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Como produtos que prometem emagrecimento causam hepatite tóxica?

hepatite tóxica

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Na última semana, uma mulher de 42 anos de idade, Mara Abreu, morreu após ingerir um composto com 50 ervas que promete perda de peso. Ela deu entrada no Hospital das Clínicas de São Paulo e foi diagnosticada com hepatite tóxica por ingestão de medicamento.

O composto com 50 ervas causou uma lesão irreversível no fígado da paciente. Ela precisou de um transplante de urgência, mas o seu corpo rejeitou o novo fígado e ela faleceu.

Conforme o artigo “Hepatites tóxicas: revisão da literatura”, de Luís Costa e Borges Martins, publicado na Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, fique por dentro de tudo sobre a doença. Confira:

O que é hepatite tóxica?

A hepatite tóxica consiste em uma lesão hepática causada por inalação, ingestão ou administração parentérica de agentes farmacológicos ou químicos.

É um problema relevante na prática clínica atual. Corresponde a cerca de 0.2% de todos os internamentos hospitalares. E a 2 a 3% de internamentos por efeitos adversos de fármacos.

Apesar de uma incidência reduzida, as hepatites tóxicas são uma causa frequente (até 25%) de falência hepática aguda com prognóstico reservado. Estima-se em cerca de 12% a taxa de mortalidade por novos casos/ano.

O consumo de drogas de abuso é, muitas vezes, causa de agressão hepática. Também a proliferação das “medicinas alternativas” e “produtos naturais”, podem ter consequências
deletérias.

Como ocorre a metabolização hepática?

A maior parte dos medicamentos ou tóxicos são absorvidos através do tracto gastrintestinal ou por via parentérica. Uma minoria através da pele ou das vias aéreas. O fígado é um alvo principal de toxicidade, por ser um órgão central no seu metabolismo. É importante dizer que 30% do volume sanguíneo corporal total passa pelo fígado
a cada minuto.

A dupla circulação pela artéria hepática e veia porta permite que o sangue proveniente do intestino seja imediatamente depurado.

A depuração hepática depende:

  • Da eficácia dos enzimas metabolizadores,
  • Do fluxo sanguíneo hepático,
  • Da ligação às proteínas plasmáticas
  • Da “depuração intrínseca” dessa substância. Esta última propriedade depende do grau de lipossolubilidade e do peso molecular.

Substâncias com uma elevada depuração intrínseca são avidamente captadas pelo tecido hepático e o fator limitante do seu metabolismo tende a ser o próprio fluxo sanguíneo hepático.

Têm um elevado metabolismo de primeira-passagem e, no limite, podem mesmo ser usadas para medir o fluxo sanguíneo hepático, como o corante verde de indocianina. Como fármacos, são substâncias ineficazes por via oral, dada a sua rápida inativação.

Substâncias com baixa depuração intrínseca têm um metabolismo dependente da eficácia dos sistemas enzimáticos e relativamente independente do fluxo sanguíneo; um exemplo é a teofilina.

O objetivo da metabolização hepática é tornar o fármaco mais hidrossolúvel, para a excreção renal ou biliar. Isto é conseguido por dois tipos de reações:

  • Reação de fase 1: envolve os complexos Citocromo C reductase e Citocromo P450. Tendo como co-factor o NADPH citosólico, efetuam reações de hidroxilação e oxidação. Outras reações alternativas envolvem álcool-desidrogenases e reações de metilação.
  • Reação de fase 2: envolve a conjugação do fármaco ou do metabolito com pequenas moléculas endógenas. De forma a aumentar a sua polaridade.

A eliminação de metabolitos faz-se, geralmente, por via urinária ou biliar. Sendo o seu peso molecular um dos fatores determinantes da via de excreção

Lesão hepática

As reações hepatotóxicas são divididas em tipo A ou de toxicidade directa e tipo B ou idiossincráticas.

  • Tipo A: ocorrem de uma forma previsível, dose-dependente e com uma curta fase de latência. As lesões anatomopatológicas são características e reprodutíveis em modelos experimentais.
  • Tipo B: envolvem idiossincrasia; ocorrem de uma forma imprevisível, muitas vezes independentemente da dose, usualmente a níveis terapêuticos. Apresentam uma baixa incidência, uma fase de latência variável e, geralmente, estão envolvidos mecanismos imunológicos. As lesões anatomopatológicas são incaracterísticas e não uniformes.

