A pandemia da COVID-19 acelerou a efetivação da implementação da tecnologia na prática médica. Nesse momento, a telemedicina foi essencial para garantir a segurança de pacientes de grupo de risco, e permitir que eles continuassem sendo tratados mesmo de casa, especialmente para os pacientes com diabetes. E essa é uma mudança que provavelmente fará parte da realidade pós-pandemia. Mas como a telemedicina pode auxiliar o tratamento da diabetes?
O que é Telemedicina?
A telemedicina se caracteriza pelo uso de tecnologias de informação e comunicação aplicadas à prática médica. Ela consiste na disponibilização de serviços a distância para o cuidado da saúde, com os objetivos de educação, diagnóstico e tratamento de indivíduos através dos recursos de telecomunicação. O intercâmbio de informações pode ser feito através da internet (computadores, celulares ou tablets), o que garante praticidade e alta velocidade no acolhimento.
Diabetes e COVID-19
Em meio à pandemia da COVID-19, o uso da telemedicina foi liberado e regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde para proteger pacientes e médicos, possibilitando maior isolamento social. Com isso, houve regulamentação da teleorientação, do telemonitoramento e da teleconsulta. Apesar de esta ser uma medida excepcional e provisória, a pandemia antecipou a efetivação da tecnologia no cotidiano dos profissionais e dos pacientes. Não há dúvidas que ela veio para ficar.
Os pacientes com diabetes são considerados grupo de risco para apresentar maior gravidade caso contraiam COVID-19. No entanto, esse risco é muito reduzido naqueles com níveis controlados de açúcar no sangue. Assim, a monitorização frequente da glicemia e ajuste de medicações são procedimentos que podem prevenir tanto complicações da diabetes como da COVID-19. Essas são práticas que podem ser feitas pelo paciente em sua casa, se bem instruído por um profissional de saúde.
A orientação e monitoramento de pacientes à distância e troca de informações entre médicos pela tecnologia é muito importante para reduzir o risco de contaminação dos pacientes com diabetes. Não há necessidade de expor essas pessoas a salas de espera no ambiente hospitalar, se é possível que o acompanhamento seja feito por teleconsultas.
Vale ressaltar que a vantagem de reduzir as idas a hospitais não se restringe à pandemia. Mesmo antes do COVID-19 e certamente depois, os hospitais superlotados e o risco de infecções hospitalares seguem sendo uma triste realidade, na qual a telemedicina pode ajudar.
Pensando nos pacientes com diabetes, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) criou um e-book para facilitar a disseminação de informações sobre a COVID-19 nesse grupo de pacientes.
Telemedicina e Acompanhamento de doenças crônicas
Apesar de parecer recente, o controle, acompanhamento e monitoramento de pacientes com doenças crônicas através da telessaúde é bem consolidado na literatura e aplicado em diversos países. Essa medida comprovadamente reduz internações e descompensações, melhorando a qualidade de vida dos pacientes e reduzindo os gastos do sistema de saúde. No caso da diabetes, o seguimento online proporciona um controle metabólico mais adequado.
Como já foi dito, a educação em saúde e o autocuidado são fundamentais para o melhor controle dos níveis de glicemia, melhorando o tratamento da diabetes. Além disso, quando a vigilância em saúde e o acompanhamento clínico são feitos de dentro de casa pelo próprio paciente, ele desenvolve autonomia para gestão da própria saúde, além de sentir maior acolhimento pelos profissionais de saúde.
No Brigham and Women’s Hospital (BWH), nos Estados Unidos, a telemedicina foi incorporada no atendimento de pacientes com doenças crônicas, reduzindo o tempo perdido no deslocamento até as consultas e liberando profissionais de saúde e espaço para casos graves. 97% dos pacientes se mostraram satisfeitos com os atendimentos por videoconferência.
Resultados positivos também foram vistos no Brasil. Um estudo da UFMG mostrou que a instrução de pacientes diabéticos para medir a glicemia em casa e enviar os dados para os médicos por um sistema de comunicação via internet melhorou o controle dos níveis de hemoglobina glicada, quando em comparação com pacientes que fizeram o acompanhamento clínico tradicional na Unidade Básica de Saúde. Atualmente, existem implantes subcutâneos capazes de medir a glicose sanguínea. Um fino sensor mede a glicemia de tempos em tempos e a envia para um receptor portátil. Com esse sistema, os dados podem ser imediatamente acessados por médicos em aplicativos de telefone celular, além de diretamente descarregados e armazenados em prontuários eletrônicos.
