A presença de estudos anteriores que relacionam os tipos sanguíneos com a suscetibilidade de infecções virais impulsionou diversas pesquisas a respeito da relação da COVID-19 com o sistema ABO. Afinal, existiria algum grupo sanguíneo mais propenso a desenvolver a doença? Foi a partir desse questionamento que vários estudos foram conduzidos, estabelecendo ligações entre a fisiopatologia do SARS-CoV-2, antígenos dos grupos sanguíneos e como os genes do lócus ABO podem interferir na nossa resposta aos patógenos.
Esse artigo irá introduzir a abordagem de alguns estudos relativos ao tema, de forma a aproximar você do que tem sido estudado sobre o assunto em diversos laboratórios pelo mundo. Assim, após uma breve introdução sobre o vírus e funcionamento do sistema ABO, será possível uma melhor compreensão a respeito de como esses fatores interagem entre si.
COVID-19
SARS-CoV-2: o que é, fisiopatologia e transmissão do vírus
No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou oficialmente o surto global de COVID-19, do inglês Coronavirus Disease 2019 – doença por coronavírus, como uma pandemia. A doença é causada por um patógeno pertencente à família Coronaviridae, denominado SARS-CoV-2, o mais recente coronavírus identificado e responsável pelo terceiro surto de CoV até então (SARS-CoV em 2002 e MERS-CoV em 2012). Devido à sua alta taxa de transmissão, a doença COVID-19, primeiramente identificada em dezembro de 2019 na capital Wuhan, na China, se espalhou rapidamente pelo mundo, de forma que tem constituído um grande desafio para a saúde pública global.
A COVID-19 afeta indivíduos de todas as idades, podendo apresentar-se desde casos leves, moderados, até os mais graves, os quais requerem hospitalização. A forma como a doença se apresenta varia de acordo com alguns fatores, sendo classificados como grupos de risco os idosos, aqueles que possuem comorbidades associadas e pacientes imunocomprometidos.
A transmissão do vírus é feita de pessoa para pessoa a partir de gotículas respiratórias e aerossóis. Já dentro do corpo, a proteína spike (S) do SARS-CoV-2, uma das quatro proteínas estruturais do coronavírus, utiliza a Enzima Conversora de Angiotensina 2 (ECA2) como receptor de superfície celular. Inicia-se então uma etapa importante para fixação e penetração no hospedeiro. A ECA2 é altamente expressa nas células epiteliais pulmonares e, assim, rapidamente o vírus se replica nos pulmões, o que pode levar a uma forte resposta imunológica, sendo os sintomas clínicos mais comuns: febre, dores no corpo, falta de ar, tosse seca e mal estar.
O período médio de incubação do SARS-CoV-2 – período de tempo desde a exposição ao vírus até o início dos sintomas – é de 5 a 6 dias; de modo que a maioria dos pacientes desenvolverá sintomas entre 11 a 14 dias. Durante o período pré-sintomático, no entanto, os indivíduos infectados podem transmitir a doença, de forma que tem sido recomendado colocar em quarentena aqueles expostos à infecção por 14 dias.
Atualmente, a vacinação é o método mais eficaz para uma estratégia de longo prazo para prevenção e controle de COVID-19, não existindo terapêutica específica que permite tratamento precoce da doença. Nesse sentido, cabe ressaltar a importância da adoção de medidas de proteção e prevenção pela população, tais como o uso de máscara, álcool em gel, evitar aglomerações e higienizar as mãos constantemente, a fim de diminuir a curva de transmissão da doença.
SISTEMA ABO
Classificação
O sistema de grupo sanguíneo ABO, descoberto por Karl Landsteiner, no começo do século XX, é composto por quatro tipos sanguíneos: A, B, AB e O.
- Pessoas portadoras do sangue tipo A, possuem aglutinogênio (antígeno) A na membrana de suas hemácias e aglutinina (anticorpo) anti-B no plasma;
- O grupo B possui antígeno B e anticorpo anti-A;
- O grupo AB possui antígenos A e B, mas não possui aglutininas;
- O grupo O não possui aglutinogênio na membrana das hemácias, porém apresenta anticorpos anti-A e anti-B no plasma.
