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Casos Clínicos: Disfagia por Acalasia | Ligas

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Apresentação do Caso Clínico

F.C.B.S, sexo masculino, 69
anos, natural e procedente de Fortaleza, Engenheiro aposentado e católico. O
paciente procura o atendimento do Hospital Geral de Fortaleza com queixa de “dificuldades para
engolir alimentos”, com “entalamentos” e “sensação de engasgo” há seis meses
(SIC). Paciente relata que, no início, sentia essas sensações com o consumo de
alimentos sólidos, fato que o induziu a realizar ingestão de água para auxiliar
na deglutição de alimentos. O paciente afirmou que esse desconforto foi
progredindo, no mês anterior à consulta, até chegar ao ponto de sentir dificuldade
de deglutir mesmo com ajuda de grandes quantidades de líquidos, o que tem
reduzido sua ingestão de alimentos diariamente. Refere ainda episódios de
entalamentos/engasgo diários com presença de tosse, sendo necessário comer
vagarosamente durante as refeições para evitar regurgitação do conteúdo
alimentar (paciente alega que sofre com regurgitação em toda refeição). Alega
também episódios de regurgitação noturna de alimentos. Além disso, relata que
sofreu uma perda de peso de aproximadamente 5 Kg no último mês (afirma que
pesava 67Kg antes do início dos sintomas), alegando que o emagrecimento ocorreu
ao mesmo tempo em que houve a piora dos sintomas. A esposa do paciente estava
presente na consulta e pontua a presença de uma certa halitose do marido, mas
alerta que ele tem boa higiene bucal e que isso não existia antes do começo dos
sintomas.

Antecedentes
fisiológicos
: Gestação e nascimento: gestação
normal, parto normal e domiciliar, feto único, 2º de 4 irmãos. Desenvolvimento psicomotor e neural: relata bom desenvolvimento
físico e aproveitamento escolar.

Antecedentes patológicos: Doenças da infância: sarampo,
varicela, caxumba; Traumas e acidentes: perda do
segundo pododáctilo em acidente de trabalho; Doenças graves e/ou crônicas: Hipertensão Arterial
Sistêmica controlada. Nega necessidade de cirurgias e transfusões.

Imunizações: Calendário vacinal em dia

Medicamentos em uso: Losartana 50 mg, 1 comp. 12/12 horas

Histórico
Familiar:
Doenças dos familiares: Pai
hipertenso faleceu de “causas naturais” aos 82 anos (SIC), Mãe diabética e
hipertensa.

Hábitos de Vida: Atividade física: caminhada diária de pelo menos 30 minutos. Pai
de três filhos e aposentado com cerca de três salários mínimos. Relata boa vida
conjugal e familiar e vive em ambiente urbano, especificamente em um
apartamento na área central de Fortaleza com a esposa e uma neta. Atividade de lazer: vai à igreja e aos encontros
familiares e nega realizar viagens para a área rural do Ceará. Nega fumo e
alega fazer uso esporádico de bebida alcoólica em doses moderadas.

Ao Exame físico

Estado Geral: Bom estado
geral, afebril, anictérico, acianótico, eupneico, corado, hidratado e sem
linfadenomegalias. Extremidades bem perfundidas e sem edema. Pulsos periféricos
presentes, rítmicos e simétricos. Antropometria: Peso: 62 Kg; Alt: 1,72; IMC:
20,96; Circunferência Abdominal: 75 cm.

Ausculta pulmonar: Murmúrio
Vesicular presente bilateralmente sem ruídos adventícios.

Ausculta cardíaca: Ritmo
regular em 2T, sem sopros. FC: 75 bpm PA: 120x80mmHg.

Exame de abdome: Reto,
ruídos hidroaéreos presentes, flácido, indolor, sem massas ou visceromegalias.

Com base na história
relatada pelo paciente e nos achados presentes no exame físico, os seguintes
exames laboratoriais foram solicitados, assim como também alguns outros exames
complementares: Endoscopia digestiva alta, esofagograma contrastado e
manometria esofágica de alta resolução, para se averiguar potenciais causas do
atual quadro de disfagia. 

