A cesariana consiste em
excisar o abdome para a retirada fetal. Tão antiga é a operação que seus
registros mais arcaicos nos chegam por relatos mitológicos greco-romanos,
papiros egípcios e manuscritos Persas! Sabe-se que nos primórdios, a cesariana
era realizada em gestantes falecidas e rara era a retirada da criança viva O
primeiro registro de que se tem notícia de uma cesariana realizada com o
objetivo de nascer a criança de mulher viva, foi de 1500 – um suíço castrador
de porcos que, insatisfeito com a assistências das parteiras e barbeiros,
realizou a cirurgia em sua mulher, que sobreviveu e teve mais seis filhos…
De um procedimento feito
raramente, a cesariana evoluiu lentamente ao longo da história em técnicas e em
resultados. Hoje, é um procedimento amplamente realizado no mundo! A OMS destaca que, em
termos populacionais, uma taxa de cesariana maior que 10% não se associa a
redução de morbimortalidade materna e neonatal. Apesar da relativa segurança
ocasionada pelo melhoramento técnico, conhecimento da assepsia e antissepsia, é
uma operação de risco e consequentemente devem ser observadas de forma
cuidadosa suas indicações. Entre as adversidades possíveis no pós-operatório de
uma cesariana, está a infecção do sítio cirúrgico. Antes de adentrar no tema,
façamos uma breve revisão das indicações da cesariana:
De acordo com a 13º edição do
Rezende, elencamos as indicações absolutas da cesariana, na tabela abaixo.
Destacamos que as divergências na literatura são amplas.
| INDICAÇÕES ABSOLUTAS DE CESARIANA |
| Placenta prévia |
| Placenta acreta |
|
Malformações genitais (ex.: atresias e septos vaginais) |
|
Tumorações prévias (miomas, câncer cervical invasivo) |
| Desproporção cefalopélvica com feto vivo |
A infecção de ferida
operatória é a principal complicação da operação cesariana, hoje. É causa de
morbidade materna e de aumento do tempo de internação. As infecções costumam
ser polimicrobianas envolvendo microorganismos gram +, gram – e anaeróbios. Existem
fatores preditores para o risco de infecção, dentre os quais merecem citação a
obesidade, incisões corporais, cirurgia de emergência, múltiplos toques
vaginais, celiorrafia e ausência de antibioticoprofilaxia. Vale lembrar também
de outros fatores de risco: anemia, infecção urinária, diabetes, deficiências
de micronutrientes, doenças microvasculares, tabagismo e poucas consultas
pré-natais. A associação entre obesidade e aumento da infecção de ferida
operatória se deve a irrigação e drenagem dificultadas na área, bem como a
maior ocorrência de seromas e hematomas. A peritonização, além do risco de
infecção de ferida cirúrgica, aumenta o tempo transoperatório e a incidência de
febre puerperal.
Diante disso, como proceder
para reduzir a incidência dessa complicação?
Minimizar os fatores de risco
descritos acima é um passo fundamental. Uma boa cobertura pré-natal além de zelar
pela gestante durante os agravos que podem ocorrer na gestação – como a
infecção do trato urinário, a anemia, deficiências nutricionais, manejo do
tabagismo – tem papel fundamental nas orientações de ganho de peso das matrizes,
prevenindo ou minimizando a ocorrência de obesidade nesse grupo. Sabe-se que um
tecido celular subcutâneo maior que 2 cm aumenta consideravelmente o risco de
deiscência de suturas.
Os trabalhos apontando os
benefícios da histerotomia segmentar fazem com que a incisão corporal apenas
seja realizada em exceções, não constituindo rotina. Os riscos decorrentes da
celiorrafia também justificam o abandono desta prática.
A antibioticoprofilaxia deve
ser realizada em dose única antes da cirurgia, reduzindo a incidência de
infecções em até 80%. É recomendada em todas as cesarianas, eletivas ou de
emergência.
Nunca é demais salientar que
nas evoluções de enfermaria de puérperas, a ferida operatória deve ser
diariamente examinada em busca de sinais de seroma, hematoma, deiscência e
infecção. Na presença de sinais de infecção ou celulite, está indicada a
antibioticoterapia.