A informação a respeito do tipo sanguíneo do paciente é de grande importância para as transfusões, uma vez que, se uma pessoa portadora de um tipo de aglutinina recebe o sangue com seu aglutinogênio correspondente, há aglutinação das hemácias e obstrução de capilares.
Os determinantes antigênicos (epítopos) do sistema ABO, ou seja, a região do antígeno ligante aos anticorpos e receptores celulares, estão presentes nas superfícies celulares e secreções, essas biossintetizadas por glicosiltransferases codificadas no lócus ABO. Essas glicosiltransferases atuam na síntese de carboidratos, catalisando reações de transglicolização, que, a depender de sua atividade nos diversos subgrupos do sistema ABO, há modificação e criação de novas especificidades antigênicas.
Nesse sentido, os carboidratos expressos a partir do controle feito por genes do sistema ABO, podem atuar como importantes receptores para microrganismos e demais substâncias, influenciando a susceptibilidade e resistência à infecção e doenças. Assim, a variedade de carboidratos resultante da heterogeneidade de glicosiltransferases influencia no modo como o repertório glicoconjugado é expresso em mucosas e secreções exócrinas e, portanto, nas respostas do organismo.
Um exemplo dessa interação foi identificado em estudos com cepas de Helicobacter pylori (principal causa de úlcera péptica na infância), as quais possuem uma adesina (BabA) que se liga ao Leb carboidrato, altamente expresso nas células epiteliais gástricas em indivíduos do grupo sanguíneo O – maior, portanto, carga bacteriana. Isso pode ser uma forma de explicar porque indivíduos com o grupo sanguíneo O são mais propensos a doenças gastroduodenais, como gastrite e úlceras pépticas. Mas e quanto ao SARS-Cov-2, como o seu tipo sanguíneo pode influenciar na infecção pelo vírus?
Tipo sanguíneo e infecção por SARS-CoV-2: têm relação?
Estudos anteriores já demonstraram a associação existente entre doenças virais e o sistema ABO, de forma que é de interesse clínico a investigação acerca do SARS-CoV-2 e sua interação com os diferentes grupos histo-sanguíneos. Nesse sentido, todos indivíduos seriam igualmente suscetíveis a contrair o vírus?
Uma publicação recente da Blood Advances, jornal médico semestral publicado pela American Society of Hematology, juntamente com outras pesquisas anteriores que corroboram para os resultados, indicou uma possível associação entre os antígenos do grupo sanguíneo ABO (H) e o SARS-CoV-2. A hipótese é de que indivíduos do grupo A estejam ligados a um maior número de casos positivos da doença, enquanto há menor prevalência entre indivíduos do grupo sanguíneo O. Mas como isso funciona?
Como descrito anteriormente, a entrada do SARS-CoV-2 na célula é facilitada pela interação da proteína spike (em seu domínio de ligação ao receptor – RBD) com a ECA2. Todavia, o RBD ainda interage com outras moléculas do hospedeiro, a incluir os antígenos do grupo sanguíneo. Os grupos sanguíneos do sistema ABO possuem aglutinogênios (antígenos) nas hemácias e aglutininas (anticorpos) no plasma. Contudo, os antígenos expressos nas hemácias (antígenos do tipo II) de indivíduos do grupo A não apresentam ligação significativa ao RBD do SARS-CoV-2, o que não explica aumento da probabilidade de infecção. Na verdade, a ligação do RBD aos glóbulos vermelhos apresenta-se baixa em todos os tipos sanguíneos, mostrando a falta de preferência dentre os antígenos do tipo II.
Poderíamos, então, pensar a respeito dos anticorpos, certo? Não exatamente. Apesar de possível influência na infecção, o mesmo anticorpo pode ser encontrado em diferentes grupos sanguíneos, como a presença do anti-B tanto no grupo A, quanto no grupo O. Assim, não há uma especificidade que propõe maior propensão ao desenvolvimento da doença por indivíduos do grupo A. Mas, se não é através dos antígenos das hemácias e nem dos anticorpos, como explicar essa predição?