Exames Laboratoriais:

               (Valores
de referência de hemoglobina, hematócrito, plaquetas e glóbulos brancos
ajustados para homens com 60 anos ou mais).

  • Hemoglobina: 14 g/dL (N: 12,3-16,8 g/dL);
  • Hematócrito:
    45,8% (N: 38-51,4%);
  • Plaquetas:
    174000 mm³ (N: 128926-283915mm³);
  • Glóbulos brancos: 5500 mm3 (N: 2818-9675mm³);
  • Glicemia
    de Jejum: 90 mg/dia; (N: <100mg/dia);
  • Creatinina:
    0,8 (N: ≤ 1,2mg/dL);
  • Albumina
    sérica: 2,8 g/dL (N: 3,5-4,8 g/dL)
  • Ureia:
    24 mg/dL (N: 13-43 mg/dL)

Endoscopia
digestiva alta
:
A análise do esôfago revela: forma calibre e distensibilidade normais; mucosa
de aspecto normal e padrão vascular conservado.

Esofagograma contrastado:
Dilatação
do corpo esofágico de 7 cm (megaesôfago) com alteração na porção distal do
esôfago em configuração de “bico de pássaro”.

Manometria
esofágica de alta resolução:
Foi possível observar relaxamento incompleto do esfíncter
esofagiano inferior (EEI), demostrando uma incapacidade do EEI relaxar durante
o período de deglutição, assim como também foi possível observar falha em 100%
da peristalse e elevação da Pressão Integrada de Relaxamento (PIR).

Conclusão do Caso: A análise da história clínica do paciente,
associada aos resultados disponíveis nos exames complementares, promoveu o
diagnóstico de uma disfagia por acalasia idiopática. Portanto, como conduta,
incialmente, foi recomendado o uso de dinitrato de isossorbida 5mg, via
sublingual, antes das refeições – objetivando uma melhora temporária dos
sintomas -, enquanto se aguardou a oportunidade de realizar o procedimento de
injeção de toxina botulínica tipo A diretamente no Esfíncter Esofagiano
Inferior (por via endoscópica). Uma vez realizado o procedimento, foi observada
uma melhora dos sintomas. Além disso, o paciente foi orientado a fazer
acompanhamento médico a fim de observar um novo aparecimento dos sintomas, pois
é esperado que seja necessário repetir a aplicação da injeção de toxina
botulínica em um período de 6 meses a 1 ano após a aplicação anterior. Por fim,
o paciente também foi orientado a seguir certas mudanças de hábitos de vida,
como mastigar bem os alimentos, comer de forma calma, evitar alimentos muito
frios e evitar alimentação noturna.

Questões para orientar a discussão do caso de disfagia por acalasia

  1. Qual é o diagnóstico mais provável? Quais
    elementos são importantes na sua história clínica?
  2. Quais são os exames úteis para
    definir o diagnóstico?
  3. Como explicar a condição relatada
    pelo paciente com base nos exames solicitados?
  4. Quais são os diagnósticos
    diferenciais?
  5. Qual é a conduta terapêutica mais
    apropriada?

Respostas

  1. Qual é o diagnóstico mais provável?
    Quais elementos são importantes na sua história clínica?

A partir da interpretação da história
clínica e dos achados dos exames complementares, pode-se concluir que o diagnóstico
mais provável é o de Disfagia por Acalasia de causa idiopática. Sob essa
lógica, o paciente descreve um aparecimento de uma disfagia, que ocorre tanto para sólidos quanto para líquidos, de
maneira frequente, com sintomas progressivos, ocasionando perda de peso
importante. Além disso, é relevante destacar a presença de sintomas associados,
como a tosse atrelada a episódios de engasgo (elementos que, possivelmente,
foram determinantes para a progressão do seu emagrecimento).

Em casos de acalasia, a disfagia por
condução é associada à disfunção do Esfíncter Esofagiano Inferior (EEI) e do
corpo do esôfago, o que obstrui a passagem do bolo alimentar originando essa
sintomatologia que provoca “entalos”, sensação de engasgo, tosse, regurgitação
e, com o passar do tempo, acúmulo de alimentos, o que pode ocasionar halitose.

