Transtorno de personalidade borderline: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
O transtorno de personalidade borderline, também conhecido como transtorno limite de personalidade (TLP), é uma condição mental caracterizada por padrões persistentes de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nas emoções, além de impulsividade significativa.
A incidência relatada do transtorno de personalidade borderline nos Estados Unidos apresenta variações. Estima-se que a prevalência média seja de 1,6%, podendo alcançar até 5,9%. Em pacientes submetidos a tratamento durante internações psiquiátricas por distúrbios mentais, a prevalência é aproximadamente de 20%. Cerca de 75% dos casos diagnosticados desse transtorno são identificados em mulheres. No entanto, na população em geral dos Estados Unidos, a proporção entre homens e mulheres é equilibrada, mantendo-se em 1:1.
Etiologia do transtorno de borderline
A etiologia do transtorno de personalidade borderline (TPB) é complexa e multifatorial, envolvendo uma interação entre fatores genéticos, biológicos, psicológicos e ambientais.
Estudos sugerem que existe uma predisposição genética para o TBP. Pessoas com histórico familiar de transtornos de personalidade ou problemas psiquiátricos têm um risco aumentado de desenvolver o TPB.
Além disso, alterações neurobiológicas, como disfunções no sistema límbico e no controle de impulsos, foram observadas em pessoas com TBP. Desequilíbrios nos neurotransmissores, como a serotonina, também podem desempenhar um papel no desenvolvimento do transtorno.
A aprendizagem social e a modelagem de comportamentos disfuncionais também podem influenciar o desenvolvimento do TBP. Padrões instáveis de relacionamentos ou habilidades inadequadas de enfrentamento podem ser adquiridos por meio da observação e interação com outros.
Manifestações clínicas do transtorno de borderline
O transtorno de personalidade borderline (TPB) é caracterizado por uma variedade de manifestações clínicas que afetam principalmente as áreas de emoções, relacionamentos interpessoais e autoimagem.
Instabilidade emocional
Indivíduos com TPB frequentemente experimentam intensas oscilações emocionais, podendo passar de sentimentos de euforia a tristeza profunda em curtos períodos de tempo.
Relacionamentos instáveis
Dificuldades em manter relacionamentos estáveis e saudáveis são características do TPB.
Há uma propensão a idealizar intensamente uma pessoa e, em seguida, desvalorizar abruptamente a mesma, resultando em relacionamentos tumultuados.
Impulsividade
Comportamentos impulsivos e arriscados são comuns no TPB. Isso pode incluir:
- Gastos impulsivos
- Abuso de substâncias
- Comportamento sexual de risco
- Entre outros.
Autolesão e comportamento suicida
Indivíduos com TPB têm uma tendência aumentada para se envolver em comportamentos autodestrutivos, como:
- Autolesão
- Tentativas de suicídio.
Pessoas com TPB muitas vezes relatam um sentimento persistente de vazio interior, levando a uma busca constante por preenchimento emocional.
Alterações na autoimagem
A percepção de si mesmo pode mudar drasticamente, levando a uma falta de identidade estável.
Isso pode resultar em mudanças frequentes nos objetivos de vida, carreiras e aspirações.
Reatividade intensa ao estresse
Pequenos eventos ou situações cotidianas podem desencadear reações emocionais intensas e desproporcionais em indivíduos com TPB.
Sintomas dissociativos
Em situações de estresse extremo, algumas pessoas com TPB podem experimentar sintomas dissociativos, como sentir-se desconectadas de si mesmas ou do ambiente.
Como fazer o diagnostico do transtorno de borderline?
A avaliação abrange uma variedade de informações, incluindo histórico clínico, entrevistas clínicas, observação do comportamento e, em alguns casos, a utilização de instrumentos padronizados.
Durante a entrevista, o profissional de saúde mental realizará uma entrevista detalhada com o paciente para obter informações sobre:
- Sintomas
- Histórico médico
- Eventos de vida significativos
- Padrões de relacionamento.
Questões sobre emoções, impulsividade, autoimagem, relacionamentos interpessoais e comportamentos autodestrutivos podem ser abordadas.
