Não é surpresa o fato de que a pandemia afetou pessoas de todas as nações, continentes, raças e grupos socioeconômicos, e que as mudanças abruptas alteraram não só a rotina, mas o psicológico de todos nós.Em um dia tínhamos uma vida agitada cheia de compromissos e obrigações que exigiam nossa presença; no outro, passamos a simplesmente não sair de casa.
Tentamos resolver o necessário “home office”,cada um lidou com a realidade a sua própria maneira,alguns lidavam com toda essa carga de estresse e o luto, outros enfrentaram realidades que vinham de certa forma mascaradas pela correria do dia a dia, como a violência doméstica e tantas outras mazelas.
Fato é que não foi fácil para ninguém,todos de alguma maneira fomos impactados, mas, quando olhamos para a classe médica, temos a absoluta certeza de que esses sofreram bastante, em todos os aspectos, lidandocom o luto por seus pacientes, colegas e muitas vezes familiares. A carga de trabalho da maioria dos médicos generalistas aumentou consideravelmente,associadaao medo de uma doença desconhecida, entre outros aspectos.
Vimos a linha de frente ser aplaudida por prédios, cidades e até aviões;foi tudo lindo e muito emocionante,mas como estão esses médicos quando se trata de saúde mental? Como estão os médicos que dão notícias ruins para familiares todos os dias? Como lidam com a perda de seus pacientes, quando, além de fazerem todo o possível, ainda torcem, têm fé e acreditam na recuperação, e estanão acontece?
Conversei com omédico Caio Gouvea Jaoude intensivista pela AMIB,especializado em Cuidados Paliativos pelo Instituto Paliar, com MBA em Gestão de Saúde e formado pela Universidade Santo Amaro.Ainda, atuante na parte gerencial, desde 2016, na reimplantação e coordenação da UTI do Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros e na restruturação e coordenação da UTI do HMU de Guarulhos.
Caio Gouvea Jaoude, que vem promovendo, desde 2012, atividades de ensino em cursos e na preceptoria de residência médica no Hospital Geral do Grajaú e Hospital do Servidor Público Estadual – IAMSPE e acompanhou de perto todo esse disparate que chamamos de pandemia,é o nosso convidado especial na entrevista de hoje.
- Visto que tínhamos a Itália como modelo, como foi para você a notícia de que o vírus havia chegado ao Brasil?
Sem dúvida nenhuma, a palavra que pode definir esse vírus naquele momento e atualmente é imprevisibilidade. Algo totalmente novo, num mundo de notícias pouco críveis e enviesadas, é extremamente perigoso e deve ser tomada toda a cautela necessária.
2. Como foi a preparação do hospital, em especial da UTI? De certa forma já houve um estresse nesse primeiro momento?
Então, o que fizemos foi ler a maior quantidade de informação possível sobre este novo acometimento e montar um time, um protocolo unificado e treinamentos diários para o atendimento dos casos. Com a liderança da estruturação do sistema de atendimento, proteção do profissional de saúde e utilizando treinamentos para otimização das condutas.
A ansiedade e o receio eram naturais, mas prevíamos uma catástrofe, já que países como Itália e Espanha, com sistemas de saúde mais acessíveis e sólidos, sofreram na pandemia.
3. Você passou a trabalhar com pessoas não intensivistas? Como lidou com essa nova rotina?
Algo que essa pandemia trouxe foi o destaque à importância do médico intensivista, pouco ainda valorizada. Foi visto que serviços com lideranças técnicas e assistenciais com intensivistas de formação tiveram resultados superiores.
No entanto, sem dúvida que o auxílio de todas as especialidades que se dispuseram a estar conosco nesse enfrentamento foram e são de extrema importância, sendo treinados para se adaptar a esse ambiente.
4. Você lembra do primeiro paciente que perdeu para um vírus até então com uma história natural desconhecida?
Gosto de lembrar do primeiro paciente de todos, que, com uma internação superior a 100 dias, saiu para casa acompanhado do filho e nos mandou um vídeo comendo um belo prato de feijão.
Os pacientes que perdemos, que não resistiramàdoença, são sempre lembrados, primeiro, segundo ou centésimo. Eles são mais que indivíduos, são famílias, amores, sustento e nos ensinam demais a cada momento.
5. Incrível! Você tinha e ainda tem uma rotina de cuidados?
Sempre. Tive e tenho. O costume obviamente nos torna mais relapsos, mas temos que nos concentrar e nos proteger para podermos continuar a cuidar.
Tirar a roupa do hospital e já lavá-laimediatamente, banho logo em seguida, são alguns dos tantos zelos. Além do fato de afastar-se de toda a sua família e amigos, já que você poderia oferecer perigo de contágio.
6. Como lidava com a sua preocupação com a sua família?
A preocupação maior que tínhamos era de infectar alguém, sem dúvida. Ficar doente era uma possibilidade bem palpável, mas nunca contaminar alguém por descuido, em especial família e amigos. Nos preocupávamos ainda mais com pais, tios eavós que se encontravam no maior grupo de risco no início da pandemia.
