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Ceratite intersticial: o que é e como tratar

Médica oftalmologista realiza exame ocular em criança com equipamento de biomicroscopia em consultório, em contexto de avaliação de ceratite intersticial.

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A ceratite intersticial corresponde a uma inflamação do estroma corneano sem ulceração primária do epitélio. Em outras palavras, o quadro acomete a porção intermediária da córnea, reduz a transparência do tecido e, além disso, pode induzir neovascularização, cicatriz e perda visual. Embora muitos associem o termo a uma entidade única, a ceratite intersticial funciona, na prática, como um padrão inflamatório que surge em diferentes doenças infecciosas e imunomediadas. Entre as causas mais relevantes, destacam-se a sífilis, sobretudo a sífilis congênita, e o herpes simples, especialmente na forma de ceratite estromal herpética. Portanto, o manejo correto depende menos do nome sindrômico e mais da identificação da etiologia, da profundidade do acometimento e do risco de recorrência.

Do ponto de vista clínico, a ceratite intersticial merece atenção porque pode comprometer a visão de forma duradoura.

Fisiopatlogia da ceratite intersticial

Além disso, o quadro costuma exigir raciocínio integrado entre oftalmologia, infectologia e, em alguns contextos, pediatria ou reumatologia. Isso acontece porque a inflamação estromal não nasce apenas de agressão direta ao tecido. Frequentemente, ela resulta de resposta imune contra antígenos infecciosos ou de reação inflamatória persistente depois da infecção inicial.

No herpes simples, por exemplo, a forma estromal imune representa manifestação clássica de dano mediado pelo hospedeiro. Já na sífilis congênita tardia, a ceratite intersticial compõe uma manifestação ocular tradicional, muitas vezes bilateral, que pode aparecer anos após a infecção fetal.

O que acontece na córnea?

A córnea mantém sua transparência graças à organização regular das lamelas de colágeno, ao estado de desidratação relativo do estroma e à ausência de vasos. Quando a ceratite intersticial se instala, esse equilíbrio se rompe. Primeiro, células inflamatórias migram para o estroma. Em seguida, o tecido desenvolve edema e haze. Depois, em muitos casos, vasos profundos avançam da periferia para o centro. Como consequência, a transparência cai e a refração também pode mudar. Além disso, a inflamação persistente favorece depósito cicatricial e irregularidade corneana. Portanto, mesmo quando o episódio agudo melhora, o paciente pode permanecer com limitação visual importante.

No herpes simples, a fisiopatologia envolve combinação entre persistência antigênica e resposta imune exuberante. Assim, nem sempre há replicação viral intensa no local da lesão estromal e, ainda assim, pode surgir inflamação significativa. Esse detalhe muda a conduta, porque deve-se controlar a resposta inflamatória sem abrir espaço para reativação epitelial do vírus. Já na sífilis, especialmente na forma congênita, a ceratite intersticial surge como manifestação tardia e se associa a inflamação profunda, frequentemente bilateral, que pode evoluir com neovascularização e opacidade corneana. Dessa forma, a compreensão da fisiopatologia ajuda diretamente na escolha do tratamento.

Principais causas da ceratite intersticial

Embora o diagnóstico diferencial inclua tuberculose, doença de Lyme, hanseníase, sarcoidose, síndrome de Cogan, infecções virais e causas autoimunes, duas etiologias merecem destaque especial no contexto do tema proposto: sífilis e herpes simples.

Sífilis

A sífilis permanece relevante porque pode afetar o olho em diferentes fases da doença. Na sífilis congênita, a ceratite intersticial representa manifestação clássica tardia. Em geral, ela aparece na infância tardia, adolescência ou início da vida adulta, embora a apresentação varie. Deve-se lembrar que a sífilis congênita não se limita ao período neonatal. Pelo contrário, ela pode deixar sequelas ou manifestações inflamatórias tardias que se revelam anos depois. Além disso, o envolvimento ocular pode coexistir com surdez neurossensorial, alterações dentárias e outros achados compatíveis com estigmas de infecção congênita.

Na prática, o paciente pode relatar:

  • Fotofobia
  • Dor ocular
  • Lacrimejamento
  • Visão borrada e hiperemia.

Frequentemente, o acometimento se inicia em um olho e depois atinge o outro. Ao exame, observam-se infiltrado estromal difuso, vasos profundos e perda da transparência corneana. Como a sífilis pode cursar com outras formas de inflamação ocular, faz-se exame completo do segmento anterior e posterior.

