Nos últimos anos, a cetamina, tradicionalmente conhecida como anestésico dissociativo, tem ganhado espaço em protocolos terapêuticos voltados ao tratamento da depressão resistente. Seu uso, que antes se restringia a ambiente hospitalar e anestesia, agora se expande para clínicas especializadas em psiquiatria e medicina integrativa, especialmente nos Estados Unidos, com destaque para regiões como o Vale do Silício.
O fenômeno se intensificou após declarações públicas de figuras de alto perfil, como Elon Musk, que relatou o uso periódico da substância com efeitos positivos sobre o humor e desempenho. O resultado foi um aumento expressivo na procura por “terapias de cetamina”, frequentemente associadas a um imaginário de performance, produtividade e bem-estar “biohacker”.
Mecanismo de ação e evidências atuais
A cetamina atua como antagonista não competitivo do receptor NMDA (N-metil-D-aspartato), modulando a neurotransmissão glutamatérgica e induzindo a liberação de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), o que pode promover sinaptogênese e restauração de circuitos neurais associados ao humor.
Estudos randomizados e controlados mostram que doses subanestésicas (geralmente 0,5 mg/kg em infusão IV) podem induzir melhora significativa dos sintomas depressivos em 24 a 72 horas — especialmente em casos refratários a antidepressivos convencionais. Contudo, tais estudos possuem limitações metodológicas: amostras pequenas, seguimento curto e ausência de padronização de protocolos.
Riscos e dilemas clínicos
O uso recorrente da cetamina levanta preocupações quanto a neurotoxicidade, tolerância e potencial de dependência psicológica. Além disso, há relatos de distúrbios urinários (cistite induzida por cetamina), sintomas dissociativos persistentes e episódios hipertensivos durante infusões.
Outro ponto crítico é o risco de medicalização de demandas não patológicas, especialmente em contextos de alta performance. A linha entre o tratamento legítimo de depressão resistente e o uso “aspiracional” da substância pode ser tênue, principalmente quando impulsionada por marketing de bem-estar e por pressões sociais de produtividade.
Implicações éticas e responsabilidade médica
Dessa forma, para o médico prescritor, é importante manter o foco em critérios diagnósticos claros, consentimento informado detalhado e monitoramento rigoroso. Assim, protocolos devem ser baseados em evidências, respeitando indicações específicas (depressão resistente, transtorno bipolar com episódio depressivo refratário, ideação suicida aguda em ambiente controlado) e evitando extrapolações terapêuticas não validadas.
Em um cenário onde a ciência e o mercado se entrelaçam, cabe à medicina não apenas acompanhar o avanço, mas também moderar o entusiasmo com prudência científica. A cetamina pode representar uma ferramenta promissora — desde que manejada com critério, ética e responsabilidade clínica.
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Referências bibliográficas
- World Health Organization (WHO). Expert Committee on Drug Dependence: Forty-fourth report. Ketamine: Critical Review Report. Geneva: WHO, 2020. Disponível em: https://www.who.int/medicines/access/controlled-substances/CriticalReview_Ketamine.pdf. Acesso em: 31 out. 2025.
- Sanacora, G. et al. A consensus statement on the use of ketamine in the treatment of mood disorders. JAMA Psychiatry, v. 74, n. 4, p. 399–405, 2017. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2017.0080.
