Classificação BI-RADS | Colunistas

Introdução
BI-RADS é a sigla para Breast Imaging Report and Data System, que em português corresponde ao Sistema de Laudos e Registro de Dados de Imagem da Mama. Essa ferramenta foi desenvolvida pelo Colégio Americano de Radiologia e teve sua primeira edição veiculada nos Estados Unidos em 1993. A edição mais atual é a quinta, lançada em 2013, que foi traduzida e revisada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, por meio da Comissão Nacional de Mamografia.
O objetivo dessa ferramenta é divulgar uma terminologia para a emissão de laudos de imagem das mamas de forma padronizada, organizada, com uma estrutura de avaliação e um sistema de classificação das imagens, seja para fins de rastreio ou diagnóstico. É utilizado como referência para os laudos de mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética das mamas.
Por meio desse atlas, os radiologistas conseguem se comunicar com os médicos assistentes de forma clara e objetiva, fornecendo uma avaliação do caso e recomendações de propedêuticas específicas. Ou seja, tal uniformização permite um alinhamento do diálogo entre imaginologistas, mastologistas, ginecologistas e médicos generalistas, minimizando os fatores de confusão na análise das imagens.
Uma importante evolução ocorrida durante as edições foi a incorporação dos dados sobre o quadro clínico e o exame palpatório para a classificação dos resultados, o que não era levado em conta na versão de 1993. Atualmente, essas informações de anamnese e exame físico são muito relevantes para a indicação de condutas; por exemplo, nos casos em que não se identifica alterações nas imagens, mas há positividade no exame palpatório, a orientação de conduta é baseada nos achados clínicos. Da mesma forma, quando há positividade do exame de imagem sem relatos de alterações na anamnese e no exame físico, a recomendação é seguir as orientações apropriadas para os achados e buscar outros métodos para elucidação do diagnóstico.
Essa necessidade de integração entre os dados clínicos e os resultados de exames de imagem não é ao acaso, visto que, atualmente, não há nenhum método de exame ou grupo de exames que possa garantir com total certeza que a paciente não apresenta nenhuma alteração maligna da mama.
Padronização dos laudos de exames de imagem das mamas
Recomenda-se que os laudos de exames de imagem das mamas sejam organizados da seguinte forma:
- Indicação do exame: inicialmente deve-se realizar uma exposição sucinta acerca da causa que levou à solicitação do exame. As indicações mais comuns são o rastreamento, realizado nas pacientes assintomáticas, e o diagnóstico, quando há algum indício clínico que necessite elucidação diagnóstica (nódulos palpados, retração papilar, hiperemia etc.).
- Descrição sucinta da composição geral da mama: visto que os métodos de imagem não são capazes de identificar todos os casos de câncer de mama, é de extrema importância descrever os achados e características gerais das mamas. Especialmente nas mamas mais densas, em que há redução da sensibilidade dos métodos diagnósticos, o exame palpatório se mostra como um constituinte indispensável da avaliação. Os principais termos utilizados para a descrição das mamas são: mamas predominantemente adiposas, mamas com densidades fibroglandulares esparsas, mamas heterogeneamente densas (podem ocultar pequenos nódulos) e mamas extremamente densas (reduz a sensibilidade de mamografia).
- Descrição objetiva de todos os achados relevantes: os achados mais comuns nos exames de imagem são: nódulos, calcificações, distorções arquiteturais, assimetrias, linfonodos intramamários, lesões de pele, ducto único dilatado. As principais características que devem ser descritas em relação a essas alterações são sua localização, tamanho, morfologia, distribuição e outros achados associados.
- Comparação com exames anteriores: esse tópico é especialmente importante nos casos em que o exame é feito para acompanhar a evolução de uma lesão prévia já identificada. Dessa forma, a comparação entre os exames pode ser decisiva na definição da conduta, seja ela conservadora ou intervencionista.
- Avaliação: após apresentar e descrever os achados, o médico deve relatar no laudo a qual categoria do escore BI-RADS as principais alterações correspondem.
