má técnica cirúrgica, e as vezes até sem uma justificativa.
De acordo com Stamenkovic D.M. (apud VILEFORT, 2021, p.3) ‘‘uma evolução pós-operatória normal é aquela que conduz todo paciente pós trauma operatório à cura sem nenhum empecilho. A evolução anormal, por sua vez, engloba um conjunto de alterações orgânicas e de distúrbios funcionais capazes de identificar uma complicação pós-operatória’’.
A incisão cirúrgica primeiramente inicia no plano superficial: pele e tecido celular subcutâneo e posteriormente avança ao plano profundo: aponeurose, músculo, peritônio (se está na cavidade abdominal) e a própria cavidade. E essa manipulação cirúrgica pode gerar diversas complicações, seja uma infecção de ferida operatória superficial ou um abdômen agudo obstrutivo.
Infecção de ferida operatória
A infecção de ferida operatória ocorre em até 30 dias posteriores ao ato cirúrgico e pode estender até 1 ano pós cirurgia se houver uso de implantes de prótese e órteses. As infecções podem ser incisionais ou de órgãos e cavidades:
- Infecção incisional superficial: restringe-se a pele e tecido subcutâneo.
- Infecção incisional profunda: restringe-se a aponeurose, músculo e peritônio.
- Infecção de órgãos e cavidades: compromete tecidos profundos que foram manipulados no ato cirúrgico.
Febre no pós-operatório
O aumento da temperatura pode acontecer no perioperatório e no pós-operatório, em ambos é necessária a atenção do médico para identificar precocemente a etiologia e realizar o tratamento adequado. A febre é o sinal precoce mais comum de infecção.
Quando se está diante de um paciente com febre no intraoperatório ou no pós-operatório imediato, as possíveis causas são: infecção já existente, reações transfusionais e hipertemia maligna.
Quando se está diante de um paciente entre 48h-96h do pós-operatório, a possível origem é do trato respiratório, sendo que o médico deve estar atento para a atelectasia. Além das causas pulmonares, enfatizam-se outras possíveis causas, como: trombose venosa, embolia gordurosa, seroma, hematoma e a resposta endócrina metabólica ao trauma (REMIT).
Quando se está diante de um paciente pós 72horas do pós-operatório, a possível origem é do trato urinário, sendo que o médico deve estar atento para as infecções urinárias em primeiro lugar, mas, também se deve estar atento as pneumonias e as infecções associadas a cateteres e feridas operatória.
Hematoma e seroma
O hematoma é o acumulo de líquido hemático na camada subcutânea. É uma complicação que pode ser evitada com o controle da coagulação no pré-operatório.
O seroma é uma complicação benigna e comum no pós-operatório, é um acumulo de líquido claro, amarelado, na camada subcutânea. É uma complicação que pode ser evitada com a colocação de drenos subcutâneos durante o ato cirúrgico.
Deiscência, eventração e evisceração
Deiscência é a abertura da sutura. A deiscência pode se apresentar tanto como uma eventração quanto como uma evisceração. Evisceração é à saída das vísceras pra fora da cavidade abdominal.
Eventração é a protrusão das vísceras sem sair da cavidade abdominal, pois a sutura da pele está integra.
A deiscência pode ocorrer entre 1 até mais de 20 dias do pós-operatório, porém ocorre com maior freqüência entre 7-10 dia. Os fatores de risco para uma deiscência são:
- Má técnica cirúrgica
- Infecção de planos profundos
- Obesidade
- Uso de glicocorticóide
- Desnutrição
- Tabagismo
- Idade avançada
- Diabetes
Síndrome de Mendelson
A síndrome de Mendelson é uma das complicações temidas no pós-operatório, consiste na regurgitação de conteúdo gástrico em direção as vias aéreas inferiores, ocasionando uma pneumonia.
Os principais pacientes sujeitos a essa síndrome são os pacientes com depressão do nível de consciência. Ressalta-se que alguns pacientes cursam desde aspirações silenciosas até um quadro clinico com presença de dispnéia grave.
Abdômen agudo obstrutivo
A obstrução pode ser mecânica (barreira física) ou funcional (na função), sendo comuns as bridas e aderências nas causas mecânicas, e a funcional é pelo próprio estresse cirúrgico e manipulação das alças intestinais que cursam com diminuição do peristaltismo.
A causa funcional que ocorre logo após a cirurgia, sem um fator desencadeante é conhecido como íleo primário, e as que possuem um fator desencadeante é conhecido como íleo secundário.
O paciente diante desse quadro obstrutivo cursa com parada de eliminação de gases e fezes, náuseas e vômitos.
Conclusão
Estar atento com os sintomas e sinais do paciente e manejar o conhecimento das datas mais frequentes de cada complicação cirúrgica fornece uma alerta ao médico, permitindo-o que intervenha precocemente e faça o manejo adequado a fim de evitar a morbimortalidade de seus pacientes.
Autora: Jaqueline Assunção
Instagram: JaqueeAssuncaoo
Referências:
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MIYOSHI, A. H. Abdômen agudo obstrutivo pós-operatório. Disponível em: https://drpixel.fcm.unicamp.br/conteudo/abdomen-agudo-obstrutivo-pos-operatorio Acesso em: 27/04/2022
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SHIMABUCORO. E. S. Saiba tudo sobre seroma encapsulado. Disponível em: https://fdgcirurgiaplastica.com.br/saiba-tudo-sobre-seroma-encapsulado/ Acesso em: 26/04/2022
SOUSA, A. F. L. Complicações no pós-operatório tardio em pacientes cirúrgicos: revisão integrativa. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/reben/a/Gn6Dz9p3LBBKRhr5KnCmfMN/?format=pdf⟨=pt> Acesso em: 26/04/2022
VILEFORT, L.A. Principais complicações pós-operatórias: revisão narrativa. Disponível em: file:///C:/Users/User/Downloads/8853-Artigo-95121-1-10-20210922.pdf Acesso em: 27/04/2022
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