A cervicite folicular, também chamada de cervicite linfofolicular crônica, é uma forma específica e persistente de inflamação do colo uterino, caracterizada pela presença de folículos linfoides no estroma cervical. Essa apresentação histológica representa uma resposta imune crônica, geralmente desencadeada por infecção persistente, sendo a Chlamydia trachomatis o agente mais frequentemente associado.
Entretanto, é importante ressaltar que, apesar dessa forte associação, uma proporção significativa dos casos não apresenta causa infecciosa claramente definida, o que exige atenção clínica para outras possíveis origens, como irritação crônica por agentes químicos, dispositivos intrauterinos ou reações imunológicas locais.
Epidemiologia e fatores de risco
Do ponto de vista epidemiológico, a cervicite folicular tende a ocorrer com maior frequência em mulheres sexualmente ativas, especialmente naquelas que possuem histórico de múltiplos parceiros ou relações sexuais desprotegidas.
Além disso, observa-se maior incidência em pacientes que já tiveram outras infecções sexualmente transmissíveis, o que sugere uma correlação com exposição repetida a patógenos de transmissão sexual. Estudos indicam que entre 50% e 67% das mulheres diagnosticadas apresentam infecção por Chlamydia trachomatis, enquanto as demais não têm etiologia identificada. Isso reforça a importância de considerar tanto as causas infecciosas quanto as não infecciosas no momento da avaliação. Outro aspecto relevante é que, embora não seja uma condição exclusiva de faixas etárias mais elevadas, há maior prevalência em mulheres de idade reprodutiva intermediária ou tardia, possivelmente devido à somatória de fatores de exposição e alterações imunológicas ao longo do tempo.
Fisiopatologia da cervicite folicular
O mecanismo fisiopatológico da cervicite folicular baseia-se na ativação crônica da resposta imune local. Quando um agente infeccioso, como a Chlamydia trachomatis, persiste no epitélio cervical, há recrutamento contínuo de linfócitos e macrófagos para o local. Esses linfócitos organizam-se em estruturas conhecidas como folículos linfoides, que são compostos por centros germinativos ricos em células B, circundados por células T e uma rede de células dendríticas foliculares. Essa formação indica uma estimulação antigênica prolongada, que pode ocorrer mesmo após a resolução parcial da infecção inicial. Além disso, processos não infecciosos, como irritação mecânica ou química, também podem gerar uma resposta semelhante, embora geralmente menos intensa.
O resultado final é uma inflamação persistente, que provoca alterações epiteliais reativas e pode comprometer a integridade da mucosa cervical, aumentando a suscetibilidade a outras infecções e facilitando a ascensão bacteriana para o trato genital superior.
Manifestações clínicas da cervicite folicular
A apresentação clínica da cervicite folicular é variável. Em muitos casos, a paciente permanece assintomática e o diagnóstico ocorre de forma incidental, durante exames de rotina como o Papanicolau ou a colposcopia. Entretanto, quando sintomática, a condição pode se manifestar por corrimento vaginal mucopurulento, frequentemente acompanhado de odor e alteração da cor da secreção.
Além disso, pode haver:
- Prurido vulvovaginal
- Sensação de ardor ao urinar
- Desconforto durante o ato sexual
- E dor pélvica leve.
Algumas pacientes relatam sangramento pós-coito, o que está relacionado à fragilidade da mucosa cervical inflamada. Esses sintomas, embora inespecíficos, devem levar o médico a considerar a possibilidade de cervicite persistente, especialmente se houver histórico de infecção por Chlamydia ou ausência de resposta a tratamentos convencionais para cervicite aguda.
Diagnóstico da cervicite folicular
O diagnóstico exige uma abordagem integrada, envolvendo anamnese detalhada, exame físico, colposcopia, exames laboratoriais e, em casos selecionados, biópsia. Durante o exame especular, é possível observar colo uterino hiperemiado, com secreção visível no canal endocervical. A colposcopia complementa essa avaliação, permitindo a visualização de folículos como pequenas formações arredondadas, de coloração amarelada ou esbranquiçada, inseridas no estroma. No exame citológico, frequentemente se identifica inflamação persistente, porém sem especificidade para cervicite folicular. Por isso, a confirmação diagnóstica se dá pela biópsia, que revela agregados foliculares linfocitários bem definidos.
Em paralelo, é fundamental investigar agentes infecciosos por meio de testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT), que apresentam alta sensibilidade para Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae. Quando houver suspeita, também se deve testar para Trichomonas vaginalis, Mycoplasma genitalium e vírus herpes simples. Essa investigação direciona a conduta e permite instituir tratamento específico, reduzindo o risco de complicações.
Na imagem abaixo observa-se cervicite folicular em uma mulher. Macrófagos com corpos tingíveis e grandes células linfóides:

Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial da cervicite folicular inclui outras formas de inflamação cervical, como a cervicite aguda, que se caracteriza por infiltrado predominantemente neutrofílico, e a cervicite inespecífica, que não apresenta a organização folicular típica. Além disso, deve-se distinguir essa condição de lesões benignas como ectropion cervical, bem como de lesões pré-malignas e malignas do colo, que podem apresentar áreas de inflamação secundária. Reações a corpos estranhos, como dispositivos intrauterinos, também podem simular alterações colposcópicas semelhantes, reforçando a necessidade de investigação histopatológica sempre que houver dúvida diagnóstica.
Complicações da cervicite folicular
Se não tratada de forma adequada, a cervicite folicular pode evoluir para doença inflamatória pélvica (DIP), comprometendo o endométrio, as tubas uterinas e, eventualmente, levando à infertilidade por obstrução tubária. Também existe risco aumentado de gravidez ectópica e dor pélvica crônica. Em gestantes, a infecção por Chlamydia trachomatis associada à cervicite folicular está relacionada a maior incidência de parto prematuro, ruptura prematura de membranas e baixo peso ao nascer, além de conjuntivite neonatal nos recém-nascidos. Esses desfechos adversos reforçam a importância do diagnóstico precoce e da abordagem terapêutica adequada.
Tratamento
O tratamento da cervicite folicular depende da identificação do agente causal. Nos casos confirmados de infecção por Chlamydia trachomatis, a primeira escolha é a azitromicina em dose única de 1 g por via oral ou a doxiciclina 100 mg, administrada duas vezes ao dia por sete dias. Quando há coinfecção com Neisseria gonorrhoeae, deve-se associar ceftriaxona intramuscular em dose única ao esquema para Chlamydia. Se o agente for Trichomonas vaginalis, o tratamento indicado é o metronidazol oral, em dose única ou por sete dias.
Nos casos em que não se identifica agente infeccioso, a conduta deve incluir medidas de suporte, acompanhamento clínico e orientações preventivas. Assim, é imprescindível que o parceiro sexual seja avaliado e tratado quando indicado, para evitar reinfecção. Recomenda-se abstinência sexual até a conclusão do tratamento e resolução clínica. Além disso, orienta-se o uso consistente de preservativos como medida preventiva de longo prazo.
Prognóstico e prevenção da cervicite folicular
Quando diagnosticada e tratada adequadamente, a cervicite folicular apresenta bom prognóstico, com resolução completa dos sintomas e baixa taxa de complicações. No entanto, a reinfecção é relativamente comum quando não há adesão às medidas preventivas ou quando o parceiro não recebe tratamento adequado. A prevenção inclui educação sexual, uso regular de métodos de barreira, testagem periódica para ISTs e rastreamento ginecológico regular.
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Referências bibliográficas
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