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Cefaleia na infância: diagnósticos diferenciais | Colunistas

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Em seu amplo espectro, o fenômeno álgico das cefaleias pode predizer um distúrbio no equilíbrio da homeostase neuronal, presença de lesões no encéfalo ou no segmento medular e/ou afecções sistêmicas.

Para início da investigação, deve ser aplicado o protocolo de reconhecimento das características da dor, sendo elas: localização, irradiação, características semiológicas, duração, frequência, intensidade, sintomas associados, fatores de melhora, fatores de piora e possíveis tratamentos já realizados.

Essa investigação pode ser utilizada em todas as faixas etárias, entretanto, no que diz respeito as crianças, o diagnóstico pode se tornar um desafio. Isso se deve à duas características marcantes na anamnese e exame físico da faixa etária pediátrica: dificuldade de comunicação e explicação dos sintomas por parte da criança e presença de apresentações atípicas.

Nesse sentindo, além das cefaleias primárias já reconhecidas, como enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia em salvas, é importante o reconhecimento das “síndromes periódicas da infância”.

Junto a abordagem da dor, também é necessário que sejam identificados possíveis sinais de causas secundárias a lesões no segmento cefálico ou de afecções sistêmicas. A presença de sinais sistêmicos, déficits neurológicos focais e início súbito da dor são sinais de alerta.

Síndrome dos vômitos cíclicos

A síndrome dos vômitos cíclicos, apesar de pouco conhecida, é cerca de cinco vezes mais comum do que a doença celíaca. A teoria mais aceita é de que se trata de um distúrbio no eixo cérebro-intestinal, amplificado por respostas comportamentais e fisiológicas do sistema digestório. Distúrbios de motilidade gastrointestinal e do metabolismo de ácidos graxos na cadeira respiratória, além da liberação excessiva de corticotrofina parecem ser os fatores causais.

O quadro clínico é marcado por crises recorrentes de vômitos explosivos, sem causa base, seguidas por completo desaparecimento dos sintomas entre as crises. Os vômitos podem acontecer com uma frequência de um a cada 5 a 10 minutos, e podem ser associados a anorexia, palidez e desidratação.

A síndrome tem forte associação com efeito placebo, de modo que os sintomas são atenuados após consulta médica. Para o tratamento da crise, antieméticos, hidratação e repouso são as condutas mais utilizadas.

Enxaqueca abdominal

A enxaqueca abdominal é um diagnóstico de exclusão, realizado pela soma da anamnese com a ausência de achados clínicos e laboratoriais que possam sugerir outras causas mais comuns de dores abdominais, como gastroenterite e abdome agudo inflamatório.

A afecção predomina em meninas, com faixa etária entre os 5 e 10 anos de idade. A dor se localiza mais comumente na linha média do abdome, com padrão intermitente, de modo que a criança permanece saudável nos períodos entre os ataques, e com demasiada prostração durante os mesmos, porém sem sintomas sistêmicos, como febre. No que diz respeito ao histórico patológico e familiar, são frequentes a presença de cefaleias anteriores e história familiar positiva para enxaqueca.

Exposição a luz, viagens terrestres longas, jejum prolongado ou ingesta de cacau, queijo, frutas cítricas, tomates, bebidas com cafeína, salsicha etc., são gatilhos para as crianças susceptíveis.

Apesar de haver características neurofisiológicas semelhantes a enxaqueca propriamente dita e a enxaqueca abdominal, não há protocolos de tratamento definidos. A abordagem não medicamentosa, com a retirada de fatores precipitantes, é a mais abordada. Casos mais graves e frequentes podem ser medicados com propranolol ou triptanos.

Vertigem paroxística benigna da infância

A VPBI tem predomínio entre os 2 e 4 anos de idade e caracteriza por episódios de vertigem intensa associada a nistagmo ou vômitos, que ocorrem em crianças saudáveis. As crises tem duração de minutos a horas e podem ser acompanhadas por dores nos membros, foto e fonofobia.

A vertigem pode ser percebida por meio da adoção de posturas estereotipadas pela criança, além da busca por apoio em objetos firmes durante a deambulação. Os exames vestibulares e audiométricos são normais, e a resolução é espontânea. Como auxílio na recuperação, podem ser utilizadas terapias sensoriais.

Torcicolo paroxístico benigno

Há estudos que contemplam a vertigem paroxística benigna e o torcicolo paroxístico benigno como doenças de um mesmo grupo de doença, com característica clínica e epidemiológica variada, de modo que o torcicolo é o protótipo da VPBI.

O torcicolo paroxístico benigno ocorre nos primeiros meses de vida, mais comumente no sexo feminino. Durante as crises, que ocorrem pelo menos uma vez a cada mês, a cabeça da criança desvia-se para um dos lados, contralateral ao corpo, mantendo a posição por até 36 horas. Não há presença de dor, porém vômitos, nistagmo, irritabilidade e marcha instável podem estar presentes.

Os sintomas desaparecem com o avançar da idade e não necessitam de tratamento específico.

Conclusão

Diante do desafio diagnóstico das causas não primárias cefaleias na infância, o conhecimento acerca das síndromes citadas facilita o raciocínio clínico, diagnóstico e tratamento efetivo.

Algumas características são comuns a estas síndromes: o predomínio de um sintoma característico de enxaqueca, porém de exacerbado e isolado; o caráter intermitente dos sintomas; a restauração da saúde nos períodos entre as crises e a alta associação com fatores psicológicos e emocionais.

Para facilitar o diagnóstico diferencial, além dos fatores clínicas e epidemiológicas, exames laboratoriais auxiliam no descarte de outras hipóteses. O hemograma auxilia na observação de desordem orgânica por infecção; o exame de fezes com cultura, na presença de verminoses e parasitoses; a ultrassonografia abdominal, na caracterização de achados de imagem sugestivos de outras causas; o eletroencefalograma, na apreciação de traçados patológicos.

Todas as síndromes supracitadas aumentam a probabilidade do individuo desenvolver quadros de enxaqueca cefálica na vida adulta.

Autora: Maria Izabel de Azevedo Ferreira.

Instagram: @azevmabel


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

CASELLA, Laís Borba et al. Torcicolo paroxístico benigno da infância: diagnóstico e evolução clínica de seis pacientes. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2006; 64(3B): 845-848.

KENNY, Patricio. Síndrome de vomitos cíclicos: un enigma pediátrico vigente. Arch argent pediatr. 2000; 98 (1): 34-40.

Russell G, Abu-Arafeh I, Symon DN. Abdominal migraine: evidence for existence and treatment options. Paediatr Drugs. 2002; 4(1):1-8. 

SIQUEIRA, Luís Felipe Mendonça de. Cefaleias na infância e adolescência. Pediatria Moderna. 2011; 47(1).

SOARES, Isabelle Pereira et al. Vertigem na infância. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology. 1994; 60: 92-97. 

SPECIALI, José Geraldo et al. Protocolo Nacional para diagnóstico e manejo das cefaleias nas unidades de urgência do Brasil. 2018.

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