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Cerclagem uterina: indicações, tipos e quando o procedimento é necessário

Ginecologista orienta paciente durante consulta sobre cerclagem uterina em consultório moderno.

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Na prática clínica, o termo “cerclagem uterina” aparece com frequência; entretanto, o uso mais comum envolve a cerclagem do colo uterino. Ou seja, o procedimento reforça mecanicamente o colo, sobretudo na região do orifício interno, com o objetivo de reduzir perdas gestacionais tardias e parto prematuro associados à insuficiência cervical.

Ainda assim, a conduta exige seleção criteriosa, porque a cerclagem não atua sobre todos os mecanismos de prematuridade e, além disso, pode aumentar complicações quando a indicação não se sustenta.

Insuficiência cervical: conceito e implicações clínicas

A insuficiência cervical descreve um cenário em que o colo não mantém a gestação no segundo trimestre e, portanto, ocorre apagamento e dilatação progressivos, muitas vezes com pouca dor no início. Assim, a gravidez pode evoluir para perda fetal tardia ou parto prematuro extremo. Contudo, nenhum dado isolado define o diagnóstico, porque diferentes processos (inflamatórios, infecciosos, hemorrágicos ou contráteis) também determinam encurtamento cervical.

Critérios clínicos utilizados na prática para cerclagem uterina

A avaliação integra, de forma combinada:

  • História obstétrica compatível, sobretudo perdas de 2º trimestre associadas a dilatação cervical “silenciosa”, com expulsão fetal rápida e ausência de dinâmica uterina importante no início do quadro
  • Exame físico, quando se identifica dilatação cervical no segundo trimestre, em geral com membranas íntegras e sem padrão típico de trabalho de parto
  • Ultrassonografia transvaginal, com documentação de colo curto antes de 24 semanas e, em alguns casos, afunilamento.

Além disso, recomenda-se excluir diagnósticos diferenciais que mimetizam insuficiência cervical, como corioamnionite, descolamento prematuro de placenta e trabalho de parto prematuro estabelecido, porque cada mecanismo exige intervenção distinta.

Fatores associados a maior risco

A estratificação de risco considera, entre outros:

  • Trauma cervical prévio (lacerações obstétricas relevantes)
  • Procedimentos cervicais (conização, LEEP em cenários selecionados, dilatações instrumentais repetidas)
  • Alterações anatômicas uterinas e, em situações específicas, condições do tecido conjuntivo.

Entretanto, fator de risco isolado não define indicação de cerclagem. Em vez disso, a conduta deve correlacionar risco, história reprodutiva e achados atuais.

Objetivo da cerclagem e racional fisiopatológico

A cerclagem funciona como reforço estrutural do colo. Dessa forma, busca-se prolongar a gestação, reduzir perdas tardias e, em grupos bem selecionados, diminuir parto prematuro espontâneo.

Por outro lado, quando infecção ascendente, ruptura de membranas, sangramento importante ou trabalho de parto estabelecido comandam o quadro, a cerclagem costuma oferecer pouco benefício e, além disso, pode elevar risco de complicações. Portanto, a definição do mecanismo predominante deve preceder a decisão.

Indicações de cerclagem: classificação e momento de intervenção

A prática clínica organiza as indicações em três grupos: cerclagem por história, cerclagem indicada por ultrassonografia e cerclagem indicada por exame físico (resgate). Essa classificação importa porque ela altera janela de tempo, risco técnico e probabilidade de benefício.

Cerclagem indicada por história (profilática)

Cenários típicos de indicação

A indicação por história se aplica quando existe padrão obstétrico fortemente sugestivo de insuficiência cervical, como:

  • Perdas recorrentes de 2º trimestre associadas a dilatação indolor.
  • Cerclagem prévia por insuficiência cervical com benefício clínico consistente, principalmente quando ocorre recorrência do padrão de risco.

Assim, a conduta não depende de “aguardar encurtamento” ao ultrassom, porque o risco de repetição tende a se manter alto. Ainda assim, revisa-se cuidadosamente a etiologia das perdas anteriores, porque perdas por malformação fetal, infecção ou eventos hemorrágicos não sustentam, por si só, insuficiência cervical.