- Recomendação de conduta: nos casos em que o exame não identifica quaisquer anormalidades ou diante de alterações que certamente são benignas, deve-se orientar sobre a necessidade de rastreamento periódico, com base na idade da paciente e nas recomendações de rastreio e acompanhamento protocoladas. A edição de 2013 sugere que, nos casos em que for detectada alguma alteração suspeita com indicação de biópsia, o médico deve utilizar a frase: “a biópsia deve ser realizada na ausência de contraindicação clínica”, a fim de resguardar a decisão clínica acerca das especificidades de cada caso.
Categorias da escala BI-RADS
A avaliação dos achados do exame de imagem com base no sistema BI-RADS segue uma classificação que varia de 0 a 6. As definições e recomendações para cada categoria estão descritas a seguir:
- BI-RADS 0: essa categoria indica que a avaliação pelo presente método de imagem foi incompleta, fazendo-se necessário alguma outra avaliação adicional para melhor definição do caso, seja por outra modalidade de exame de imagem ou até mesmo exames anteriores, para fins de comparação. É geralmente usada nos exames de rastreamento.
- BI-RADS 1: indica que os achados são totalmente benignos ou quando não há nenhuma alteração relevante. A recomendação é de que seja feito um acompanhamento anual para as pacientes acima de 40 anos, com risco habitual de desenvolvimento de câncer de mama e sem antecedentes pessoais familiares.
- BI-RADS 2: corresponde a um exame cujos achados são totalmente benignos. Exemplos de achados são: calcificações características de fibroadenoma, hamartomas, lipomas e distorções arquiteturais devido a cirurgia prévia. Recomenda-se que seja feito o mesmo acompanhamento da categoria BI-RADS 1.
- BI-RADS 3: indica que a alteração encontrada é provavelmente benigna e apresenta um risco de malignidade menor ou igual a 2%. A recomendação é de que seja feito um acompanhamento anual.
- BI-RADS 4: essa categoria deve ser utilizada nos casos em que os achados são suspeitos de malignidade. Por englobar uma faixa que varia entre 3 a 95% de risco de malignidade, a edição de 2013 subdividiu a categoria em três: 4A, 4B e 4C. A recomendação de conduta para a subcategoria 4A é a realização de biópsia e espera-se um resultado benigno. Uma classificação 4B corresponde a um risco de malignidade estimado em aproximadamente 20%, sendo aconselhada a realização de biópsia percutânea com comparação entre o aspecto obtido pelos exames de imagem e o resultado da análise anatomopatológica. Já a categoria 4C representa um risco de malignidade entre 50 e 95%, sendo necessária a realização de biópsia, a qual espera-se indicar a presença de malignidade.
- BI-RADS 5: corresponde a achados tão característicos de malignidade que o médico assistente pode optar por realizar uma cirurgia ao invés da biópsia. A probabilidade de malignidade é acima de 95%.
- BI-RADS 6: essa categoria visa separar os casos em que há uma malignidade já conhecida e comprovada por biópsia, mas que ainda não foram cirurgicamente retirados. Usa-se essa categoria no monitoramento da resposta ao tratamento quimioterápico neoadjuvante e nos casos em que se identifica a presença de tumor residual mesmo após o procedimento cirúrgico.
Conclusão
O atlas BI-RADS é uma ferramenta muito útil na padronização dos exames de imagem das mamas e permite que haja uma comunicação clara e objetiva entre o médico radiologista e os outros especialistas. Dessa forma, é de grande importância que os médicos conheçam as particularidades dessa classificação, a fim de serem capazes de oferecer as melhores opções terapêuticas individualizadas para cada paciente.
Autora: Emylle Guimarães Silva
Instagram: @emylle_g
Referências bibliográficas
Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem: Mama. 1 ed. Rio de Janeiro, Elsevier. 2019.
MERCADO, Cecilia L. Bi-rads update. Radiologic Clinics, v. 52, n. 3, p. 481-487, 2014.