Saiba quando a cirurgia ortognática é indicada, como é feita e os cuidados no pós-operatório.
A cirurgia ortognática envolve técnicas de osteotomia no sistema mastigatório, visando corrigir desalinhamentos maxilares e promover a harmonia entre a face e o crânio. Portanto, ao restaurar a relação entre a maxila e a mandíbula, esse procedimento melhora funções essenciais, como a mastigação, a respiração, a fala e a estética facial.
Dada a magnitude das transformações proporcionadas pela cirurgia ortognática, seu impacto vai além da esfera física, influenciando diretamente a vida social e emocional do paciente. Assim, é fundamental que o indivíduo esteja preparado psicologicamente para as mudanças decorrentes do tratamento.
Indicações da Cirurgia Ortognática
A escolha de submeter-se a um tratamento cirúrgico deve ser do próprio paciente. Portanto, nem o profissional de saúde nem a família devem influenciá-lo a realizar um procedimento que resultará em mudanças permanentes em sua aparência e em sua personalidade.
A estética facial é um dos principais fatores que levam os pacientes a buscarem o tratamento cirúrgico, pois a aparência tem grande importância em nossa sociedade e influencia diretamente os relacionamentos interpessoais. Além disso, outros fatores que levam à procura por esse tipo de tratamento incluem influência familiar, recomendação do ortodontista e dificuldades funcionais.
Ademais, as principais indicações para a cirurgia ortognática incluem:
- Dificuldades na mastigação;
- Problemas na fala;
- Dor persistente na mandíbula ou maxila;
- Desalinhamento severo dos dentes;
- Limitação na abertura da boca;
- Mordida aberta;
- Lesões ou malformações congênitas;
- Queixo retraído;
- Mandíbula proeminente;
- Dificuldade em manter os lábios selados em repouso;
- Respiração bucal crônica;
- Apneia do sono.
Avaliação e planejamento pré-cirúrgico
Realiza-se a avaliação do paciente por meio da anamnese, considerando o motivo da busca pelo profissional (seja por questões estéticas ou funcionais), bem como as expectativas e necessidades do paciente em relação ao tratamento.
Além disso, a avaliação envolve a obtenção de documentação fotográfica intra e extraoral, a confecção de modelos em gesso, exames complementares, como radiografias panorâmicas, periapicais e telerradiografia de perfil, além da análise cefalométrica.
Esse processo permite examinar as arcadas dentárias para identificar discrepâncias dento-alveolares, presença de diastemas e apinhamentos dentários. A análise cefalométrica, por sua vez, possibilita verificar possíveis compensações dentárias e avaliar o posicionamento das bases apicais dos dentes. Durante a avaliação, também realiza-se a análise do periodonto, com o objetivo de determinar sua capacidade de suportar as movimentações dentárias.
Após a conclusão do diagnóstico, realiza-se o planejamento, que vai além do procedimento cirúrgico em si e que dura entre 18 e 24 meses. Portanto, é necessário um preparo prévio que envolve o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar composta por cirurgião bucomaxilofacial, ortodontista, psicólogo e fonoaudiólogo.
Destaca-se que a ortodontia desempenha um papel fundamental nesse processo, pois o alinhamento adequado dos arcos dentários antes da cirurgia é essencial para garantir uma correção precisa e eficaz.
Procedimentos cirúrgicos da cirurgia ortognática
Os tipos de cirurgia ortognática mais comuns são aqueles voltados para correções das classes II e III, sendo a Osteotomia Le Fort I a técnica cirúrgica mais empregada em casos de alterações dento-esqueléticas.
Além disso, um passo fundamental nesse processo é a realização da cirurgia de modelo, que consiste na simulação prévia do procedimento cirúrgico por meio de traçados e marcações nos modelos confeccionados.
Por fim, é possível realizar alguns tratamentos complementares, pois, frequentemente, a simetria e as projeções desejadas dos tecidos moles não são atingidas. Nesse contexto, recomenda-se o preenchimento, que atua como um auxiliar na busca por contornos faciais que atendam às expectativas estéticas tanto dos pacientes quanto dos profissionais.
Complicações pós-operatórias da cirurgia ortognática
As complicações pós-operatórias podem surgir logo após a cirurgia ou meses depois, com algumas aparecendo no intraoperatório, no final da cirurgia ou durante a recuperação da anestesia.
