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CID D46: Síndromes mielodisplásicas
D460
Anemia refratária sem sideroblastos
D461
Anemia refratária com sideroblastos
D462
Anemia refratária com excesso de blastos
D463
Anemia refratária com excesso de blastos com transformação
D464
Anemia refratária, não especificada
D467
Outras síndromes mielodisplásicas
D469
Síndrome mielodisplásica, não especificada
Mais informações sobre o tema:
Definição
As síndromes mielodisplásicas (SMD) constituem um grupo heterogêneo de doenças hematológicas clonais da medula óssea, caracterizadas por displasia morfológica em uma ou mais linhagens mieloides, citopenias periféricas e risco variável de progressão para leucemia mieloide aguda (LMA). A patogênese envolve mutações somáticas em células-tronco hematopoiéticas, levando a hematopoiese ineficaz, apoptose aumentada de precursores medulares e instabilidade genômica. A incidência aumenta com a idade, sendo mais comum em idosos, e representa uma causa significativa de morbimortalidade por infecções, sangramentos e transformação leucêmica. A classificação pela OMS (2016) inclui subtipos como anemia refratária com displasia unilinhagem, anemia refratária com sideroblastos em anel, citopenias refratárias com displasia multilinhagem, anemia refratária com excesso de blastos-1 e -2, síndrome mielodisplásica associada à deleção 5q isolada, e síndrome mielodisplásica inclassificável.
Descrição clínica
As SMD manifestam-se tipicamente com sintomas relacionados às citopenias: fadiga, palidez e dispneia devido à anemia; infecções recorrentes por neutropenia; e equimoses, petéquias ou sangramentos por trombocitopenia. A esplenomegalia ou hepatomegalia podem ocorrer, mas são menos frequentes. O curso é variável, desde indolente até rapidamente progressivo, dependendo do subtipo, escore prognóstico internacional (IPSS-R) e comorbidades. A progressão para LMA ocorre em aproximadamente 30% dos casos, com pior prognóstico.
Quadro clínico
O quadro clínico é insidioso, com sintomas de anemia (astenia, dispneia aos esforços), infecções bacterianas ou fúngicas por neutropenia, e manifestações hemorrágicas (epistaxe, gengivorragia, equimoses) por trombocitopenia. Sinais físicos podem incluir palidez cutaneomucosa, petéquias, esplenomegalia (em 10-20% dos casos) e perda ponderal. A evolução é variável, com alguns pacientes estáveis por anos e outros progredindo rapidamente para LMA.
Complicações possíveis
Progressão para leucemia mieloide aguda
Transformação leucêmica com piora do prognóstico, requerendo quimioterapia intensiva ou transplante.
Infecções graves
Sepse, pneumonia e infecções fúngicas invasivas devido à neutropenia e disfunção imunológica.
Sangramentos
Hemorragias intracranianas ou digestivas por trombocitopenia grave e disfunção plaquetária.
Sobrecarga de ferro
Hemocromatose secundária por transfusões crônicas, levando a disfunção cardíaca, hepática e endócrina.
Síndrome de liberação de citocinas
Resposta inflamatória exacerbada em alguns tratamentos, como com azacitidina ou após transplante.
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A incidência anual das SMD é de aproximadamente 4-5 casos por 100.000 habitantes, aumentando para >30/100.000 em indivíduos >70 anos. É mais comum em homens e caucasianos. Fatores de risco incluem idade avançada, exposição prévia a quimioterapia/radiação, e síndromes hereditárias. No Brasil, estima-se subdiagnóstico devido à apresentação insidiosa.
Prognóstico
O prognóstico é variável, estratificado pelo Revised International Prognostic Scoring System (IPSS-R), que considera percentual de blastos medulares, citogenética, citopenias e idade. Pacientes de baixo risco (IPSS-R muito baixo/baixo) têm sobrevida mediana de 5-10 anos, enquanto alto risco (IPSS-R muito alto) tem sobrevida <1 ano. A progressão para LMA é o principal fator de piora. Tratamentos como agentes hipometilantes e transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas podem modificar o curso.