Ademais, como a diabetes tem prevalência bastante elevada, ela é uma das doenças que mais gera despesas para o sistema de saúde. A melhora do controle glicêmico reduz significativamente esses custos por reduzir a incidência de complicações e internações. Assim, a aplicação de sistemas de teleconsultoria para o seguimento de pacientes com diabetes tem o potencial de ampliar o acesso da população a especialistas, reduzir a espera por consultas com esses profissionais e reduzir o tempo de diagnóstico, melhorando a qualidade do atendimento à população e reduzindo custos para o sistema de saúde.
Acessibilidade e Desafios
O Brasil é um país de dimensões continentais e, infelizmente, ainda não há médicos especializados em todas as regiões do país. A operacionalização da telemedicina permite atendimento remoto e monitoramento de pacientes em locais afastados dos grandes centros. Assim, pacientes de áreas remotas poderiam ser atendidos com qualidade, o que garante uso eficiente de recursos, centralizando nos especialistas e na descentralização da assistência.
Entretanto, a disponibilidade de infraestrutura de comunicação ainda é um problema que impede a democratização dessa prática. Uma grande proporção da população atendida pelo SUS não tem acesso à internet, impossibilitando consultas virtuais. E esse não é um obstáculo apenas para os pacientes. Diversos serviços de saúde, incluindo Unidades Básicas de Saúde, carecem de equipamentos informáticos, como computadores com câmeras e microfones para os médicos.
Outros fatores limitantes são de aspecto cultural. Por ser uma doença crônica, a grande maioria dos pacientes com diabetes são idosos. Muitos deles não estão acostumados ao uso de tecnologias de comunicação como os pacientes mais jovens. Nesse sentido, dificuldades técnicas podem impedir que muitos idosos sejam acompanhados virtualmente. Esses pacientes serão ajudados por familiares? Os idosos irão aceitar e confiar em médicos que não os examinaram pessoalmente? Essas barreiras socioculturais são importantes e não podem ser deixadas de lado.
Por fim, devemos considerar que a telemedicina não se limita a levar especialistas para áreas remotas apenas para o tratamento de pacientes. Com o avanço do ensino a distância, profissionais renomados podem dar aulas para praticamente todos os lugares do mundo, melhorando a qualidade dos programas educacionais distantes de centros especializados.
Conclusão
Um trabalho articulado em educação em saúde através do uso de ferramentas de tecnologias de informação e comunicação são centrais para garantir o controle de algumas das doenças crônicas mais prevalentes atualmente, responsável por altas taxas de morbimortalidade, especialmente a diabetes. A atualização é uma necessidade constante no profissional médico. A telemedicina já é uma realidade e conhecer suas formas de aplicação é essencial para garantir que os serviços prestados aos pacientes são os mais eficazes.
Ultrapassar barreiras culturais, institucionais e profissionais é necessário para a disseminação e consolidação da telemedicina no Brasil. Esse é um processo gradual e lento, porém que já começou.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
- Atendimento médico via telemedicina é autorizado, durante pandemia de coronavírus. Veja quais as condições. Diabetes na era Covid-19. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/atendimento-medico-via-telemedicina-e-autorizado-durante-pandemia-de-coronavirus-veja-quais-as-condicoes/>
- Telemedicina ajuda na prevenção de diabetes no Brasil durante pandemia – Notícias. Portal da Câmara dos Deputados. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/noticias/707543-telemedicina-ajuda-na-prevencao-de-diabetes-no-brasil-durante-pandemia/>
- One Hospital’s Experiments in Virtual Health Care. Harvard Business Review. Disponível em: <https://hbr.org/2016/12/one-hospitals-experiments-in-virtual-health-care>
- DAMASCENO, Renata Fiúza; CALDEIRA, Antônio Prates. Fatores associados à não utilização da teleconsultoria por médicos da Estratégia Saúde da Família. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro , v. 24, n. 8, p. 3089-3098, Aug. 2019 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232019000803089&lng=en&nrm=iso>
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- MALDONADO, Jose Manuel Santos de Varge; MARQUES, Alexandre Barbosa; CRUZ, Antonio. Telemedicina: desafios à sua difusão no Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 32, supl. 2, e00155615, 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2016001402005&lng=en&nrm=iso>