Embora a vida do cirurgião seja bastante
romantizada na televisão e no cinema, o dia a dia desse profissional é algo que
chama a atenção inclusive daqueles que já estão acostumados com a rotina
corrida de um hospital. Se a medicina já exige estudos constantes, a cirurgia
exige ainda mais concentração. É necessário que o profissional entenda não só
das patologias em si, mas da anatomia e das técnicas detalhadas de cada região.
Desde a residência, eles enfrentam
longas e exaustivas jornadas de trabalho, que envolvem o registro da evolução dos
pacientes (geralmente, nas madrugadas), passam visita com seus superiores antes
das seis horas da manhã e tanto é o trabalho que muitas vezes não lhes sobra tempo
nem para comer.
Para os que não têm familiaridade com
a profissão, pode até parecer que o que é retratado nas telas é uma versão
exagerada, mas, acreditem, essa rotina consegue ser ainda mais complicada e não
é por acaso que as séries médicas de maior sucesso são aquelas que envolvem o
dia a dia do cirurgião: é mesmo incrível ter a oportunidade de acompanhar esse
dia-a-dia tão atribulado, porém absurdamente prazeroso.
Conversamos com João Haak, cirurgião-geral
formado pela Faculdade de Medicina Santo Amaro, sobre a realidade enfrentada a
fim de esclarecer um pouco as dúvidas dos que querem trilhar esse lindo caminho.
Confira a entrevista!
- Como você se classifica quando era aluno? Era o “nerd” da sala?
Não
sou o melhor exemplo como aluno. Era normal até o quarto ano, fazia liga do
trauma, porque já pensava um pouco em cirurgia. No internato, era mais
empenhado, mais dedicado, mas ainda fiquei bem na dúvida se queria cirurgia ou
não. Decidi mesmo depois que eu formei.
- Acredita que
o aluno que escolhe a cirurgia já tem um perfil?
Vou ser sincero. Acho que sim, é do perfil da
pessoa! Eu lutei um pouco contra isso, achava que o ambiente da cirurgia era um
ambiente que me incomodava um pouco, o comportamento das pessoas, mas não
sobrou muita opção depois que trabalhei um ano como medico de saúde da família
e plantão no pronto socorro.
- Quais as
características que você considera imprescindíveis para um bom cirurgião?
Antes
de ser um bom cirurgião, você tem que ser um bom médico, sempre falo isso para
os residentes. As características para ser um bom cirurgião são características
importantes para qualquer profissão: responsabilidade, compromisso, humanidade,
seriedade, entre outros. Uma coisa importante na Medicina e na cirurgia (e isso
é muito predominante) é a hierarquia! Se você chegou depois, você chegou
depois, tem que saber respeitar isso. Mas, respondendo, é principalmente
responsabilidade e comprometimento com o seu paciente. Isso é imprescindível.
Até porque a técnica, como eu falo, é igual a serviço de macaco, você ensina dez
vezes e o macaco aprende a costurar. Mas fazer uma história, exame físico,
conhecer as doenças e estar atento ao que o paciente conta, isso é o
comprometimento do profissional, da gente. Mas não é nenhum mistério são coisas
necessárias para qualquer tipo de profissão, eu entendo assim.
- Você se
considera paciente? Acha isso importante para um cirurgião?
Sim,
com certeza.
- Em que
momento decidiu que seria cirurgião-geral? Tinha outra opção?
Quando
eu saí dá faculdade, pensei em fazer clínica médica e hemodinâmica, trabalhar
com cateterismo, mas, quando fui trabalhar, eu percebi que clínica médica não
era o que eu gostaria de fazer para a minha vida, então cheguei à conclusão de que
gostaria de fazer uma especialização que envolvesse mais procedimentos, mais
adrenalina.
- Eu acho a
residência de geral bastante puxada, você também?
Depois
que a gente passa, olhando para trás, fica tudo mais fácil. Mas, quando você é
R1, é o “tapetão do hospital”, o que faz ficar mais ou menos maçante é a atitude
do residente, tem alguns que precisam passar dez mil visitas e nenhuma vai
ficar boa… Isso varia muito de pessoa, mas foi difícil sim. No meu R2, eu
passava com o R1 e com o R3, sempre tem que passar, as vezes no meio do dia o
cara quer saber as coisas… Tem que passar! (risos)
- No primeiro
ano de residência, você tinha que ir todos os dias de domingo a domingo?