Dessa forma, os pacientes, com o apoio do cirurgião-dentista, devem avaliar cuidadosamente a real necessidade da cirurgia, considerando que as taxas de complicações podem ultrapassar 40%.
Além disso, é fundamental entender as expectativas dos pacientes, pois estas estão diretamente ligadas ao nível de satisfação após o procedimento. Fatores como pessimismo, ansiedade e a falta de suporte social apresentam um risco maior de complicações.
Entre as principais complicações associadas a cirurgia ortognática, estão:
- Recidivas;
- Lesão neurológica;
- Dor neuropática;
- Mudança da morfologia nasal;
- Desordem temporomandibular;
- União retardada ou não união do local da osteotomia;
- Infecção;
- Insuficiência respiratória;
- Pseudoaneurisma;
- Lesão no dente;
- Tromboembolismo venoso (TEV);
- Vômitos e náuseas;
- Ronco ou apneia obstrutiva do sono;
Recidivas
Podem ocorrer devido a fatores como a rotação óssea, assimetria maxilar, alterações na posição dos dentes ou côndilos, e falhas em procedimentos ortodônticos pré-cirúrgicos.
Lesão neurológica
Danos aos nervos alveolar inferior, mentoniano, infraorbitário e facial podem ocorrer. A recuperação sensorial pode ser lenta e incompleta, com efeitos persistindo por até 24 semanas após a cirurgia.
Dor neuropática
Pacientes podem apresentar dor persistente após a cirurgia, assim como dores neuropáticas e musculoesqueléticas. Procedimentos como Osteotomia do Ramo Sagital Segmentada Bilateral (BSSRO) e osteotomia Le Fort I, por exemplo, podem causar dor neuropática crônica debilitante.
A dor que persiste por até um mês após a cirurgia pode indicar lesão nos axônios, e, caso essa lesão não se cure completamente, a dor pode continuar por mais tempo. Portanto, o manejo adequado da dor neuropática é fundamental para evitar complicações a longo prazo.
Mudança da morfologia nasal
O reposicionamento da maxila durante a cirurgia pode alterar a forma do nariz, podendo exigir rinoplastia subsequente.
O alargamento nasal e a inclinação do nariz, por exemplo, são alterações comuns, sendo o primeiro minimizado através de técnicas de sutura adequadas.
Desordem temporomandibular (DTM)
Há controvérsia sobre a relação entre cirurgia ortognática e DTM. Alguns estudos sugerem que a cirurgia pode melhorar ou piorar a condição e, dessa forma, a necessidade de critérios diagnósticos mais precisos é fundamental.
União retardada ou não união do local da osteotomia
A falha na cicatrização óssea, devido a fatores como fixação inadequada ou doenças sistêmicas, pode levar a um retardo da união ou não união do local da osteotomia.
Infecção
As infecções são raras, mas quando ocorrem, podem levar a complicações graves como perda dentária, sepse ou osteomielite.
Alguns fatores como idade, tempo cirúrgico, tabagismo, presença de terceiros molares, e comorbidades associam-se a um maior risco dessa complicação.
Ademais, o uso de antibióticos de forma profilática ou no pós-operatório tem gerado controvérsias. Embora alguns estudos recentes tenham indicado que a administração rotineira antes e depois da cirurgia não é necessária, outros estudos demonstraram que esses medicamentos são eficazes na prevenção ou diminuição da incidência de infecções. Isso faz com que o uso de antibióticos seja considerado uma opção, dependendo do protocolo cirúrgico adotado pelo profissional.
Insuficiência respiratória
Pode ser causada por obstrução das vias aéreas, atelectasia ou complicações devido à intubação.
Além disso, durante a Osteotomia do Ramo Sagital Segmentada, a retroversão da mandíbula pode reduzir consideravelmente o espaço aéreo. Dessa forma, potenciais complicações pós-cirúrgicas, como a insuficiência respiratória, podem ser evitadas ao ajustar adequadamente o recuo necessário.
Pseudoaneurisma
Embora raro, o pseudoaneurisma pode ocorrer, causando sangramento tardio e edema facial. Em alguns casos, quando a exploração cirúrgica e a ligadura vascular não controlarem o sangramento, intervenções como a embolização pode ser necessária.
