Reconhecida como uma profissão financeiramente atrativa e socialmente prestigiada, a medicina parece se apresentar à população em geral como o antigo Olimpo aos gregos: visível, mas distante. Em tal contexto, uma névoa de conceitos pré-concebidos envolve-a e com frequência leva a opinião pública a desconsiderar as dificuldades impostas aos profissionais que dedicam suas vidas a esse ramo.
Reduzindo o escopo dessas dificuldades a uma das mais prevalentes, comentaremos sobre o Burnout que em tradução livre significa esgotamento e que vem atraindo alguma atenção nos círculos acadêmicos e hospitalares nos últimos anos.
Não é incomum encontrar artigos que demonstram sintomas de burnout em até 50% dos médicos pesquisados em dado local. Exaustão emocional, despersonalização, baixa percepção de realização pessoal e aumento do uso de substâncias são apenas alguns dos que podem estar presentes. As causas dessa síndrome são diversas, mas geralmente se relacionam a exposição crônica a estresse e insuficiência de atividades restauradoras.
A partir disso, pode-se imaginar que profissões estressantes estão frequentemente associadas ao burnout e de fato estão, mas a prevalência em médicos pode chegar a duas vezes mais. Uma das hipóteses para explicar esse fato está no desbalanceamento entre esforço empregado e controle dos resultados obtidos, onde o médico:
- Arca com todo o encargo do conhecimento
- Precisa cumprir turnos longos
- Lida com privação do sono
- Se depara com necessidade crescente de documentar
- Luta em condições insuficientes
- Lida com problemas de liderança e na equipe em geral
- Trabalha sob risco de processos
- Combate seu medo de errar.
Sendo que em contrapartida pode ainda assim:
- Não ser capaz de ofertar o melhor tratamento
- Se deparar com baixa adesão por parte do paciente
- Ter hostilidade no ambiente de trabalho
- Pouco tempo para família e hobbies
- Não ter suporte da instituição para a qual trabalha.
Em um cenário como esse já foi documentada a propensão a maior ocorrência de erro médico grave, assim como insatisfação dos pacientes quanto ao atendimento. O profissional se torna menos disposto a altruísmos, e mais tendencioso a uma atitude cínica e de afastamento quanto aos pacientes. Sendo que transtorno depressivo maior e taxas de suicídios se encontram aumentados nesse grupo quando comparados a médicos não afetados por burnout.
Geralmente profissionais mais próximos ao trato com o paciente são mais afetados e não é difícil entender o risco que circunda os profissionais que trabalham na atenção primária à saúde, onde condições de trabalho locais são costumeiramente insuficientes, equipes constitucionalmente desfalcadas, territórios de abrangência enormes e suporte institucional baixo.
Para tais profissionais é ainda mais difícil encontrar apoio pois são rapidamente colocados em posições de liderança com pouco ou nenhum treinamento adequado, assim como precisam atender a uma série de reuniões de equipe e lidar com papeis administrativos crescentes que os afastam daquilo que gostariam de estar fazendo e os prende em uma situação de não realização pessoal onde o trabalho não parece realmente fazer diferença no quadro geral.
Devido a essa gritante emergência, diversos planos de ação em instituições específicas ao redor do mundo estão sendo traçados para tentar adereçar e amenizar os fatores desencadeadores do burnout, medidas como diminuição das cargas horárias, contratação de auxiliares médicos, serviços de suporte alimentar e doméstico entre outros. No Brasil, algumas instituições de ensino acreditam que as medidas de controle devem ser iniciadas na graduação também como forma de reduzir os níveis elevados de suicídio entre os estudantes e passaram a realizar questionários em diferentes anos do curso para pesquisar sintomas e implementar aulas sobre o tema assim como formas de lidar com o estresse na profissão.
Embora, pela população em geral, a medicina possa ser vista como o Olimpo, os médicos não são deuses ou semideuses. Trata-se de pessoas normais e que são submetidas a situações estressoras intensas sem o devido suporte e que precisam ser cuidadas tanto quanto cuidam. Um estado correto de saúde biopsíquica é altamente desejável pra os médicos, mas ainda mais deve ser desejado pela população que carece de saúde.