Vivemos um novo tempo na medicina
na última década: depois de um século de muita evolução técnica e científica, as
demandas pela atenção, pelo cuidado e pela experiência personalizada e
humanizada do paciente se apresentam como novas tendências na assistência
médica.
Uma
das maneiras pelas quais podemos falar em humanização da medicina é tornar
possível experiências agradáveis aos sentidos dos pacientes, tocando na sua
alma e em seu subjetivismo emocional. Nesse texto, conversaremos sobre as artes
como forma de agregar valor, satisfazer e até superar as expectativas daqueles
que buscam nossos cuidados.
Mas
porque falamos em tom de novidade, citando o “resgate” desse olhar mais
cuidadoso, com atenção à relação médico-paciente? Até pouco tempo, e ainda é
assim em muitas escolas médicas do Brasil, existiu um estímulo à superespecialização,
às vezes muito precoce, quando alunos do segundo ou terceiro ano de medicina já
escolhem sua especialidade e acompanham o curso sem foco e abertura para
aprender sobre as várias especialidades. Em muitos desses cursos também não se
valoriza o contexto social dos pacientes, seus desejos, gostos e expectativas,
o que acaba por ser um fator para “desumanizar” a medicina.
Há
muito, desde os idos tempos de Hipócrates, utilizava-se o termo “Arte Médica”,
a medicina como ciência e arte. Ele próprio já teorizava sobre como muitos
pacientes precisavam apenas, muitas vezes, de carinho, atenção e cuidado, e,
para tais pacientes, isso era suficiente para aliviar suas angústias e dores.
Quantas vezes na sua prática, principalmente em hospitais escolas, determinado
paciente referia grande alívio após ter sido escutado com muita atenção por um grupo
de estudantes de medicina? Acredito que você já tenha vivenciado situação
parecida.
Será
que alguns de nós, médicos, chegamos a tal patamar de distanciamento, devido ao
grande volume de conhecimento técnico e científico de nossas especialidades, que
acabamos por esquecer de dar a devida atenção às dimensões pessoais, sociais e
culturais dos nossos pacientes?
Se enxergarmos o quão importante é esse aspecto, certamente avançaremos na prestação de cuidados e alcançaremos maior satisfação por parte dos nossos pacientes. Nessa nova corrente, há médicos se debruçando sobre esse tema. Quem lembra do filme Patch Adams? Esse filme, baseado em fatos reais, trata da história do médico Hunter Doherty Patch Adams, no estado da Virgínia, EUA. Após vencer a sua própria depressão apelando para o humor, Patch Adams decidiu exercitar sua humanidade, utilizando o humor como terapia para os pacientes. Além de modificar o aspecto estético do ambiente hospitalar, utilizando seu método singular e o bordão “A amizade é o melhor remédio”, realizando visitas médicas com humor irreverente, ele revolucionou a humanização da assistência e, inclusive, fundou um próprio hospital: Instituto Gesundheit. Veja foto abaixo.

O livro “A Meta da Humanização:
do atendimento à gestão na saúde”, do médico brasileiro Marcelo Fouad Rabahi,
traz metas e uma orientação para sistematizar a humanização e qualificar o
atendimento médico, inclusive contando com um capítulo específico sobre a
humanização através das artes. Ele traz a experiência muito exitosa de um
hospital público em Goiânia que tem em sua agenda, sistematicamente, eventos
como saraus, exposições de obras artísticas, grupos de leitura, oficinas de arte
e grupos voluntários de terapia do riso que atuam no cuidado aos pacientes
daquele hospital.
Portanto,
já é tempo de irmos além da técnica médica estrita, abrir nossos olhos,
expandindo nossos horizontes, para dar o melhor carinho e cuidado possível aos
nossos pacientes, utilizando os artifícios que sejam necessários, porque nada é
mais humano do que a arte e seu poder de tocar o coração e a alma humana.
Até o próximo,
grande abraço!