Na imagem abaixo observa-se uma opacidade estromal em ambos os olhos da criança:

Fonte: UpToDate, 2026.

Herpes simples

O herpes simples representa outra causa central de ceratite intersticial, especialmente por meio da ceratite estromal. Nesse cenário, o HSV-1 lidera os casos. Em muitos pacientes, a doença ocular recorre ao longo da vida e alterna fases epiteliais, estromais e endoteliais. A forma estromal pode ocorrer com ou sem ulceração. Quando não há defeito epitelial, o quadro costuma refletir resposta imune estromal. Quando existe necrose estromal com defeito epitelial, o risco de afinamento e perfuração aumenta e o quadro exige vigilância ainda mais próxima.

Em geral, surgem:

  • Dor
  • Fotofobia
  • Lacrimejamento
  • Visão borrada
  • E hiperemia ciliar.

Além disso, pode haver relato de episódios prévios de “herpes no olho”, lesões labiais recorrentes ou história de tratamento com colírios antivirais e corticoides. Na biomicroscopia, podem aparecer edema estromal, infiltrado focal ou difuso, neovascularização, precipitados ceráticos e, em alguns casos, uveíte anterior associada. Portanto, o reconhecimento do fenótipo clínico ajuda a distinguir inflamação imune de infecção ativa mais destrutiva.

Manifestações clínicas da ceratite intersticial

A apresentação clínica varia conforme a causa, a intensidade inflamatória e a profundidade do acometimento. Ainda assim, alguns sintomas aparecem com frequência. Costumam surgir:

  • Dor ocular
  • Fotofobia
  • Visão embaçada
  • Lacrimejamento
  • E sensação de corpo estranho.

Além disso, pode haver piora progressiva da acuidade visual ao longo de dias ou semanas. Em casos bilaterais, principalmente ligados à sífilis congênita, a limitação funcional pode se tornar bastante relevante.

No exame, deve-se procurar hiperemia pericerática, infiltrados estromais, edema, haze, vasos profundos e sinais de uveíte anterior. Também se deve documentar a presença ou ausência de defeito epitelial, porque esse achado modifica a hipótese etiológica e interfere diretamente na conduta. A tonometria também ajuda, já que processos inflamatórios herpéticos podem cursar com hipertensão ocular secundária. Além disso, o exame de sensibilidade corneana pode reforçar a suspeita de doença herpética.

Como fazer o diagnóstico?

O diagnóstico da ceratite intersticial começa no exame clínico, contudo, deve-se construir o raciocínio em três etapas: confirmar o padrão corneano, identificar a etiologia provável e, por fim, avaliar gravidade e risco de sequela.

Primeiro, a biomicroscopia confirma o acometimento estromal e define se existe ou não ulceração epitelial. Depois, a anamnese orienta a investigação. História de sífilis materna, tratamento inadequado na gestação, achados compatíveis com sífilis congênita, episódios herpéticos prévios e recorrência unilateral ajudam bastante. Em seguida, os exames complementares refinam o diagnóstico.

Na suspeita de sífilis, devem-se solicitar testes não treponêmicos e treponêmicos, como VDRL ou RPR e testes confirmatórios treponêmicos. Além disso, faz-se a interpretação dos resultados à luz do contexto clínico, porque títulos isolados não substituem a análise global. Quando o quadro sugere sífilis congênita tardia, a investigação sistêmica e a avaliação multidisciplinar ganham ainda mais importância.

Na suspeita de herpes simples, o diagnóstico geralmente permanece clínico. Em casos típicos, a combinação entre história, exame à lâmpada de fenda e padrão de recorrência costuma bastar. Contudo, quadros atípicos, graves ou refratários podem justificar testes adicionais, como PCR em material corneano, especialmente quando se precisa diferenciar HSV de outras causas infecciosas.

Além disso, o diagnóstico diferencial exige atenção. Tuberculose, sífilis adquirida, varicela-zóster, Lyme, sarcoidose, hanseníase e síndromes autoimunes também podem causar ceratite intersticial. Portanto, deve-se ampliar a investigação sempre que a história ou o exame apontarem para causas alternativas.

Tratamento

O tratamento da ceratite intersticial depende da causa, da presença de infecção ativa, da intensidade inflamatória e do risco estrutural para a córnea. Assim, não existe esquema único para todos os casos. Em vez disso, monta-se a terapia a partir do mecanismo predominante.