Pode dizer que viveu cem por cento para a medicina?
Eu
vivi cem por cento para a residência. Na época, ainda estava solteiro, morando
sozinho a 700 metros do hospital, vinha a pé. Além de que era residência e só
isso. Isso foi bom.
- Fazia uso de
algum tipo de energético?
Sim,
comprei uma cápsula de cafeína que durou o R1 e o R2. Hoje não mais.
- Tem alguma
dica para se adequar a essa rotina?
Não
tem jeito. Eu sempre digo que aprende a nadar quem pula no rio, né?! Eu costumo
dizer que você tem que entrar no modo de imersão total, e se dispor a fazer
isso; tem gente que quer ter vida social, não dá para fazer tudo. Tem que se
dedicar, ter uma imersão nisso, analisar se é o que você quer e continuar ou desistir.
- Acordar muito cedo já se tornou um estilo de vida?
Sim,
hoje mesmo acordei às 4 horas da manhã. É normal.
- Durante a residência existiu um marco? Ou um dia inesquecível?
Não,
eu não lembro de nenhum dia inesquecível. No começo, você não faz nada, só
escuta. Não tem como fazer m@%$& no começo. (risos)
- Qual a sua opinião sobre a mudança para os três anos de residência?
É
bom, é importante. É difícil você sair do R2 com o título de cirurgião, já para
trabalhar como cirurgião… Um
terceiro ano é importante, sim, vai sair melhor formado.
- A escolha do local da residência influencia muito na vida prática?
Com
certeza. Isso é uma longa história. Você tem que saber o que você quer para o
futuro, né?! Se você já tem uma idéia do R+ que você quer, o ideal é fazer
residência em um lugar que já tenha essa subespecialidade, você já é um residente
da casa, já se prepara para conseguir seu espaço. No meu caso, eu queria
operar, atender porta com trauma, queria adrenalina e aí você tem que priorizar
isso, onde tem porta aberta, onde tem menos R+. Onde tem muito R+, você não vai
operar, quem opera são eles, o R1 instrumenta, monta mesa, assiste… Então, o
volume de cirurgia no final do R2 vai ser menor do que em lugares que não tem
R+, porque, tudo que for cirúrgico, os R1 que vão fazer. Tudo isso você tem que
pesar, ver bem o que você quer para a sua residência, como você escolheu
cirurgia geral, o que você quer dentro disso?! Então, pesa sim. Saiba que, se
você quiser pegar mais mão, vai para um lugar que não tem subespecialidade,
então terá que prestar outra prova onde as pessoas da casa vão ter prioridade
em relação a você e assim por diante.
- Como é a rotina de um cirurgião hoje?
Minha experiência
é pequena, não dá para generalizar isso. Com o diploma na mão, pode fazer o
cadastro e trabalhar em qualquer hospital, pode ter seu consultório, operar
seus pacientes fazer pré e pós-operatório, ganhar dinheiro.
- Já teve algum momento que você classifica como o pior ou o melhor?
Não.
- Hoje seus horários continuam tumultuados?
Tenho
que acordar cedo, ainda mais porque não moro em São Paulo, estou a 80 km.
- Algum conselho para quem quer trilhar o caminho da cirurgia geral?
Um
conselho que eu deixo é o comprometimento com o paciente, dedicação, estudo e
fazer uma imersão, principalmente no R1, que não tem segredo. O que não dá é
para você querer fazer tudo, querer ter vida social, curtir, passar os
plantões… Não dá para se adequar a tudo, é preciso ter prioridade. Lembre-se
que a residência passa, tem dia e hora para acabar, demora um pouco, mas acaba.
Enfim, ser cirurgião envolve dedicação, muito estudo, destreza e treinamento contínuo; é preciso ter habilidade e segurança para lidar com o imprevisto e estar preparado para viver uma vida de entrega a profissão.
Autoria: Talita Bigoli