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Cicatrização e suas anormalidades: queloides e cicatrizes hipertróficas | Colunistas

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Entenda o processo de cicatrização, suas alterações e as diferenças entre queloides e cicatrizes hipertróficas.

Quando existe alguma injúria tecidual, o organismo é responsável por restaurar a integridade estrutural e função do tecido lesado através de uma sequência de processos complexos, que são divididos em fases (dispostas a seguir) para melhor compreensão.

Usualmente existe confusão conceitual entre reparo e regeneração tecidual. O reparo da ferida tem como objetivo a restauração da integridade mecânica e das barreiras contra perda de líquido e infecção, e portanto o reestabelecimento dos padrões normais de fluxo sanguíneo e linfático (esse reparo tem como definição a cicatriz e o tecido lesado tem composição diferente do tecido original).

Já a regeneração é a restauração completa e perfeita do tecido preexistente, ou seja, não há formação de cicatriz.

Fases da cicatrização

As fases de cicatrização podem ser divididas em: inflamação, proliferação e maturação. Deve-se lembrar que essa divisão ocorre para fins didáticos, visto que, fazem parte de um processo que ocorre simultaneamente, com sobreposições entre estas fases.

Fases da cicatrização

Fase inflamatória

Nessa fase existe a reação imediata do tecido à lesão, representada pelos processos de hemostasia e inflamação, cujos objetivos são:

  • Parada do sangramento
  • Selamento superficial
  • Atuação de citocinas e células imunes.

Assim, há um momento de vasoconstrição (redução do sangramento, agregação plaquetária e coagulação) seguido de vasodilatação (permite a permeabilidade para citocinas e células imunes e início dos sinais flogísticos da inflamação).

Dessa forma, os macrófagos são as células verdadeiramente fundamentais para a cicatrização, devido ao fato que controlam a liberação de citocinas e estimulam os processos subsequentes de cicatrização. Eles secretam também fatores de crescimento.

Portanto, neste momento, a IL-1 (cuja secreção é mediada pelos macrófagos) é responsável pela ativação de linfócitos, estimulação do hipotálamo (indução de resposta febril), aumento da produção de colagenase e indução de secreção de citocinas pró-inflamatórias.

Além disso, os linfócitos T aparecem em números significativos na ferida por volta do quinto dia e tem seu pico por volta do sétimo dia. Exercem a maioria de seus efeitos sobre os fibroblastos produzindo citocinas estimuladoras, como IL-2 e fator ativador de fibroblasto, e citocinas inibidoras, como TGF-β, TNF-α e IFN-γ.

Fase proliferativa

Os efeitos da IL-1 se estendem a esta fase, aumentando o crescimento de fibroblastos, queratinócitos e a síntese de colágeno.

As respostas agudas tendem a desaparecer e a estrutura da malha aguardam o reparo através da angiogênese, fibroplasia e epitelialização. Logo, o evento marcante dessa etapa se caracteriza pela formação do tecido de granulação (rico em capilares, fibroblastos, macrófagos, arranjo de colágeno, fibronectina e ácido hialurônico).

Os fibroblastos têm como função principal sintetizar colágeno, que, conforme a cicatrização ocorre, passa por processos de maturação (que continua por meses e até anos). Estas alterações modificam a aparência da ferida e aumentam sua resistência.

A epitelialização ocorre por migração de células epidérmicas e queratinócitos.

Fase de maturação

A contração da ferida ocorre pelo movimento centrípeto de toda a espessura da pele circundante, reduzindo a quantidade de cicatriz desorganizada. Por fim, a população de fibroblastos diminui e a densa rede capilar regride.

O colágeno tipo III produzido inicialmente (mais fino e orientado paralelamente à pele), é substituído por um colágeno mais espesso direcionado ao longo das linhas de tensão (colágeno tipo I), aumentando a força tênsil da lesão.

Apesar do aumento da resistência da ferida (cujo platô se dá após 1 ano) o tecido cicatricial é mais frágil que a pele normal.

Cicatrização anormal das feridas

O processo de cicatrização é complexo. Portanto, depende de inúmeros fatores, logo, diversos eventos podem prejudicar o resultado.

Dois exemplos de alterações da cicatrização são os queloides e as cicatrizes hipertróficas, que são caracterizadas por deposições excessivas de colágeno/reduzida degradação de colágeno.

Queloide

As queloides são cicatrizes que crescem além das margens da ferida original e raramente regridem. Além disso, são mais prevalentes das populações afrodescendentes, asiáticas e hispânicas.

As áreas mais comuns para esse tipo de cicatriz são acima das clavículas, no tronco, nos membros superiores e na face. São de difícil prevenção e frequentemente são refratários a intervenções.

Assim, essas cicatrizes têm abundantes feixes de colágeno, espessos, que formam estruturas acelulares semelhantes a nódulos na porção dérmica profunda da lesão. O centro das lesões caracteriza-se pela escassez de células.