Além disso, ao fazer uso do escore de
Eckardt, pode-se realizar uma avaliação dos sintomas da Acalasia. Esse escore
atribui um valor de 0 a 3 pontos para a presença e a frequência de determinados
sintomas da acalasia, os quais são: perda de peso, disfagia, dor torácica e
regurgitação. Para cada sintoma, é atribuída uma pontuação de 0 a 3, e o total
de pontos permite classificar o paciente em estágio clínico 0 (0 a 1 ponto),
estágio clínico I (2 a 3 pontos), estágio clínico II (4 a 6 pontos) e estágio
clínico III (mais que 6 pontos).

Pela história do paciente avaliado, é
possível somar um total mínimo de 7 pontos, seguindo a caracterização clínica
de suas queixas (emagrecimento de 5Kg, disfagia diária, regurgitação em toda
refeição e ausência de dor torácica), fato que o encaixa no estágio clínico
III. É importante ressaltar que apenas o quadro clínico não é suficiente para firmar
o diagnóstico de acalasia.

Ainda dentro da histórica clínica do
paciente retratado, é preciso estar atento quanto a um quadro de possível
desnutrição. Nesse sentido, a história clínica de perda de peso involuntária
superior a 5% no último mês associada à ingestão alimentar inadequada são bons indicadores
de desnutrição em idosos.

Outro elemento que deve ser levado em
consideração na interpretação do possível quadro de desnutrição é o cálculo do
IMC do idoso, uma vez que, pelo valor obtido no exame antropométrico do
paciente (20,96), foi possível concluir que ele se enquadra no grupo de baixo
peso. Tal situação é observada devido ao fato de a interpretação do IMC em
pacientes idosos ser norteada por valores de referência diferentes. Sob essa
lógica, os valores de referência do IMC em idosos são:

  • Menor ou igual 22: baixo peso
  • Maior que 22 e menor que 27: peso adequado
  • Maior ou igual a 27: Sobrepeso

2. Quais são os exames úteis para definir o diagnóstico?

O esofagograma contrastado (exame radiológico) e a manometria esofágica de alta resolução são dois exames fundamentais para o diagnóstico da doença. Além disso, a investigação endoscópica é importante para descartar a possibilidade de neoplasias, as quais se configuram como diagnósticos diferenciais relevantes.

3. Como explicar a condição relatada pelo paciente com base nos exames solicitados?

Nos exames laboratoriais, foi observada
uma redução dos níveis séricos de albumina (2,8 g/dL), o que se enquadra em um
indicativo de desnutrição em idosos (albumina sérica menor que 3,5g/dL). Esse
resultado sugere a presença de um quadro de desnutrição, pois também está associado
à perda de peso recente e ao cálculo do IMC do paciente.

O esofagograma contrastado revelou uma dilatação
do corpo esofágico de 7cm (megaesôfago) com porção distal na configuração de “bico
de pássaro” (formato afunilado) na topografia do EEI. A dilatação do
esôfago não é obrigatória, sendo mais comum que esteja ausente em fases mais
iniciais da doença.

A manometria esofágica de alta resolução apontou
para um aumento da Pressão Integrada de Relaxamento (PIR), com um relaxamento
incompleto do EEI e 100% de falha da peristalse, o que demostra uma
incapacidade do esfíncter inferior do esôfago em relaxar durante a deglutição.
Esses achados são suficientes para encaixar o paciente na classificação
Acalasia tipo I (Clássica) pela classificação de Chicago. É esperado que haja
uma redução do tônus do EEI durante o período da deglutição (aproximadamente 2
segundos após o ato de deglutir), e, quando esse processo está comprometido,
existe uma propensão ao desenvolvimento da disfagia.

4. Quais são os diagnósticos diferenciais?

Um dos possíveis diagnósticos diferenciais
é a presença de um câncer, visto que o desenvolvimento de uma neoplasia poderia
justificar o emagrecimento importante observado na história do paciente, o que
ressalta a importância do exame endoscópico como forma de afastar esse
diagnóstico.

