CID D65: Coagulação intravascular disseminada [síndrome de desfibrinação]
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Definição
A Coagulação Intravascular Disseminada (CID) é uma síndrome clínico-laboratorial complexa e dinâmica, caracterizada pela ativação sistêmica e desregulada da cascata de coagulação, resultando na geração excessiva e difusa de trombina e fibrina. Esta ativação maciça leva à formação de microtrombos difusos na microcirculação, causando isquemia e falência de múltiplos órgãos, enquanto o consumo concomitante de plaquetas e fatores de coagulação, juntamente com a ativação secundária da fibrinólise, resulta em uma diátese hemorrágica paradoxal. A CID não é uma doença primária, mas sim uma complicação secundária a uma variedade de condições subjacentes graves, como sepse, trauma, neoplasias malignas, complicações obstétricas e reações imunológicas, que desencadeiam uma resposta inflamatória sistêmica e lesão endotelial. Sua fisiopatologia envolve a liberação de citocinas pró-inflamatórias, expressão de fator tecidual e inibição dos mecanismos anticoagulantes naturais, criando um estado de hipercoagulabilidade e consumo. A epidemiologia da CID é variável, com incidência estimada em 1% de todas as internações hospitalares, sendo mais comum em unidades de terapia intensiva, onde está associada a alta morbimortalidade, com taxas de mortalidade que podem ultrapassar 50% em casos graves, dependendo da condição de base e da rapidez do diagnóstico e intervenção.
Descrição clínica
A CID apresenta um espectro clínico variável, desde formas subclínicas ou crônicas, com manifestações sutis, até formas agudas e fulminantes, com risco iminente de morte. Clinicamente, caracteriza-se pela coexistência paradoxal de fenômenos trombóticos e hemorrágicos. Os sinais trombóticos incluem isquemia periférica (como livedo reticular, cianose e gangrena), disfunção orgânica aguda (como insuficiência renal, respiratória ou hepática) e eventos tromboembólicos. Os sinais hemorrágicos variam de petéquias, equimoses e sangramento de mucosas a hemorragias graves em sítios cirúrgicos, trato gastrointestinal ou sistema nervoso central. A apresentação aguda é comum em sepse ou trauma, enquanto formas crônicas podem ocorrer em neoplasias, com sangramentos predominantes. O diagnóstico requer alta suspeição clínica em pacientes com condições predisponentes, sendo confirmado por achados laboratoriais de consumo de fatores de coagulação, trombocitopenia e marcadores de fibrinólise.
Quadro clínico
O quadro clínico da CID é heterogêneo, variando de assintomático a catastrófico, dependendo da gravidade e da condição subjacente. Em formas agudas, os pacientes podem apresentar sangramento espontâneo ou em sítios de punção, como petéquias, equimoses, epistaxe, gengivorragia, hematúria, melena ou hemorragia intracraniana. Simultaneamente, manifestações trombóticas incluem livedo reticular, cianose periférica, gangrena digital, oligúria ou anúria por necrose cortical renal, dispneia por embolia pulmonar ou SDRA, e alterações neurológicas por microtrombos cerebrais. Sinais sistêmicos como febre, hipotensão, taquicardia e confusão são comuns, especialmente em sepse. Em formas crônicas, como em câncer, pode haver sangramento mucocutâneo recorrente e trombose venosa profunda. A evolução é rápida em casos agudos, com deterioração clínica em horas, enquanto formas crônicas podem persistir por semanas. A suspeita deve ser alta em pacientes com condições predisponentes e sinais de coagulopatia.
Complicações possíveis
Falência de Múltiplos Órgãos
Devido à microtrombose difusa, levando a insuficiência renal aguda, síndrome do desconforto respiratório agudo, disfunção hepática, ou encefalopatia.
Hemorragia Grave
Sangramento em sítios críticos como sistema nervoso central, trato gastrointestinal ou pós-cirúrgico, com risco de choque hipovolêmico e morte.
Necrose Isquêmica
Gangrena periférica ou necrose de órgãos (ex: córtex renal) devido à oclusão vascular por trombos.
Choque e Instabilidade Hemodinâmica
Associado à condição subjacente (ex: sepse) e perda sanguínea, requerendo suporte vasopressor e volumétrico.
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Saiba maisEpidemiologia
A CID tem uma incidência estimada de aproximadamente 1% em todas as internações hospitalares, sendo mais prevalente em unidades de terapia intensiva (UTI), onde pode afetar até 30-50% dos pacientes com sepse grave ou trauma. É mais comum em adultos, mas pode ocorrer em qualquer idade, incluindo neonatos. As principais causas epidemiológicas incluem sepse (35-50% dos casos), trauma (15-20%), neoplasias (10-15%, especialmente leucemia promielocítica aguda e adenocarcinomas), e complicações obstétricas (5-10%). A mortalidade é alta, variando de 20% a 50% globalmente, com piores desfechos em idosos e naqueles com comorbidades. Dados do Brasil alinham-se com padrões internacionais, com sepse sendo a principal causa em UTIs. A vigilância é desafiadora devido à natureza secundária da síndrome, mas notificação de casos graves em serviços de saúde é recomendada para monitoramento.
Prognóstico
O prognóstico da CID é reservado, com mortalidade variando de 20% a 50% ou mais, dependendo da gravidade, da condição subjacente e da rapidez do tratamento. Em sepse, a mortalidade pode exceder 50%, enquanto em formas crônicas associadas a câncer, é geralmente melhor, mas ainda significativa. Fatores de mau prognóstico incluem idade avançada, comorbidades, atraso no diagnóstico, falência de múltiplos órgãos, sangramento intracraniano e níveis muito baixos de fibrinogênio ou plaquetas. A recuperação depende do controle da causa desencendente e do suporte intensivo; sequelas podem incluir insuficiência renal crônica ou déficits neurológicos. Monitorização laboratorial seriada e abordagem multidisciplinar são essenciais para melhorar os desfechos.
Perguntas Frequentes
Editorial Sanarmed
Este conteúdo foi desenvolvido pela equipe médica e editorial da Sanar, plataforma líder em educação médica no Brasil. Nosso compromisso é fornecer informações médicas precisas, atualizadas e baseadas em evidências.
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