Critérios diagnósticos
O diagnóstico baseia-se nos critérios da OMS 2016: displasia morfológica ≥10% em uma ou mais linhagens mieloides (eritroide, granulocítica, megacariocítica) na medula óssea; citopenias periféricas persistentes (hemoglobina <10 g/dL, neutrófilos <1,8x10⁹/L, plaquetas <100x10⁹/L); blastos medulares <20% (para diferenciar de LMA); e exclusão de outras causas de displasia (ex.: deficiências nutricionais, toxinas). A citogenética (ex.: deleção 5q, -7, +8) e sequenciamento molecular (ex.: mutações em SF3B1, TP53) são essenciais para classificação e prognóstico.
Diagnóstico diferencial
Condições que devem ser consideradas no diagnóstico diferencial
Anemia megaloblástica
Caracterizada por macrocitose, deficiência de vitamina B12 ou folato, com resposta à reposição vitamínica, sem displasia clonal ou mutações somáticas.
UpToDate: 'Diagnosis and treatment of vitamin B12 and folate deficiency'
Leucemia mieloide aguda
Presença de ≥20% de blastos na medula óssea ou sangue periférico, com curso agudo e rápido progressão, diferenciada pela contagem de blastos.
WHO Classification of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues, 2017
Aplasia medular
Hipocelularidade medular global sem displasia significativa ou clones anormais, frequentemente com etiologia autoimune ou idiopática.
Guidelines for the diagnosis and management of aplastic anemia, British Journal of Haematology, 2016
Neoplasias mieloproliferativas
Como mielofibrose primária, com esplenomegalia proeminente, fibrose medular e mutações como JAK2, sem displasia predominante.
WHO Classification of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues, 2017
Citopenias por drogas ou toxinas
História de exposição a agentes mielotóxicos (ex.: quimioterapia, benzeno), com resolução após remoção do agente, sem evidência de clone displásico.
Micromedex: 'Drug-induced cytopenias'
Exames recomendados
Hemograma completo
Avaliação de citopenias (anemia, neutropenia, trombocitopenia), índices hematimétricos (VCM frequentemente aumentado) e presença de blastos.
Triagem inicial e monitorização de citopenias.
Mielograma com morfologia
Aspirado e biópsia de medula óssea para avaliação de celularidade, displasia morfológica, contagem de blastos (<20%) e sideroblastos em anel.
Confirmação diagnóstica e classificação segundo OMS.
Citogenética convencional ou FISH
Análise de alterações cromossômicas (ex.: del(5q), -7, +8, del(20q)) para prognóstico e subclassificação.
Estratificação de risco e orientação terapêutica.
Sequenciamento molecular
Detecção de mutações somáticas (ex.: SF3B1, TP53, ASXL1, DNMT3A) por NGS para prognóstico refinado.
Aperfeiçoamento do IPSS-R e seleção de terapia-alvo.
Ferro sérico, ferritina, saturação de transferrina
Avaliação de sobrecarga de ferro, comum em pacientes transfusion-dependentes.
Monitorização e manejo de hemocromatose secundária.
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Em indivíduos com exposição a carcinógenos ou síndromes hereditárias, para detecção precoce.
Proteção ocupacional
Uso de EPI em indústrias com benzeno ou radiação, para reduzir exposição.
Aconselhamento genético
Para famílias com síndromes hereditárias predisponentes, como anemia de Fanconi.
Vigilância e notificação
As SMD são de notificação compulsória em alguns sistemas de vigilância de câncer (ex.: Registro de Câncer de Base Populacional no Brasil). Recomenda-se registro em bancos de dados nacionais (ex.: INCA) para monitoramento epidemiológico. Pacientes com exposição ocupacional a carcinógenos devem ter acompanhamento específico.
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A principal diferença é a porcentagem de blastos na medula óssea: <20% nas SMD e ≥20% na LMA, conforme critérios da OMS. Além disso, as SMD têm curso mais indolente e hematopoiese ineficaz, enquanto a LMA é aguda e rapidamente progressiva.
O transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas é a única terapia potencialmente curativa, mas é reservado para pacientes selecionados devido aos riscos. Outros tratamentos visam controlar sintomas, melhorar qualidade de vida e retardar a progressão.
O IPSS-R estratifica os pacientes em grupos de risco (muito baixo a muito alto), guiando a abordagem: baixo risco pode ser manejado com suporte e agentes como lenalidomida, enquanto alto risco requer hipometilantes ou transplante.
Editorial Sanarmed
Este conteúdo foi desenvolvido pela equipe médica e editorial da Sanar, plataforma líder em educação médica no Brasil. Nosso compromisso é fornecer informações médicas precisas, atualizadas e baseadas em evidências.
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