Outros possíveis acometimentos ocasionar
diferentes tipos de disfagia, dentre as causas podem ser citadas causas
mecânicas (ocasionada por trauma, intubação orotraqueal ou uso de próteses
dentárias), causas neurogênicas (acidente vascular encefálico, doença de
Parkinson e paralisia cerebral), distúrbios do movimento (doenças
neurodegenerativas, discinesias, doença de Alzheimer, neuropatias, esclerose
múltipla e outras) ou até mesmo causas psicogênicas.

Também é muito importante estar atento ao
uso de medicamentos pelo paciente, visto que a utilização de certas drogas pode
ocasionar uma disfagia secundária. Desse modo, drogas como sedativos
(benzodiazepínicos, opiáceos e neuroepiléticos), corticosteroides,
anticolinérgicos e antidepressivos podem levar ao desenvolvimento desse quadro.

Por fim, também é importante ressaltar a semelhança entre a clínica da acalasia idiopática e a clínica da acalasia consequente à doença de Chagas, sendo necessário investigar se o paciente esteve em situações com riscos epidemiológicos relevantes para a contaminação por esse tipo de doença (como realizar visitas em viagens ao interior e ser morador de casas sem edificação de alvenaria).

5. Qual é a conduta terapêutica mais apropriada?

É importante realizar um acompanhamento e
aconselhamento nutricional do paciente, visto que é comum que haja associação
entre acalasia e desenvolvimento de desnutrição, que é uma consequência do
comprometimento da capacidade de ingestão adequada de alimentos.

É necessário destacar também a importância
de medidas de educação e mudanças de hábitos de vida. Essas medidas incluem:
mastigar os alimentos adequadamente, alimentar-se de maneira calma, ingerir
água para auxiliar na deglutição de alimentos, evitar consumir alimentos muito
frios e evitar alimentação noturna.

Os medicamentos mais utilizados para o
tratamento da acalasia são os nitratos e bloqueadores do canal de cálcio, porém
é preciso salientar que as intervenções terapêuticas medicamentosas para o
tratamento da acalasia comumente não são eficazes no manejo da doença a longo
prazo. Isso ocorre devido a um efeito de tolerância em relação à ação do
medicamento – muitas vezes, a sensação de desconforto ao deglutir e outros
sintomas podem voltar a ocorrer mesmo em uso de medicamentos – e devido a uma
dificuldade em se manter o tratamento por causa da presença de efeitos colaterais,
como hipotensão, dores de cabeça e edema periférico. Por isso, muitas vezes, é
recomendado fazer o uso desses fármacos como um paliativo enquanto não houver
oportunidade de iniciar um tratamento mais resolutivo.

Por outro lado, opções mais invasivas se
provaram eficazes no tratamento a longo prazo desse quadro. Nesse contexto, alternativas
como miotomia de Heller laparoscópica e miotomia esofágica endoscópica
peri-oral (intervenções cirúrgicas), dilatação pneumática e injeção endoscópica
direta de toxina botulínica tipo A no EEI são opções viáveis de tratamento. Apesar
de a resposta ao tratamento ser variada, evidências demonstram que o tratamento
de indivíduos enquadrados nos tipos I e III, seguindo a classificação de
Chicago, possuem uma resposta menos satisfatória. O escore de Eckardt também
tem utilidade para avaliar a resposta ao tratamento, sendo os estágios II e III
indicativos de uma má resposta.

Apesar de a opção cirúrgica ser a mais
efetiva a longo prazo, o uso de toxina botulínica tem-se mostrado como mais
indicado para pacientes com presença de morbidades ou idosos, tendo como ponto
negativo a necessidade de que se realizem mais sessões de injeções ao longo da
vida.

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Autores, revisores e orientadores:

  • Área: Geriatria, Gastroenterologia
  • Autores: Erislan Rodrigues dos Santos e Gustavo Pessoa Pinto
  • Revisor(a): Ivna Vasconcelos de Oliveira
  • Orientador(a): Dr. Hiroki Shinkai
  • Liga: Academia de Medicina Geriátrica e Gerontologia de Sobral (AMGGES)

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