1. O que é o “médicos sem fronteiras”?
O
Médicos sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional criada
em 1971, na França, por jovens médicos e jornalistas com o proposito de levar
cuidados de saúde a pessoas afetadas por conflitos armados, desastres naturais,
epidemias, desnutrição ou para aquelas sem qualquer acesso à assistência
médica. Além disso, a organização busca chamar a atenção para as dificuldades
enfrentadas pelas pessoas atendidas em seus projetos, dando visibilidade a
realidades que não podem permanecer negligenciadas.
O
MSF atua em mais de 70 países de várias partes do mundo auxiliando no combate
de várias epidemias de doenças e fome, como no caso da Síria e Afeganistão,
áreas afetadas pela guerra e pela fome, que necessitam de organizações
humanitárias que ajudem no tratamento de feridos e doentes. A ação do MSF é majoritariamente
na área da saúde, seja ela médica ou fisioterápica, mas não se restringe somente
a isso: o MSF atua também no fornecimento de água potável, alimento e vestuário,
auxiliando as comunidades afetadas a ter uma condição de vida mais digna.
2. Quais áreas profissionais podem seguir carreira no MSF?
Devido as variadas ações que o MSF
desempenha, várias profissões são requeridas no programa como: Cirurgião,
Enfermeiro, Anestesista, Farmacêutico, Psicólogo/Psiquiatra, Administradores,
Gerente de Projetos, entre outros. Todas essas profissões são fundamentais para
o desenvolvimento das atividades do programa. Quando você decide fazer parte do
MSF, você não só escolhe uma carreira, mas também um estilo de vida. Os
profissionais escolhidos para integrar a equipe são pessoas que, acima de tudo,
acreditam no trabalho humanitário imparcial, neutro e independente realizado
pela organização mundo afora e sentem-se motivadas por ele.
Antes que você pense que os profissionais
que seguem carreira no MSF são verdadeiros monges budistas que abdicaram de
carreiras dignas de Grey’s Anatomy para somente ajudar o próximo, tenho uma notícia:
os profissionais do MSF não são voluntários, recebem remunerações e participam
de processos de seleção rigorosos. No entanto, não são salários astronômicos e
os profissionais de saúde não ficam milionários, até porque, a remuneração
financeira não chega a ser cogitada como motivação para as pessoas que se
inscrevem no processo de seleção. O que move as pessoas é a remuneração social
e emocional, é saber que o que é feito por elas ecoa em situações de grande
conflito e que cada dia investido na instituição é um dia em que vidas foram
salvas e histórias antes findas tiveram um novo começo.
3. Mas, afinal, como seguir carreira no MSF?
A integridade da organização é sustentada pela boa conduta
de cada um dos membros da equipe individualmente, em qualquer local, com total
respeito pelas comunidades em que servem. Por isso, é exigido e esperado que
todos os profissionais respeitem os princípios orientadores. O MSF busca
profissionais que queiram seguir carreira na instituição, oferecendo a
estrutura necessária para que os profissionais exerçam suas funções em
diferentes locais por períodos longos de tempo, oferecendo diversos cursos de
capacitação profissional durante sua trajetória.
A primeira fase baseia-se em uma análise
do currículo em inglês ou francês, e o envio de uma carta de motivação na
língua vernácula do candidato. Após isso, se o candidato for aprovado, é feita
uma pré-entrevista em que são discutidas as expectativas quanto ao serviço,
experiências já vividas na medicina e motivação para seguir esta carreira. Mas
você precisa ter atenção: parte desta entrevista e feita em inglês ou francês, então,
é necessário que o candidato seja fluente nestas línguas para passar na
entrevista e atuar nas áreas de combate onde o idioma de origem provavelmente
não será o seu.