É aí que entram em cena os antígenos do grupo sanguíneo ABO expresso em outros tecidos do corpo, em especial o epitélio respiratório (antígenos do tipo I). Ao contrário do observado nos antígenos do tipo II, o RBD do SARS-CoV-2 exibiu alta preferência de ligação ao antígeno tipo I do grupo sanguíneo A. Por outro lado, indivíduos do grupo O exibiram menor prevalência de infecção quando comparados aos indivíduos do grupo A, o que poderia sugerir uma proteção relativa dessas pessoas.

Na imagem acima, observa-se a ligação preferencial do SARS-CoV-2 ao antígeno tipo I do grupo sanguíneo A. Em (A) são representados os antígenos do grupo sanguíneo humano presentes no epitélio respiratório (tipo I) e eritrócitos (tipo II). Em (B) a relação entre a ligação do RBD do SARS-CoV-2 aos antígenos do tipo I e II nos grupos sanguíneos do sistema ABO e, em (C), o mesmo, porém mostra dados do SARS-CoV.
Conclusão
Apesar do grande volume de pesquisas, o mecanismo pelo qual o grupo sanguíneo influencia na infecção pelo coronavírus ainda não é compreendido em sua forma completa, sendo necessários mais estudos que auxiliem na melhor compreensão da fisiopatologia do vírus. É importante salientar que, apesar de muitos estudos indicarem para a hipótese apresentada, há outros que não relacionam grupos sanguíneos aos maiores riscos de infecção, assim como há pesquisas que apresentam outros grupos, além do A, como mais suscetíveis. Isso demonstra que ainda não há concordância entre os pesquisadores, assim como a presença de outras variáveis que interferem na determinação do estudo.
Nesse sentido, tendo em vista algumas variáveis, tais como: diferenças nos números da população do estudo, além do vasto número de fatores que influenciam no desenvolvimento e progressão da doença, como idade, comorbidades e carga viral, o grupo sanguíneo não é único e principal determinante para a infecção. Assim, indivíduos de grupos sanguíneos não A também se infectam, assim como indivíduos do grupo O também desenvolvem a forma grave da doença, o que não coloca o grupo sanguíneo como marcador biológico de previsão de risco de infecção por COVID-19. Todavia, é importante salientar que isso não exclui a associação existente entre a COVID-19 e o sistema ABO, pelo contrário, como o RBD é responsável pelo contato inicial com a célula hospedeira, os estudos realizados exibem importantes relações entre SARS -CoV-2 e o lócus genético ABO (H), relações essas a serem exploradas cada dia mais pela ciência.
Autora: Marcelle de Souza Ramos
Instagram: @marcelle.s.r
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Referências
COVID-19: Current understanding of its pathophysiology, clinical presentation and treatment: https://pmj.bmj.com/content/early/2020/10/06/postgradmedj-2020-138577
COVID-19: pathophysiology, diagnosis, complications and investigational therapeutics: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2052297520300901
Characteristics of SARS-CoV-2 and COVID-19: https://www.nature.com/articles/s41579-020-00459-7
Aspectos moleculares do Sistema Sanguíneo ABO: https://www.scielo.br/pdf/rbhh/v25n1/v25n1a08
Structural diversity and biological importance of ABO, H, Lewis and secretor histo-blood group carbohydrates: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842016000400331
Replicação de DNA, genótipo/fenótipo é herança quantitativa: https://midia.atp.usp.br/plc/plc0030/impressos/plc0030_top03.pdf
The SARS-CoV-2 receptor-binding domain preferentially recognizes blood group A: https://ashpublications.org/bloodadvances/article/5/5/1305/475250/The-SARS-CoV-2-receptor-binding-domain
Reduced prevalence of SARS-CoV-2 infection in ABO blood group O: https://ashpublications.org/bloodadvances/article/4/20/4990/463793/Reduced-prevalence-of-SARS-CoV-2-infection-in-ABO
How blood type affects COVID-19: https://www.nebraskamed.com/COVID/how-blood-type-affects-covid-19
COVID-19 and the ABO blood group connection: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32513613/