Os impactos da COVID 19 será tema do SANARCON, um Congresso Online de Medicina realizado pela SanarMed em agosto de 2020. Para discutir o tema e propor novas perspectivas de futuro, a programação do SANARCON vai contar com médicos, professores e pesquisadores nacionais e internacionais.
Entre as principais transformações provocadas pela pandemia do novo coronavírus está o uso das tecnologias digitais como intermediários da relação entre médicos e pacientes. É sabido que recursos de Inteligência Artificial e Machine Learning tem contribuído para avanços significativos na ciência e na prática médica.
Durante a pandemia da COVID19, a demanda por tele atendimento em saúde aumentou cerca de 730% na plataforma Implus app. A busca por tele atendimento demonstra uma urgência na demanda do serviço de telemedicina e chamou atenção para a importância do uso de recursos tecnológicos na medicina.
Para entender melhor sobre esse processo de transformação, convidamos Cezar Taurion para uma valiosa conversa. Taurion é Partner de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures, Presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada), mentor e investidor anjo de startups focadas em recursos de IA. Ele participa da programação do SANARCON no dia 8 de agosto, com a palestra: I.A e Medicina: tirando o robô de dentro do médico.
Confira a entrevista na íntegra:
Para você, quais os principais impactos que a COVID19 pode trazer para a medicina e prática médica?
O COVID-19 está provocando muitas mudanças na sociedade. Nunca se parou um planeta como dessa vez. Reativá-lo no pós-pandemia será uma experiência única, pelo qual nunca passamos.
Um grande desafio é: como será este novo cenário? É impossível saber o que vai acontecer. Mas podemos considerar as lições do passado, de crises anteriores, e com base nisso, pensar sobre o futuro.
Tivemos outras crises, como a econômica de 2008 e outras grandes pandemias. Saímos de todas. O que podemos esperar agora? Já vimos que o crescimento do online para todas as nossas atividades vai incentivar o que podemos chamar de “contactless economy”.
O que pudermos fazer online, o faremos. O novo mundo pós-COVID vai nos obrigar a repensar muitos dos atuais paradigmas e valores que adotamos na vida empresarial, profissional e pessoal.
A telemedicina, o uso cada vez mais intenso da tecnologia digital e aplicação da IA na prática médica vai se acelerar em muito. Creio que avançaremos muito na direção de uma medicina mais humanizada, com forte apoio da tecnologia digital e IA.
Como você enxerga o futuro da carreira médica no mundo pós-pandemia? Algumas mudanças podem ter sido aceleradas? E de que forma a tecnologia e a inovação podem transformar o ecossistema da saúde no Brasil?
Em saúde a aplicação de tecnologias digitais no dia a dia das consultas e principalmente da IA está apenas começando e seu potencial, apesar das limitações atuais, é imenso.
O setor de saúde apresenta muitos desafios e é bem problemático. É um setor em que os seus atores vivem em conflito e o sistema como um todo, não funciona de forma eficiente.
As relações médico e paciente são desconectadas, com a imensa maioria dos médicos, estressados e pressionados, dispensando pouco tempo na pessoa do paciente em si e apenas olhando exames e prescrevendo medicamentos.
Estes contatos esporádicos e superficiais provocam erros de diagnósticos e acabam incentivando exames e prescrições desnecessárias e supérfluas. Em hospitais a situação é bem pior. Os números são alarmantes.
A cada três minutos, cerca de dois brasileiros morrem em um hospital por consequência de um erro que poderia ser evitado. Esta foi a conclusão de um estudo apresentado em 2016 no Seminário Internacional “Indicadores de qualidade e segurança do paciente na prestação de serviços na saúde”, realizado em São Paulo.
Essas falhas, chamadas de “eventos adversos”, representam problemas como que vão desde erro de dosagem ou de aplicação de medicamentos até uso incorreto de equipamentos e infecção hospitalar.
A pesquisa, realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), estima que, em 2015, essas falhas acarretaram em 434.000 óbitos, o equivalente a 1.000 mortes por dia.
Erros de diagnóstico também são comuns em outros países. Uma pesquisa feita nos EUA mostrou que cerca de 12 milhões de diagnósticos errados são feitos a cada ano no país. A solicitação de exames supérfluos também é altíssima.
A IA pode ajudar em muito a melhorar a prática médica. Não é a substituição do médico por robôs, mas da possibilidade de tirarmos os robôs de dentro dos médicos. É uma complementação da prática médica.
