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Casos Clínicos: Tumores cerebrais ‒ glioblastoma multiforme

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História clínica

Paciente do sexo feminino, 75 anos, parda e dona de casa, referindo cefaleia frequente há 3 meses, hemiparesia à esquerda e crise convulsiva do tipo tônico-clônica há um dia, sem liberação esfincteriana, escala de Karnofsky 40/100 (incapacitado; requer cuidado especial e assistência), sem histórico familiar de tumores cerebrais. Nega trauma, doenças crônicas, internações anteriores e alergia medicamentosa.

Exame físico

Paciente em regular estado geral, obnubilado, afebril, anictérico, acianótico; deambula em grandes esforços. Pupilas isocóricas e fotorreagentes. Glasgow 10. Apresentava hemiparesia esquerda, com predomínio braquial. Encontrava-se chorosa, sem rigidez de nuca e com hiperreflexia à esquerda.

Exames complementares

Nada digno de nota.

Exames radiológicos

Exames de imagem

Imagem 1. Corte axial de ressonância magnética, aquisição em FLAIR, mostrando lesão heterogênea em lobo frontal direito, com área de edema perilesional acometendo os lobos frontal e parietal à direita.

Imagem 2. Corte coronal de ressonância magnética, aquisição em T1 com contraste, mostrando lesão heterogênea com captação anelar de contraste, parafalcina à direita.

Técnica cirúrgica

Paciente submetida a ressecção total microcirúrgica através de craniotomia frontoparietal direita, guiada por neuronavegação, para elucidação diagnóstica e planejamento de terapia complementar. A paciente apresentou melhora do nível de consciência e piora da hemiparesia no pós-operatório imediato, sendo iniciada reabilitação fisioterápica precoce.

Exame anatomopatológico e imuno-histoquímico

Exame macroscópico: o material recebido em formalina tamponada consta de múltiplos fragmentos irregulares, pardacentos e elásticos, medindo em conjunto 3,0×2,0×1,0 cm. Todo material foi submetido a exame histológico.

Diagnóstico: glioblastoma multiforme, com elevado índice de proliferação.

QUESTÕES PARA ORIENTAR A DISCUSSÃO

1. Quais os diagnósticos sindrômicos?

2. Quais os sinais e sintomas de tumores?

3. Como se apresenta um glioblastoma multiforme?

4. Qual a evolução dessa patologia?

Discussão

Diante do exposto, pode-se caracterizar como diagnóstico sindrômico: síndrome do lobo frontal (transtorno de comportamento/personalidade), síndrome piramidal de liberação (hemiparesia), síndrome de hipertensão intracraniana (rebaixamento do nível de consciência) e síndrome convulsiva.

Com base na anamnese e nos achados de exame físico, suspeitou-se de processo expansivo supratentorial, acometendo giro motor à direita (hemiparesia esquerda), cortical (convulsão) e subcortical, com efeito de massa (edema cerebral, hipertensão intracraniana e rebaixamento do nível de consciência). Ainda sobre o quadro clínico, pensou-se em uma patologia em lobo frontal, visto que esse estrutura controla personalidade, pensamento, memória e, na sua porção posterior, o movimento, além de que a paciente apresentava-se chorosa, irritada, com força muscular diminuída e, de acordo com sua filha, incomum à sua personalidade.

Posteriormente foi realizado o exame de imagem, que revelou lesão heterogênea em lobo frontal direito, com área de edema perilesional acometendo os lobos frontal e parietal à direita e, ainda, com captação anelar de contraste e conteúdo compatível com necrose. No exame anatomopatológico foram vistos astrócitos neoplásicos pobremente diferenciados com áreas de necrose e proliferação vascular, sendo então fechado o diagnóstico de glioblastoma, que é um astrocitoma de estágio avançado (grau IV), que apresenta maior grau de malignidade.

Vale ressaltar que a Ressonância Magnética é o método de escolha na investigação das neoplasias intracranianas. Os gliomas de baixo grau tipicamente não se intensificam pelo contraste e são melhor visualizados à ressonância magnética T2 ou FLAIR. As imagens com frequência mostram lesões grandes e extensamente infiltrativas envolvendo tipicamente o lobo frontal ou o temporal. Os gliomas de alto grau (graus III e IV) caracterizam-se por lesões que se intensificam pelo contraste com edema circundante, como no caso apresentado pela paciente.5

A paciente foi, então, admitida no Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro no dia 27/11/2015, sendo realizada a microcirurgia para o tumor cerebral no dia 03/12/2015, e permaneceu mais 12 dias internada. Sem complicações no pós operatório, seguiu de alta hospitalar, cuja as recomendações foram: encaminhamento para radioterapia, retorno ambulatorial ao departamento de neurocirurgia em um mês, fisioterapia motora e, em relação aos medicamentos, fenitoína 100 mg, 1 cp VO de 12/12h, uso contínuo e retirada gradual de decadron.

Diagnósticos diferenciais

• Neurotoxoplasmose;

• Abscesso;

• Glioblastoma;

• Oligodendrogliomas;

• Linfomas;

• Metástase Cerebral.

Objetivos de aprendizado/competências

• Estabelecer os diagnósticos diferenciais em neurologia com base na anamnese e exame físico.

• Reconhecer os comportamentos (história natural) típicos e atípicos mais comuns dos tumores cerebrais, com ênfase no glioblastoma, e correlacionar com a topografia neuroanatômica.

• Identificar os achados radiológicos (tomografia computadorizada e ressonância magnética) mais comuns dos tumores cerebrais, com ênfase nas lesões infiltrativas e hipercaptantes de contraste.

• Indicar o tratamento cirúrgico e complementar (quimio e/ou radioterápico) para os tumores cerebrais malignos (gliomas) com base no prognóstico dessas lesões.

Dicas práticas

• Reconhecer imediatamente os sinais clínicos da síndrome de hipertensão intracraniana (cefaleia intensa, alteração do nível de consciência, déficit motores e/ou sensitivos, alteração de nervos cranianos, bradicardia e alteração do padrão respiratório).

• Identificar a necessidade de realização dos exames radiológicos (tomografia e ressonância) para estabelecer tamanho, localização e estadiamento do tumor.

• Glioblastoma é um tumor de crescimento rápido, com elevados índices de recidiva apesar do grau de ressecção cirúrgica e da realização dos tratamentos rádio e quimioterápicos.5

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