O diagnóstico do TPB é baseado nos critérios estabelecidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. O DSM-5 lista nove critérios, e para ser diagnosticado com TPB, um indivíduo deve atender a pelo menos cinco desses critérios.

Instrumentos de avaliação padronizados, como questionários e escalas específicas, podem ser usados para complementar a avaliação clínica e quantificar a gravidade dos sintomas.
Diagnostico diferencial
Muitas vezes, o diagnóstico do transtorno de personalidade borderline é feito erroneamente como transtorno bipolar. Este último também é caracterizado por amplas flutuações no humor e comportamento. No entanto, no TPB, as mudanças de humor e comportamento ocorrem rapidamente em resposta a estressores, especialmente os interpessoais, ao passo que no transtorno bipolar, o humor é mais sustentado, menos reativo, e as pessoas geralmente apresentam alterações significativas de energia e atividade.
Além disso, outros transtornos de personalidade podem compartilhar manifestações semelhantes. O transtorno de personalidade histriônica e o transtorno de personalidade n
O tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar que inclui terapia psicológica, suporte medicamentoso e, em alguns casos, hospitalização.arcisista, por exemplo, envolvem a busca por atenção e comportamentos manipuladores.
Tratamento do transtorno de bordeline
O tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) geralmente envolve uma abordagem multidisciplinar que inclui terapia psicológica, suporte medicamentoso e, em alguns casos, hospitalização.
Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
A TCC é frequentemente utilizada no tratamento do TPB. Ela se concentra em ajudar o indivíduo a identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais e comportamentos prejudiciais.
Técnicas específicas, como a reestruturação cognitiva, podem ser aplicadas.
Terapia dialética comportamental
A TDC é uma forma especializada de terapia desenvolvida especificamente para tratar o TPB.
Ela combina estratégias cognitivo-comportamentais com técnicas de mindfulness, visando a aceitação e a mudança de comportamentos problemáticos.
Farmacoterapia
Medicamentos podem ser prescritos para tratar sintomas específicos associados ao TPB, como depressão, ansiedade, impulsividade e instabilidade de humor.
Os Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são geralmente bem tolerados, apresentando uma probabilidade mínima de overdose letal. No entanto, sua eficácia é apenas marginal para tratar a depressão e a ansiedade em pacientes com transtorno de personalidade borderline.
Diversos medicamentos têm demonstrado eficácia na atenuação dos sintomas associados ao transtorno de personalidade borderline:
- Estabilizadores de humor: utilizados para tratar depressão, ansiedade, labilidade de humor e impulsividade
- Antipsicóticos atípicos (2ª geração): demonstram eficácia no tratamento de ansiedade, ira, instabilidade do humor e sintomas cognitivos, incluindo distorções cognitivas transitórias relacionadas ao estresse, como pensamentos paranoides, pensamento maniqueísta e desorganização cognitiva grave.
Por outro lado, benzodiazepínicos e estimulantes não são recomendados devido aos riscos associados, incluindo dependência, overdose, desinibição e uso inadequado. Essas substâncias não são consideradas opções seguras para o tratamento do transtorno de personalidade borderline.
Qual o prognóstico do transtorno borderline?
O prognóstico do Transtorno de personalidade borderline (TPB) pode variar significativamente de pessoa para pessoa e é influenciado por vários fatores, incluindo a gravidade dos sintomas, o acesso ao tratamento, o nível de apoio social e a presença de condições médicas ou psiquiátricas coexistentes.
Muitas pessoas com TPB experimentam uma melhoria nos sintomas ao longo do tempo, especialmente com intervenções terapêuticas adequadas. O tratamento especializado pode ajudar a desenvolver habilidades de enfrentamento, estabilidade emocional e melhorar a qualidade de vida.
Referência bibliográfica
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA. Manejo clínico para o transtorno de personalidade borderline. Disponível aqui.
- FERREIRA, Alexandre Gabriel Vieira. Avaliação e Diagnóstico da Perturbação da Personalidade Borderline. 2017. 28f. Dissertação (Mestrado Integrado em Medicina) – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Universidade do Porto, Porto, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2XFeFGQ.
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AUTOR: Filipe Quadros Costa
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