Queloide

Etiologia da cicatrização queloideana

Queloides advêm de um fenótipo singular que parece ser geneticamente predisposto a alterações na produção da matriz extracelular, que é desviado irreversivelmente por fatores como TGF-β. Dessa forma, tanto MMP-1 (colagenase) quanto MMP-9 (gelatinase) são reduzidas e a MMP-2 (gelatinase na remodelagem tardia do tecido) é significativamente elevada. A influência de fatores de crescimento tem sido estudada. No CID-10 apresenta o código L910.

Manifestações clínicas

Os sintomas de um queloide podem variar de pessoa para pessoa e dependem da gravidade da cicatriz. Alguns sintomas comuns incluem:

  • Aparência elevada

  • Prurido

  • Cor e textura diferentes

  • Crescimento contínuo.

Tratamento da queloide

Uma das abordagens mais comuns para o tratamento de queloides é o uso de injeções de corticosteroides diretamente no tecido cicatricial. Essas injeções ajudam a reduzir a inflamação e a coceira associadas aos queloides, além de ajudar a achatar o tecido cicatricial ao longo do tempo.

Além disso, a terapia com laser é outra opção de tratamento para queloides. Certos tipos de laser podem ajudar a reduzir o tamanho dos queloides e a melhorar sua textura e cor. Esta abordagem geralmente requer várias sessões para obter resultados visíveis.

A remoção cirúrgica do queloide é uma opção, mas deve ser feita com cautela. A cirurgia pode resultar em recorrência do queloide, especialmente se não for seguida por outras formas de tratamento, como injeções de corticosteroides ou terapia com laser. Por isso, é importante discutir os riscos e benefícios com um dermatologista ou cirurgião plástico qualificado.

Cicatriz hipertrófica

As cicatrizes hipertróficas, diferentemente dos queloides, respeitam os limites da ferida original e podem regredir espontaneamente.

O centro das lesões possui ilhas compostas de agregados de fibroblastos, pequenos vasos e fibras de colágeno em toda a derme.

A etiologia dessas formações advém de inflamação prolongada e recapeamento insuficiente, que se desenvolvem a partir de múltiplos efeitos estimuladores.

Tratamento de cicatriz hipertrófica e retrações cicatriciais
Fonte:https://www.cirurgiaestetica.com.br/
 

Fatores de risco da cicatrização hipertrófica

Foram identificados vários fatores associados ao desenvolvimento de cicatrizes hipertróficas, incluindo:

  • Tonalidade mais escura da pele
  • Sexo feminino
  • Idade jovem (especificamente durante a segunda década de vida)
  • Localização da lesão ou queimadura (como na área do pescoço e nos membros superiores)
  • Gravidade da lesão.

Além disso, estudos apontam que o sexo feminino apresenta uma maior predisposição às cicatrizes hipertróficas, uma tendência observada em várias doenças autoimunes.

Tratamento da cicatriz hipertrófica

O uso de silicone em folha e gel tópico é uma abordagem não invasiva comprovadamente eficaz para prevenir e tratar cicatrizes hipertróficas. Portanto, as folhas de silicone elevam a temperatura, melhoram a hidratação e reduzem os níveis de TGF-β na cicatriz, resultando em uma aparência mais suave e plana. Recomenda-se o uso por mais de 12 horas diárias por pelo menos 2 meses após o fechamento da lesão.

Além disso, a terapia compressiva, mantendo uma pressão entre 24 e 30 mmHg por seis a doze meses, é um método estabelecido para o tratamento e prevenção de cicatrizes hipertróficas, geralmente utilizando malhas compressivas.

Outro método é a laserterapia, que pode remodelar o colágeno na cicatriz, e assim melhorando sua textura e aparência. Injeções de corticosteroides também podem reduzir a inflamação e o tamanho da cicatriz.

Qual a diferença entre cicatriz hipertrófica e queloide?

A diferença entre cicatriz hipertrófica e queloide reside na sua extensão além dos limites da ferida original. Enquanto a cicatriz hipertrófica se mantém contida dentro desses limites, a queloide projeta-se para além deles, criando uma elevação mais pronunciada e volumosa.

Além disso, a queloide tende a apresentar uma textura mais densa e frequentemente exibe uma coloração mais escura do que a pele circundante.

Como prevenir cicatrização patológicas?

Dessa forma, para evitar o desenvolvimento de cicatrizes patológicas, é essencial adotar cuidados apropriados durante o processo de cicatrização. 

  • Limpeza regular da cicatriz com água e sabão neutro para prevenir infecções
  • Proteção contra traumas na área afetada para evitar irritações e complicações adicionais na cicatrização
  • Aplicação de protetor solar na região cicatrizada para evitar hiperpigmentação e diminuir o risco de formação de queloides
  • Evitar movimentos repetitivos ou excessivos na área da cicatriz, especialmente em articulações

Continue estudando:

Referências bibliográficas

  • SABISTON, D.C.Jr., ed. et al. Tratado de cirurgia: A base Biológica da prática Cirúrgica Moderna. 19ª Ed.
  • Oliveira FFG, França NMA, Garcia EB, Blanes L, Haddad A. Algorithms for the management of scars: the importance of systematizing behaviors. Rev. Bras. Cir. Plást.2021;36(4):451-456

Sugestão de leitura complementar

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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.

Autora: Gabrielle Schneid

Instagram: @gabi_schneid


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