O clampeamento do cordão umbilical é um dos primeiros passos a serem feitos quando um bebê vem ao mundo, e tal tema, ao longo dos anos, já gerou muita discussão. Segundo as diretrizes atualizadas, o clampeamento pode ser feito de forma imediata, precoce ou tardia, dependendo das características do recém-nascido e das duas condições ao nascer. Atualmente, para tomar a decisão do momento correto de se realizar o clampeamento, leva-se em consideração a vitalidade do recém-nascido, sua classificação quanto à idade gestacional e integridade da placenta. A partir disso, vamos entender melhor os critérios atuais para o clampeamento do cordão umbilical?
Avaliação do recém nascido: boa vitalidade
Antes mesmo do bebê nascer, é necessário conhecer a história materna a fim de entender a história da gestação atual. Com a anamnese, é possível identificar doenças de base, doenças da gestação, conhecer o risco de infecção e outros fatores que possam influenciar as condições de parto.
Além disso, a sala de parto e a equipe devem estar preparadas para receber esse RN e prontas para realizarem sua recepção e reanimação caso seja necessário.
Dessa forma, antes do bebê nascer, é possível determinar a idade gestacional, a partir do cálculo pela ultrassonografia ou pela DUM (Data da Última Menstruação), portanto, obtém-se a classificação do RN como pré-termo (IG menor que 37 semanas), termo (37 a 41 semanas) e pós-termo (IG maior que 42 semanas).
Logo ao nascer, podemos através da observação do recém-nascido, avaliar seu tônus. Isso é feito observando sua postura, verificando se está fletido, ou se está hipotônico. Espera-se, que um RN com boa vitalidade apresente membros em flexão.
Ademais, é necessário notar se o bebê chora e respira ao nascer. Podemos classificar seu choro, sendo fraco ou forte, e sua respiração como regular ou irregular.
Portanto, esses três parâmetros são avaliados no momento do parto, e as três seguintes perguntas devem ser respondidas:
- RN é termo?
- RN respira ou chora?
- Apresenta bom tônus?
Dessa forma, se o RN é termo, respira ou chora e apresenta bom tônus, é um bebê com boa vitalidade fetal. Por outro lado, se qualquer um desses itens apresentar alteração, o RN não tem uma boa vitalidade e necessitará de reanimação.
Clampeamento tardio do cordão
Se a resposta para as três perguntas for “sim”, ou seja, se temos um bebê termo, com bom tônus respirando ou chorando, podemos adotar um clampeamento tardio, independente do aspecto do líquido amniótico. Esse clampeamento, portanto, deverá será feito entre 1 e 3 minutos. Segundo estudos, essa conduta traz benefícios com relação aos índices hematológicos na idade de 3-6 meses.Vale reforçar que, durante esse processo, o bebê pode ser posicionado sobre o abdome materno.
Clampeamento imediato do cordão
Já no caso em queo RN não estiver chorando ou respirando ou não apresentar bom tônus, é preconizado o clampeamento imediato, devendo ser realizado em até 15 segundos após o nascimento. Tal medida é recomendada, pois, em neonatos que não iniciam a respiração ao nascer, o clampeamento tardio do cordão pode causar um atraso no início da ventilação com pressão positiva, reduzindo o sucesso da reanimação, com maiores chances de admissão em unidade de cuidados intermediários ou intensivos ou morte no primeiro dia de vida.
Outra indicação para o clampeamento imediato do cordão é quando a placenta não está íntegra, como ocorre no caso de um Descolamento Prematuro de Placenta (DPP), na Placenta Prévia (PP) ou no prolapso ou nó verdadeiro de cordão.
Clampeamento precoce do cordão
Uma situação especial é se o RN tiver menos de 34 semanas (pré-termo), mas apresentar bom tônus, respira ou chora ao nascer. Nesse caso, é recomendado adotar um clampeamento precoce, devendo ser realizado entre 30 segundos e 1 minuto. Lembrando que o RN nesse período pode ser posicionado sobre o abdome materno. Entre os benefícios do clampeamento precoce, temos uma menor incidência de hemorragia intracraniana e enterocolitenecrosante e menor necessidade de transfusões sanguíneas. Alguns efeitos adversos dessa medida seriam a hiperbilirrubinemia indireta, com indicação de fototerapia pelo aumento do volume sanguíneo circulante, com estabilização mais rápida da pressão arterial, em consequência da transfusão placentária.
Vantagens do retardo no clampeamento do cordão umbilical
Em recém-nascidos pré-termo ou de baixo peso ao nascer (peso menor que 2.500g), os principais benefícios imediatos são a redução do risco de hemorragia intraventricular e sepse de início tardio; reduz a necessidade de transfusão sanguínea, de administração de surfactante e a necessidade de ventilação mecânica; aumenta os níveis de hematócrito e hemoglobina, aumenta a pressão sanguínea e a oxigenação cerebral. Já os benefícios a longo prazo para esse grupo inclui o aumento da hemoglobina com 10 semanas de idade.
Para os recém-nascidos a termo, um benefício imediato é o aporte de volume adequado de sangue e de reserva de ferro ao nascimento. A longo prazo, melhora os índices hematológicos e hemoglobina e hematócrito entre 2 e 4 meses de idade e melhora as reservas de ferro até os 6 meses de idade.
Autor: Marcela Facina dos Santos
Instagram: @marcela_facina
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2016 da Sociedade Brasileira de Pediatria 26 de janeiro de 2016 –https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/DiretrizesSBPReanimacaoRNMaior34semanas26jan2016.pdf
Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2016 da Sociedade Brasileira de Pediatria 26 de janeiro de 2016 –https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/DiretrizesSBPReanimacaoPrematuroMenor34semanas26jan2016.pdf
Além da sobrevivência: Práticas integradas de atenção ao parto, benéficas para a nutrição e a saúde de mães e crianças – https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/pdfs/Alem_sobrevivencia_Praticas_integradas_atencao_parto.pdf