Esta divisão é útil em termos didáticos, mas não se deve considerar estanque. Afinal, a lesão celular metabólica dos hepatócitos, a participação de outras células hepáticas e ativação de mecanismos imunes estão interligados de uma forma estreita. E sujeitos à modulação de vários fatores predisponentes, tanto ambientais como individuais.

Uma substância pode ser intrinsecamente hepatotóxica, ou então pode dar origem a um metabolito tóxico, que o tecido hepático pode ter ou não capacidade de depurar.

Como é o tratamento em caso de hepatite tóxica?

O principal ponto do tratamento da doença é a suspenso do fármaco causado.

Em situações específicas, estão recomendadas outras drogas ou procedimentos. Entre elas a intoxicação por ácido valproico, onde pode ser administrada L-carnitina, IV, 50mg/kg/dia ou N-acetil-cisteína, VO, 140mg/kg de ataque e 70mg/kg, VO. De 4/4h por 72h se intoxicação por ingestão de paracetamol há menos de 8h.

Se paciente instável, fazer 150 mg/kg, IV, em 1h, com manutenção de 50 mg/ kg. Nas primeiras 4h e 6,25 mg/kg/h em 16h. Neste último caso, os pacientes também se beneficiam de descontaminação com carvão ativado 1g/kg (até 50g) nas primeiras 4h da ingesta.

Entenda o caso da mulher que morreu por causa do medicamento para emagrecer com 50 ervas

A paciente não tinha nenhum problema de saúde prévio. Ela fazia o consumo de um chá em cápsulas que mistura 50 ervas diferentes. Entre os componentes do chá estão: cavalinha, salsa parrilha, sene, dente de leão e carobinha. O produto promete inibir o apetite, regular o intestino e combater a gordura localizada.

Mara Abreu chegou ao hospital com dores abdominais e foi diagnosticada com hepatite tóxica. O quadro dela logo se agravou. Mesmo após vencer a fila do transplante de fígado e fazer uma cirurgia ela não resistiu.

A cirurgiã Liliana Ducatti utilizou suas redes sociais para fazer um alerta sobre o assunto. A médica reforçou que nenhum medicamento deve ser tomado sem o devido acompanhamento médico. E também afirmou que não há remédio milagroso para perda de peso. Liliana acompanhou o caso de Mara.

“Nós estamos falando de uma medicação que não é aprovada pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], não é regulamentada e que promete um emagrecimento através de ervas ditas como naturais, e isso sabidamente pode ser maléfico para o fígado. Isso é um perigo para a saúde em geral da pessoa. E especificamente para a saúde do fígado”, afirmou Luciana Ducatti.

A família da paciente levou para os médicos um frasco do chá emagrecedor. “Quando olhamos o rótulo dessa medicação já podemos identificar diversas ervas conhecidas por serem hepatotóxicas, por fazerem mal ao fígado. Dentre elas, a mais comum e mais conhecida é o chá verde. É muito bem descrito na literatura. Há vários relatos e papers que mostram casos de hepatite fulminante causada por uso de chá verde”, contou a cirurgiã.

Venda e consumo dos produtos com a marca 50 Ervas Emagrecedor é proibida

No dia 4 de fevereiro, a Anvisa divulgou um alerta sobre os produtos com a marca 50 Ervas Emagrecedor. De acordo com a agência, o 50 Ervas Emagrecedor está proibido no país desde 2020. Ele não estar regularizado como medicamento. O comércio de produtos com propriedades terapêuticas não autorizados pela Anvisa é atividade clandestina.

Segundo a Anvisa, alguns dos ingredientes do suposto emagrecedor têm autorização para uso somente em medicamentos, como fitoterápicos, e não em suplementos alimentares. E também não pode ser classificado como alimento.

A agência ainda deixou claro que “qualquer produto com propriedades terapêuticas, por exemplo, com a promessa de emagrecimento, só pode ser comercializado no Brasil com autorização da Anvisa”.

A Anvisa disponibiliza em seu site informações sobre produtos proibidos e também dos que são registrados como medicamentos.

Fonte: G1 São Paulo e artigo da Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

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