Concluídas estas etapas, o candidato é convidado
a ir a sede da MSF do seu país (no Brasil, a sede fica no Rio de Janeiro). Nesta
última etapa é feita uma reunião para discutir a organização, uma entrevista
presencial individual para nivelamento final das expectativas e o teste em uma
das línguas exigidas. Esta fase do processo dura cerca de um dia. Finalizadas
as etapas, os candidatos selecionados ficam no aguardo até que a organização
encontre um posto de trabalho ideal para o seu perfil.
Cada um dos projetos desempenhados pelo
MSF é um novo desafio profissional e pessoal, e, para tornar tudo isso possível,
o MSF investe no desenvolvimento profissional de
todos que trabalham na organização. Para isso, foram implementadas políticas de
gestão de carreiras baseadas em treinamentos internos e programas de mentoring
e coaching. Essa política visa não só desenvolver talentos, mas, também,
levar indivíduos cada vez mais bem preparados para os projetos em campo e
promover seu crescimento profissional, afinal, em situações de extrema crise e
escassez de recursos, é necessário que os profissionais estejam capacitados
para conseguir lidar com as adversidades e situações inusitadas.
Antes mesmo de partir
para o seu primeiro projeto, você irá participar de um curso na Europa, no qual
terá a oportunidade de obter informações a respeito dos princípios e práticas
empregados no MSF, como a vida no terreno, comunicação, segurança e saúde. Na
medida de seu interesse e sua motivação, dos resultados de sua avaliação de
desempenho em campo, das opções disponíveis e das necessidades das operações, o
profissional, ao longo de sua trajetória com a organização, poderá participar
de outros cursos. É importante frisar que todos os custos relacionados a essas
capacitações são cobertas pela organização. Em contrapartida, o profissional
deverá se comprometer a trabalhar em projetos em que aplicará os conhecimentos
adquiridos.
4. Como é a carreira no MSF?
Trabalhar com MSF em projetos de campo demanda
levar o conceito de adaptação a outro nível: alimentação, habitação, ritmo de
vida, lazer, língua e colegas são coisas que dependem do contexto e local da
missão que duram em média de 3 meses a 1 ano. É necessária a adaptação a um novo
estilo de vida em que privacidade e tempo livre podem ser raros. É possível que
você tenha de compartilhar seu quarto e o banheiro, e que a prática do seu
esporte favorito tenha que esperar o fim da sua jornada com MSF, pois os
projetos de campo podem estar localizados em regiões cujas condições
meteorológicas não sejam sempre brandas – calor ou frio extremo, altos índices
de umidade, chuvas ou clima desértico. Pode ser que o cenário do seu projeto
seja viver em uma cabana feita de barro sem ventilador ou ar-condicionado,
tolerar zumbidos de insetos, ter de lidar com uma fonte de energia restrita e
variedade limitada de alimentos por meses. Além disso, pelo menos nas primeiras
missões, você não pode escolher seu local de destino, ficando a cargo do MSF a
indicação de missões que se encaixem no seu perfil e você opta por aceitar a
missão ou aguardar uma próxima que atenda mais as expectativas individuais.
Por outro lado, talvez você seja beneficiado
com o conforto de uma casa espaçosa, que pode até ter quem cozinhe e arrume,
enquanto os beneficiários de seu projeto sobrevivem a duras penas. Algumas
pessoas têm dificuldades em conviver com tal paradoxo, sendo necessária a alto
avaliação da sua capacidade de abandonar seu conforto material, antes de sair
com MSF. Você também estará longe de sua família e amigos por vários meses e a
comunicação pode ser difícil.
Saber lidar com a carga de trabalho e o estresse é necessário. Atuar com ajuda humanitária em situações de emergência significa um aumento do nível de estresse, em que vários fatores podem criar um clima desconfortável e desmotivar você. A tensão entre membros da equipe, problemas de saúde, o afastamento de sua família e amigos, o sentimento de insegurança, frequentes mudanças no projeto, por vezes difíceis relações com as autoridades locais, as condições de vida básicas e até mesmo a alimentação são aspectos que têm de ser levados em conta na hora de se candidatar a profissional no Médicos sem fronteiras.