Cavalos, zebras ou zebras e cavalos? A Navalha de Ockham e o Dito de Hickam | Colunistas

Que barulho é esse?
Imagine
essa cena: é domingo de manhã, você está sentado tranquilo na sua varanda com
seu jornal e seu café. De repente, você ouve um barulho que chama sua atenção
mas você, a princípio, não tira o olho das notícias.É um som que começa baixo mas com o passar dos segundos se torna
mais alto e mais reconhecível: é o barulho de cascos indo de encontro com o
chão em ritmo de galope. Qual animal vem imediatamente ao seu imaginário?
Provavelmente você pensou em um cavalo pois, a não ser que você esteja lendo
das savanas africanas, é muito mais provável que o trote seja de um pangaré que
estava de passagem pelas redondezas do que de uma zebra. Você não pensa, inicialmente,
na possibilidade das zebras terem se revoltado e fugido do zoológico ao estilo
Madagascar. Esse é um exemplo clássico
do princípio da Navalha de Ockham que diz que frente a duas hipóteses
teoricamente viáveis a melhor é aquela que unifica a totalidade das evidências
da forma mais simples.
Outro
exemplo histórico da aplicabilidade do principío da Navalha de Ockham na
ciência foi na elaboração do modelo heliocêntrico do sistema solar. Diante das
observações da movimentação dos astros e dos planetas é possível montar
diversos modelos do sistema solar. Entretanto, quando vemos a complexidade dos
giros e malabarismos que os planetas teriam que fazer para que o modelo geocêntrico
fosse compatível com as observações empiricas torna-se evidente que o modelo
heliocêntrico, com toda sua simplicidade, é o mais viável.
E na medicina?
Na
medicina, por outro lado, a utilidade da navalha é um tema de controversa. O
diagnóstico muitas vezes é, intuitivamente, feito dessa forma, por exemplo: se
um paciente chega para você confuso, com febre, rigidez de nuca e dor de cabeça
você não pensa que ele tem simultaneamente uma hemorragia subarachnoide,
torcicolo e uma encefalopatia hepática, você pensa na explicação que engloba
todos esses sinais e sintomas em um diagnóstico único, você pensa em meningite.
No entanto, como já diz aquele clássico ditado francês “dans la médecine comme l’amour, ne jamais ne toujour”, na medicina
assim como no amor, nem sempre nem nunca.
Quem
traz o contra-argumento frente a Ockham é o médico americano John Hickam com o
dito de Hickam que diz: “um paciente pode ter quantos diagnósticos ele bem
entender”. Diante da nossa realidade, com o envelhecimento da população e o
aumento da expectativa de vida global, a chance de que alguém venha a
desenvolver duas patologias concomitantemente é maior uma vez que há
literalmente mais tempo de vida para que se manifeste mais de uma doença ao
mesmo tempo. Se nos atermos somente à navalha de Ockham estaremos muito mais
vulneráveis a fechar um diagnóstico precocemente e deixar algo passar. Borden e
Linklater (2013) relatam sobre um caso de uma menina de 15 anos que chegou na
emergência com uma história de febre, vômitos, dor na costas e disuria há uma
semana. Foi feito o diagnóstico de pielonefrite aguda e iniciado o tratamento.
Poucos dias depois, a paciente apresentou melhora da dor, da disúria e da febre, entretanto, os seus
episódios de vômito não melhoraram mesmo com o uso de antieméticos. Foi aí
então que seus médicos decidiram continuar a investigação clínica e viram que
além da pielonefrite aguda ela também tinha uma apendicite. Hickam, nesse caso,
levou a melhor.
Mas e agora, o que fazer?
O que fazer então? Acredito, primeiramente, que estando ciente desses dois princípios, a
navalha de Ockham e o dito de Hickam, nos tornamos mais perspicazes e
atenciosos na prática médica para não cairmos no seus respectivos viés. Além
disso, é relevante frisar a importância de sermos extremamente meticulosos para
não nos perdermos em meio a diagnósticos, uma vez que o diagnóstico é uma
ferramenta para estruturar e organizar a prática médica e não sua finalidade.
Afinal, o trote pode ser de um cavalo, de uma zebra ou até mesmo de uma manada
de zebras e cavalos, mas se você não tirar os olhos do jornal para ver o que
está ali na sua frente, você nunca vai saber o que está por trás daquele barulho.
Autor: Matheus Scalzilli
Instagram: @matheuscalzilli
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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