Com menos atividades robóticas, ela passará a ter condições de estreitar relações mais humanas e empáticas com seus pacientes. A medicina caminha na direção de ser personalizada, focada na saúde e não na doença, com interação contínua e não esporádica entre médicos e pacientes, e principalmente, em uma relação empática e humana entre pessoas, estejam elas com jalecos ou em bermudas.
A IA pode e provavelmente vai se tornar o novo estetoscópio. Fará parte do dia a dia da medicina.
Na sua perspectiva, a telemedicina chegou para ficar no Brasil?
Não apenas a telemedicina, mas a adoção da IA de forma muito mais intensa. A medicina do futuro está apenas começando. Visualizar uma medicina no futuro é um exercício de imaginação, mas podemos identificar sinais dispersos, que, se conectados, apontem para uma direção.
Com certeza, vemos que uma maior digitalização da medicina; a telemedicina: o uso massivo da IA (o novo estetoscópio); a personalização; o foco na saúde e não na doença; e o monitoramento contínuo e não visitas pontuais ao médico, parecem ser sinais claros, que se combinados, podem nos mostrar uma visão de futuro consistente.
Podemos chegar a um nível de destruição criativa que nos permita imaginar uma medicina sem hospital? Pelo menos em um horizonte previsível salas de emergência, cirurgia e UTI continuarão existindo, mas quanto às outras atividades hospitalares? Bem, já existe experiência nesse sentido.
O Mercy Virtual Care Center nos EUA é um hospital virtual. Tem médicos e enfermeiras, mas não tem leitos. Os pacientes não ficam internados e o uso massivo de IA ajuda a monitorar cada paciente em suas casas e alertar os médicos quanto às variações de seus sinais vitais.
Os smartwatches, smartphones e os assistentes virtuais, como Echo e Google Home, devem exercer papel mais preponderante na saúde. A interação por voz é uma maneira bem mais fácil e humana que teclar mensagens.
A evolução e o aprimoramento dos algoritmos de NLP (Natural Language Processing) fazem com que estes dispositivos fiquem cada vez mais similares em interação verbal, a nós humanos.
Toda essa tecnologia digital e a IA farão diferença se conseguirmos melhorar a prática médica na sua totalidade e isso implica necessariamente na melhoria da relação paciente-médico.
Hoje a relação é meio conturbada, pois o médico gasta a maior parte do escasso tempo de consulta em atividades robotizadas, como analisando e digitando os resultados dos exames solicitados e prescrevendo novos exames. Pouco tempo é investido na relação humana.
Para você, quais os principais impactos que a COVID19 pode trazer para a medicina e prática médica?
A tecnologia digital e a IA poderão eliminar as tarefas robotizadas, ou seja, tirar o robô de dentro do médico e fazer com que ele tenha mais tempo para ouvir e conhecer o paciente, tenha empatia e consiga realizar os exames físicos (aquele toque humano) necessários, de forma mais adequada, não apenas com estetoscópios, mas também com smartphones e sensores portáteis.
A IA não vai substituir o médico. As tarefas humanas são essenciais. Eu nunca gostaria de saber que tenho uma doença grave, como um câncer, por um assistente virtual. Ele não teria empatia para entender o alcance desta informação.
A tecnologia digital e a IA deverão atuar no sentido de humanizar a medicina e não aumentar sua desumanização. O sistema de saúde como um todo é impulsionado para desumanizar o atendimento.
O sistema faz com que os médicos sejam robôs de prescrição de medicamentos, em consultas cada vez mais rápidas; os hospitais são frios e insensíveis; e os planos de saúde burocráticos e voltados à redução de custos e aumento da eficiência, e não à saúde dos seus clientes.
A tecnologia digital e IA podem transformar profundamente a medicina. Pode dar tempo aos médicos, eliminando deles as tarefas robotizáveis e através de sensores espalhados pelos smartphones e assistentes virtuais, monitorar cada paciente individualmente.
Assim, em vez de irmos ao consultório para uma visita de rotina, que muitas vezes é apenas levar um exame e sair de lá com a prescrição de outro, meu médico terá acompanhamento contínuo da minha saúde e será alertado quando alguma anomalia for detectada.
A consulta será para os casos de exceção e não simples rotina. O tempo que eles gastam hoje em atividades robotizáveis poderá se transformar em tempo de atenção e toque humano.
Com mais tempo disponível na consulta, o médico poderá fazer o que o distinguirá das máquinas: ser humano.
E ser humano, significa ter empatia, conhecer a pessoa que é o paciente.