Identificação
A.M.C, masculino, 2 anos, pardo, natural de Araguaína-TO, reside com os pais.
Queixa principal
Foi encontrado morto no interior do apartamento dos pais.
História da Doença Atual (HDA)
Corpo conduzido ao IML após ser encontrado morto no apartamento dos pais as 10h da manhã, mãe alega que enquanto tomava banho ocorreu um arrombamento no imóvel e em seguida encontrou o filho morto na sala. Observou-se lesões contundentes em várias topografias (crânio, região cervical, abdome e membros inferiores).
História Patológica Pregressa: TEA grau III (SIC)
História Patológica Familiar: não soube relatar
História Fisiológica e Social: ambiente familiar hostil, situação econômica precária, moradia emprestada pelo empregador dos pais.
Exame físico
- Cabeça: Equimose azulada em região maxilar, Equimose violácea em região frontal juntamente com hematoma subgaleal.
- Abdome: Equimose amarelada em hipocôndrio esquerdo
- Membros Inferiores: equimoses múltiplas com várias tonalidades, de violáceas, azuladas até amareladas
Suspeita diagnóstica
Traumatismo craniano encefálico (TCE) após latrocínio, TCE após maus-tratos infantis, abuso físico e negligência.
Exame complementar
Necropsia, raio X
Diagnóstico
Óbito por traumatismo craniano devido espancamento, demonstrado por diversas equimoses pelo corpo, hematoma subgaleal com repercussão interna identificada na necropsia e no raio X como um afundamento traumático do osso frontal ocasionado por objeto contundente.
Discussão do caso
A criança em questão foi vítima de maus tratos que de acordo com a coloração das lesões, ocorreram durante vários dias culminando com o desfecho final de traumatismo craniano que a levou a óbito por omissão de socorro por parte dos progenitores.
A tanatologia é o estudo científico da morte, no qual consegue identificar as causas e possível momento da morte através dos sinais deixados no corpo da vítima. No caso em questão podemos identificar a fratura de crânio e as equimoses que geralmente são avermelhadas no primeiro dia, violáceas no segundo e terceiro dia, azul no quarto ao sexto dia, esverdeadas entre o sétimo e décimo dia e se tornam amareladas por volta do décimo segundo dia desaparecendo por completo ao vigésimo dia. Comprovando que as lesões foram provocadas em dias diferentes, não confirmando o depoimento da mãe de que a criança foi agredida durante arrombamento da moradia.
Conclusão
Crimes de maus tratos infantis são cada dia mais frequentes e podem se mostrar por omissão ou ação, neste caso foram associados os dois fatores. O exame pericial é fundamental para o desfecho do caso, onde é possível ordenar cronologicamente a sequência do crime.
Autores, revisores e orientadores
Liga: Liga de Medicina Legal – LML – @medicinalegalitpac
Autor(a) : Valéria Felix da Rocha – @valeria_felix
Revisor(a): Gabrielle Rosado Costa – @ gabriellercosta
Orientador(a): Ricardo Russi Blois – @rrbois
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
BANNWART, Thais Helena; BRINO, Rachel de Faria. Dificuldades enfrentadas para identificar e notificar casos de maus-tratos contra crianças e/ou adolescentes sob a óptica de médicos pediatras. Rev Paul Pediatr, v. 29, n. 2, p. 138-45, 2011.
CROCE, Delton Junior. Manual de Medicina Legal. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 345
FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina legal. Guanabara-Koogan, 2015