Janela habitual para realização

Em geral, programa-se a cerclagem profilática entre 12 e 14 semanas, após confirmação de viabilidade e avaliação inicial da gestação. Dessa maneira, reduz-se a chance de intervenção em gestação com evolução inviável por outros motivos e, além disso, evita-se operar em fase mais tardia com colo já em transformação.

Cerclagem indicada por ultrassonografia (US-indicada)

Perfil de maior benefício

A cerclagem guiada por ultrassom costuma se alinhar a um perfil específico:

  • Gestação única e
  • História de parto prematuro espontâneo ou perda tardia compatível e
  • Comprimento cervical curto antes de 24 semanas (muitos protocolos operacionais utilizam corte aproximado de 25 mm, embora a decisão dependa do contexto e do protocolo institucional).

Portanto, a ultrassonografia funciona como marcador de risco atual, e o encurtamento relevante do colo sugere contribuição mecânica cervical no caminho para prematuridade.

Situações que exigem cautela

Em pacientes sem história de parto prematuro espontâneo, frequentemente prioriza-se outra abordagem conforme o cenário clínico. Além disso, em gestação múltipla, a evidência geralmente não sustenta benefício consistente de cerclagem, e a conduta costuma evitar o procedimento, salvo exceções bem fundamentadas e conduzidas em centros especializados.

Momento usual

A cerclagem US-indicada ocorre tipicamente entre 16 e 23/24 semanas, porque após esse período a complexidade técnica e o risco obstétrico aumentam, enquanto o ganho potencial diminui.

Cerclagem indicada por exame físico (resgate/emergência)

Quando o procedimento entra como tentativa de salvamento

A cerclagem de resgate se aplica quando se identifica:

  • Dilatação cervical no segundo trimestre (frequentemente com ≥1–2 cm, conforme protocolo),
  • Membranas visíveis ou abauladas em alguns casos,
  • Ausência de trabalho de parto estabelecido,
  • Ausência de sinais claros de infecção intrauterina.

Nessa circunstância, o risco iminente de perda gestacional cresce de forma relevante; portanto, considera-se a sutura como tentativa de prolongar a gravidez. Entretanto, o procedimento carrega maior taxa de complicações do que a cerclagem eletiva, e, por isso, a seleção clínica deve permanecer rigorosa.

Critérios clínicos que reduzem chance de sucesso

A avaliação prévia deve investigar sinais que sugiram processo infeccioso/contrátil em curso, como febre, dor uterina, corrimento fétido, taquicardia materna relevante, leucocitose em contexto compatível, contrações regulares com progressão, sangramento significativo e ruptura de membranas. Assim, evita-se suturar em um cenário em que a cerclagem tende a piorar o desfecho.

Tipos de cerclagem: técnicas e escolhas na prática

Apesar de variações técnicas, a rotina concentra o uso em algumas opções. A escolha deve considerar anatomia cervical, indicação (profilática, US ou resgate), experiência da equipe e planejamento do parto.

Cerclagem transvaginal tipo McDonald

A técnica de McDonald domina a prática por simplicidade e efetividade em indicações apropriadas. Realiza-se uma sutura em bolsa ao redor do colo, em posição próxima ao orifício interno, e então ajusta-se a tensão para reduzir dilatação sem estrangular tecido.

Fonte: UpToDate, 2025.

Aplicações mais comuns

  • Cerclagem por história.
  • Cerclagem indicada por ultrassonografia.
  • Cerclagem de resgate em muitos casos, quando a anatomia permite.

Além disso, a remoção costuma ocorrer de modo relativamente simples, o que facilita logística no final da gestação.

Cerclagem transvaginal tipo Shirodkar

A técnica de Shirodkar posiciona a sutura mais alta e, em geral, exige dissecção da mucosa e mobilização de tecidos. Portanto, ela tende a demandar maior experiência e pode dificultar retirada, dependendo da técnica utilizada.

Fonte: UpToDate, 2025.

