Ao longo dos
anos, desde os primórdios da Medicina, a relação médico-paciente foi sustentada
pelas bases sólidas da submissão do curado ao que cura. Vistos como detentores
do conhecimento, os doutores, por mais afáveis e acessíveis que fossem, tinham
sua profissão envolta na névoa sagrada do ‘saúde versus doença’, o ‘bem versus
o mal’.
Você pode
olhar para a realidade de hoje e questionar-se se a colunista que vos fala está
em plena capacidade mental para redigir as afirmações anteriores, tendo em
vista a grande mudança no padrão de relacionamento entre os médicos e seus
pacientes hodiernamente. É aí que entra nosso tema como participante importante
nesse processo de desmistificação da Medicina “medicocêntrica”, se é que me
entendem.
A tecnologia
aproxima as pessoas e torna as relações mais práticas, simples e livres de
deslocamento físico. Assim também é no âmbito profissional. Os prontuários
eletrônicos, os aplicativos de smartphones que permitem que o paciente entenda
sua doença e acompanhe em tempo real as decisões sobre seu tratamento, bem como
as milhares de ferramentas de busca online que a todo tempo servem a população
de informações sobre toda e qualquer patologia são apenas alguns dos exemplos
de que está cada vez mais cibernético o processo de saúde e doença.
Ainda nesse
sentido, há uma crescente tendência das escolas médicas atuais de inserirem o
paciente como também um protagonista nas consultas, participando ativamente do
processo de diagnóstico e discutindo com seu médico assistente as melhores
alternativas de tratamento, que envolvem não apenas o nicho medicamentoso, mas
támbem o processo biopsicossocial que permeia o adoecer e como este é encarado
pelo doente e sua família.
Hoje, temos
a liberdade de olharmos nossos médicos como seres palpáveis, disponíveis e presentes
em nossas vidas mesmo fora do consultório. Não é nada incomum possuir o número
pessoal do médico e solicitar auxílio em caso de dúvidas ou mandar notícias atualizadas
da situação de saúde do paciente em uso de medicações em casa. Também é
possível munir-se do aparato tecnológico para escolher o profissional de sua
preferência em mídias sociais que exibem currículos variados, constando nome,
especialidade e opiniões diversas de pacientes anteriores sobre o médico em
exibição. Muitos profissionais utilizam-se inclusive dessas ferramentas para
aumentar seu hall de pacientes e tornar suas habilidades e competências
conhecidas em sua cidade, estado e, por quê não, país.
Se, por um
lado, a tecnologia teve o poder de encurtar a distância entre os profissionais
de saúde e a população assistida, por outro, a interface dos computadores e
prontuários eletrônicos muitas vezes se coloca entre as partes, não só como
barreira física, mas também no sentido do vínculo. Olhos sempre voltados às
telas, por vezes, impedem o olhar direto para a face do enfermo, buscando na
semiologia as pistas de sua patologia. A facilidade imensa de solicitar exames
ao clique do cursor e de gerar receitas rapidamente sem papel e caneta fez com
que as consultas ocorram cada vez em menos tempo e, por outro lado, também
ocasiona nos pacientes a necessidade crescente de check-ups e exames por
ora desnecessários, mas solicitados por estes a seus médicos pela facilidade de
se gerarem guias em poucos instantes.
Todo avanço
possui ônus e bônus, disso já sabemos. A tecnologia que aproxima é a mesma que
afasta, quando usada de forma que a sensibilidade se perca em meio à praticidade
e ao contingente de informações recebidas e passadas o tempo todo. Se bem
aproveitada, torna-se mola mestra da mudança de paradigmas, da inovação na
forma do cuidar e na manutenção do diálogo atento e decisivo entre cuidador e
cuidado.
Toda
inovação é bem vinda, se vem para o bem. Cabe a nós trabalharmos dia após dia
para que a boa medicina impere, seja no papiro ou no software de última
geração.
Até breve!