Lesão no dente
Dano a dentes e raízes pode ocorrer durante a cirurgia, podendo resultar em necrose pulpar, com necessidade de tratamento endodôntico pós-cirúrgico.
Tromboembolismo Venoso (TEV)
Fatores como permanência hospitalar prolongada, imobilidade e hipóxia local pode aumentar o risco de TEV em pacientes submetidos a cirurgia ortognática.
Vômitos e náuseas
São sintomas comuns após a anestesia geral e podem levar a desfechos adversos, como desidratação, deiscência da ferida, sangramento, hematoma e aspiração de conteúdo gástrico.
Ronco ou Apneia Obstrutiva do Sono (AOS)
Mudanças nas vias aéreas após cirurgia ortognática podem causar ronco ou AOS, especialmente em casos de retração mandibular extensa.
Cuidados no pós-operatório da cirurgia ortognática
No pós-operatório da cirurgia ortognática, as intervenções têm como foco a prevenção de complicações cirúrgicas, o monitoramento da sensibilidade e motricidade, o manejo da dor e o controle da ansiedade.
Logo após a cirurgia, é essencial a realização do monitoramento das vias aéreas do paciente, pois o edema resultante do procedimento pode causar obstrução. Portanto, realiza-se acompanhamento da saturação de oxigênio a fim de identificar precocemente a hipóxia. Além disso, mantém-se a cabeceira do leito elevada para garantir a desobstrução das vias aéreas.
Ademais, outros cuidados pós-operatórios envolvem ajustes na dieta, higiene bucal, manejo de alterações faciais como edema e hematomas, uso de bloqueio intermaxilar e controle da dor.
Por fim, o cuidado também deve focar em educar o paciente e seus familiares, além de garantir o acompanhamento domiciliar, que desempenha um papel fundamental no sucesso do tratamento.
Benefícios e resultados da cirurgia ortognática
Após a cirurgia, muitos pacientes demonstram maior confiança e disposição para estabelecer novas relações, pois os benefícios funcionais e estéticos são rapidamente percebidos.
Além disso, a cirurgia ortognática proporciona melhorias em condições funcionais, como mastigação, fonação, deglutição e respiração.
Entretanto, é fundamental compreender as expectativas dos pacientes, pois elas estão diretamente relacionadas ao nível de satisfação após a cirurgia. Fatores como pessimismo, ansiedade e falta de suporte social aumentam os riscos de complicações. Dessa forma, quanto mais tranquilo o paciente, maior será a probabilidade de um bom resultado e satisfação.
Existem três grupos que contribuem para a insatisfação:
- Fatores ligados ao paciente (como questões psicológicas);
- Fatores ligados ao profissional (preparo inadequado do paciente antes da cirurgia);
- Relação entre paciente e profissional (falta de comunicação ou conflitos).
Para reduzir o impacto da falta de comunicação entre paciente e profissional, é fundamental que este último forneça todas as informações relevantes sobre a cirurgia, como possíveis desconfortos devido ao bloqueio maxilo-mandibular prolongado, duração da cirurgia, risco de perda de sangue, tempo de internação, dificuldades alimentares, perda de peso, afastamento do trabalho e uso de aparelhos ortodônticos por longos períodos após o procedimento, além dos riscos associados à anestesia geral.
Se o paciente não for informado de forma clara e realista, qualquer situação inesperada pode gerar insatisfação. Ao fornecer informações precisas, incluindo os riscos e benefícios, o profissional evita criar expectativas irreais e o sucesso cirúrgico pode ser alcançado com maior facilidade.
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Referências
- LEMOS, A. C. A. et al. Cirurgia ortognática: revisão de literatura. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, v.4, n.3, p. 12900-12910 may./jun. 2021.
- RIBAS, M. O. et al. Cirurgia ortognática: orientações legais aos ortodontistas e cirurgiões bucofaciais. R Dental Press Ortodon Ortop Facial. Maringá, v. 10, n. 6, p. 75-83, nov./dez. 2005.
- SILVA, J. B. G. Complicações e cuidados no pós-operatório de cirurgia ortognática. Maringá, 2022.