Quando considerar

  • Colo muito curto ou com anatomia que reduz ancoragem adequada com McDonald.
  • Necessidade de posicionamento mais próximo do orifício interno em cenários selecionados.

Ainda assim, complexidade técnica, acesso para remoção e recursos locais devem entrar na decisão.

Material de sutura: fita versus fio

A prática utiliza suturas não absorvíveis em fita ou fio. A escolha varia conforme disponibilidade e preferência técnica, porém a execução (nível da sutura, simetria, hemostasia, nó e tensão) impacta fortemente o resultado. Além disso, a equipe deve documentar o tipo de material e o local do nó, porque esses detalhes facilitam retirada e manejo no fim da gestação.

Cerclagem transabdominal: quando a via vaginal não resolve

Embora o foco deste texto permaneça na cerclagem transvaginal, vale destacar a cerclagem transabdominal em situações específicas, como:

  • Falha repetida de cerclagem transvaginal bem indicada e bem executada.
  • Anatomia cervical que impede colocação efetiva por via vaginal (por exemplo, colo muito encurtado ou amputado por cirurgia).

Nesse cenário, realiza-se cerclagem por laparotomia ou laparoscopia, e, em geral, o parto ocorre por cesariana, porque a sutura se mantém alta e não permite dilatação cervical fisiológica.

Quando o procedimento se torna necessário: sinais clínicos que mudam a conduta

A decisão de cerclagem não se baseia apenas no “rótulo” de indicação; ela depende de um conjunto de achados que indicam risco real e janela de oportunidade.

Sinais que favorecem intervenção (em contexto apropriado)

  • História compatível com insuficiência cervical e recorrência de perdas tardias
  • Encurtamento cervical significativo antes de 24 semanas em gestação única com histórico relevante
  • Dilatação cervical no segundo trimestre sem trabalho de parto estabelecido, especialmente quando membranas permanecem íntegras e não há evidência de infecção.

Sinais que orientam contra cerclagem

  • Ruptura de membranas
  • Suspeita ou confirmação de infecção intrauterina
  • Trabalho de parto estabelecido com contrações regulares e progressão
  • Sangramento importante sem esclarecimento
  • Óbito fetal ou condição fetal incompatível com sobrevida, conforme decisão compartilhada e objetivos de cuidado.

Portanto, o procedimento se torna “necessário” apenas quando há plausibilidade forte de que a falha cervical comande o risco e quando ainda existe tempo útil para o reforço mecânico funcionar.

Avaliação e preparo antes da cerclagem

A avaliação pré-operatória deve organizar riscos maternos e fetais e, além disso, definir a melhor técnica. Assim, recomenda-se:

  • Confirmar idade gestacional e viabilidade fetal
  • Avaliar sinais clínicos de infecção e ruptura de membranas
  • Realizar ultrassonografia transvaginal para documentar comprimento cervical e, quando relevante, afunilamento
  • Planejar via e técnica (McDonald vs Shirodkar) conforme anatomia e experiência
  • Discutir com a paciente riscos, benefícios e alternativas, sobretudo em cerclagem de resgate, porque a taxa de complicações cresce nessa indicação.

Além disso, a equipe deve alinhar o plano de acompanhamento: vigilância de sintomas, orientação sobre sangramento e dor, e plano de remoção da sutura.

Acompanhamento após cerclagem e momento de retirada

Após o procedimento, espera-se algum desconforto e pequeno sangramento. Entretanto, sinais como febre, dor uterina progressiva, perda de líquido, sangramento relevante e contrações regulares exigem reavaliação imediata, porque eles podem indicar infecção, ruptura de membranas ou início de trabalho de parto.

Em geral, a cerclagem transvaginal é removida por volta de 36–37 semanas, ou antes se ocorrer trabalho de parto, ruptura de membranas ou indicação obstétrica que justifique interrupção. Assim, evita-se laceração cervical durante dilatação. No caso de cerclagem transabdominal, a equipe costuma manter a sutura e programar cesariana, conforme o plano obstétrico.

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Referências bibliográficas

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