7. Chegou a vivenciar a perda de algum colega (próximo) de profissão?
Felizmente não, mas muitos perderam colegas próximos, familiares, amigos. Tivemos um dos nossos em estado grave, que conseguiu superar a doença no nosso próprio hospital, aos nossos cuidados e, rapidamente, voltou a integrar o time.
8. Além do paciente que contou, mais alguma história te marcou?
São muitas histórias maravilhosas e marcantes. Mas a última foi de um pai de 36 anos internado na UTI, com filho recém-nascido em casa. Caso grave, mas jovem, não poderíamos crer na gravidade da doença acometendo esse jovem pai. Ele teve complicações gravíssimas em que muitas vezes pensamos que ele não aguentaria, mas sempre acreditamos em sua recuperação. E foi após a última das 6 ventilações em posição prona (de barriga para baixo) que ele iniciou a recuperação que o tirou da UTI, do hospital após 60 dias e o fez ter seu filho de novo nos braços.
9. Que maravilhoso! Agora falando da sua atuação como intensivista. Alguma dica para os jovens médicos que trilharão por essa área?
É uma área maravilhosa, recompensadora, ativa e que abre muitas possibilidades. Mas se posso dar uma dica para todos os jovens médicos que buscam a terapia intensiva por especialidade é que aproveitem seu treinamento ao máximo e nunca se esqueçam que aquele paciente entubado é um pai, uma mãe, um filho, nunca perdendo a humanidade.
Uma dica, muito importante: tenha algo fora da medicina para seu equilíbrio emocional e distração; é fundamental e necessário termos nosso tempo livre, nossa paz e meditação.
Habilidades não-técnicas são hoje o grande diferencial, não só de profissionais, mas de pessoas felizes.
10. Algum conselho para os recém-formados que entrarão num mundo em pandemia?
Enfrentem, lutem e, principalmente, se ajudem. A parceria e a camaradagem são fundamentais. O egoísmo é uma faca que no primeiro momento fere ao outro, mas que sem perceber forma a maior ferida em si próprio.
Nessa conversa percebemos que alguns cuidados para nos mantermos firmes são necessários, como focar no que é bom, nas histórias que tiveram um belo desfecho, e desenvolver habilidades não técnicas que te trazem algum bem‑estar.
Um trabalho com 69 profissionais publicado no Jama, em abril de 2020, mostrou pelo menos cinconecessidades desses profissionais. A primeira delas é a necessidade de serem ouvidos, o medo de não serem compreendidos por seus chefes e líderes. A segunda é a necessidade de se sentirem protegidos, a preocupação não só em se proteger com os EPIs, mas também do medo permanente de transmissão da doença aos seus familiares.A terceira necessidade é a de se sentir preparado, principalmente entre aqueles que mudaram de setor; foi muito comum que dermatologistas e outras especialidades fossemrecrutados para trabalharem como intensivistas, diante de uma doença que era nova para todos. E a quarta e última necessidade é de receber suporte de amigos e familiares em um momento em que há aumento da jornada de trabalho.
Com este cenário, a Organização Mundial de Saúde liberou, em março de 2020, as seguintes orientações, retiradas deste artigo da PebMed:
É possível que o profissional ou mesmo toda a equipe de saúde sinta-se estressada, o que pode ser considerado normal diante das circunstâncias. Mas lembre-se: o estresse e os sentimentos associados não são um sinal de fraqueza ou de que você é incapaz de realizar seu trabalho. Tente administrar o estresse e seu bem-estar psicossocial, pois isso é tão importante quanto cuidar da sua saúde física;
Procure saber como oferecer apoio aos afetados pela Covid-19 e como vinculá-los aos recursos disponíveis, especialmente na população que precisa de ajuda psicossocial ou relacionada à saúde mental. O estigma em ambas as condições pode fazer com que o paciente evite procurar ajuda.
Cuide-se! Sempre que possível use estratégias de enfrentamento e tente descansar no turno de trabalho ou entre plantões; garanta sua hidratação e alimentação; pratique atividade física e mantenha contato com amigos e familiares. Evite o tabagismo ou o uso de álcool ou drogas, pois a longo prazo pode haver comprometimento da saúde mental e do seu bem-estar físico.(PebMed,Saúde mental durante a crise por Covid-19: recomendações da OMS – olink nas referências)
Infelizmente os profissionais de saúde podem sofrer com a separaçãode suas famílias ou de outras pessoas por medo ou estigma. Se possível, mantenha o contato com as pessoas que lhe são importantes ou com colegas que estão vivendo uma situação semelhante.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências Bibliográficas
Shanafelt T, Ripp J, Trockel M. Understanding and Address Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemia. Jama. 2020 Jun 2;323(21):2133-2134. doi: 10.1001/jama.2020.5893. 32259193.
Shanafelt T, Ripp J, Trockel M. Understanding and Addressing Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemic. JAMA Network. April 7th, 2020.
https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2764380
World Health Organization. Mental Health and psychosocial considerations during COVID-19 outbreak. March 18th, 2020.
https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/mental-health-considerations.pdf