Tratamento da ceratite intersticial associada à sífilis

Quando a sífilis causa o quadro, o tratamento etiológico ocupa posição central. O objetivo consiste em erradicar o Treponema pallidum e, ao mesmo tempo, reduzir o dano inflamatório ocular. Dessa forma, devem-se seguir os protocolos específicos para sífilis ocular ou sífilis congênita, conforme o contexto clínico. Em geral, a penicilina permanece como base do tratamento. Além disso, muitos casos exigem manejo conjunto com infectologia e oftalmologia.

No componente ocular, pode-se lançar mão de corticoide tópico para controlar inflamação estromal e reduzir progressão de cicatriz, desde que se acompanhe o quadro de perto. Em casos com uveíte anterior, cicloplégicos também ajudam no conforto, no controle da dor e na prevenção de sinéquias. No entanto, deve-se sempre lembrar que o corticoide não substitui o tratamento etiológico. Pelo contrário, seu uso isolado pode mascarar evolução clínica inadequada.

Como a sífilis possui caráter sistêmico, o seguimento precisa incluir reavaliação sorológica e investigação de outras manifestações. Além disso, deve-se considerar testagem para HIV e rastreio de outras infecções sexualmente transmissíveis, conforme o perfil clínico.

Tratamento da ceratite intersticial herpética

Na ceratite estromal por herpes simples, o manejo exige equilíbrio entre ação anti-inflamatória e supressão antiviral. Esse ponto importa muito. Se houver uso isolado de corticoide, pode-se favorecer replicação viral epitelial e agravar o quadro. Por outro lado, se se usar apenas antiviral em um processo predominantemente imune, talvez não se controle adequadamente a inflamação estromal.

Nos casos de ceratite estromal não necrotizante, o tratamento costuma combinar corticoide tópico e antiviral. O corticoide reduz a inflamação, melhora o haze e diminui o risco de cicatriz central. Ao mesmo tempo, o antiviral sistêmico ou tópico ajuda a prevenir replicação viral e reativação epitelial. Em muitos protocolos atuais, o antiviral oral ganha espaço por oferecer praticidade e boa eficácia como cobertura associada ao corticoide.

Quando há necrose estromal, defeito epitelial ou afinamento corneano, o quadro se torna mais grave. Nessa situação, deve-se intensificar a vigilância, reforçar a cobertura antiviral e usar o corticoide com ainda mais critério. Além disso, impõe-se monitoramento do risco de perfuração, infecção secundária e necessidade de medidas tectônicas.

Nos casos com hipertensão ocular secundária ou uveíte anterior associada, faz-se tratamento adjuvante conforme a necessidade. Também se recomendam lubrificantes e medidas de superfície ocular para melhorar conforto e recuperação epitelial. Em recorrências frequentes, pode-se considerar profilaxia antiviral oral prolongada, já que essa abordagem reduz novos episódios em muitos pacientes.

Pontos práticos do manejo

Alguns princípios ajudam bastante na rotina:

  • Primeiramente, deve-se confirmar se existe defeito epitelial. Esse dado separa quadros predominantemente imunes de apresentações mais necrosantes e potencialmente infecciosas.
  • Além disso, nunca se deve usar corticoide tópico isoladamente na suspeita de ceratite herpética estromal. Faz-se associação com antiviral para reduzir risco de piora.
  • Da mesma forma, na suspeita de sífilis, o tratamento ocular isolado não resolve o problema. Deve-se abordar a infecção sistêmica com o esquema adequado.

Outro ponto importante envolve o acompanhamento. Como a córnea pode evoluir com cicatriz, vascularização e astigmatismo irregular, impõe-se reavaliação seriada da resposta terapêutica. Em casos avançados, pode haver necessidade futura de reabilitação visual com lentes especiais e, em situações selecionadas, abordagem cirúrgica.

Prognóstico

O prognóstico depende do tempo até o diagnóstico, da etiologia, da extensão do acometimento estromal e da rapidez no controle inflamatório. Em casos tratados precocemente, muitas vezes se consegue preservar boa visão funcional. No entanto, episódios repetidos, neovascularização profunda e cicatriz central pioram o resultado visual. Além disso, recorrência herpética representa fator importante de morbidade a longo prazo.

Na sífilis, o reconhecimento oportuno permite tratar a infecção e limitar novas complicações. Já no herpes simples, como a doença costuma recorrer, o sucesso terapêutico não depende apenas do controle do episódio agudo. Também depende de prevenção, seguimento e educação do paciente quanto à adesão e aos sinais de alerta.

Referências bibliográficas

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