Estudo de caso clínico: suspeita de Transtorno de Personalidade Borderline com queixa principal de “tentativa de autoextermínio após abandono da irmã”.
Identificação do paciente
A.J.M, 24 anos, estudante de jornalismo, residente e procedente de Brasília-DF, branca, católica, sexo feminino.
História da doença Atual (HDA)
A paciente acompanhada da mãe refere tentativa de suicídio após decisão da irmã de se mudar de casa, segundo a paciente a mudança se deve à relação entre as duas, e a irmã estaria a abandonando. Afirmou ficar deprimida com frequência e não ser sua primeira tentativa ou ameaça de suicídio. A mãe relata que a filha já tem episódios recorrentes de exagero na alimentação e nas compras, gasta muito dinheiro com presentes para as pessoas próximas como forma de compensar as brigas e ataques de raiva frequentes. A paciente relata ouvir vozes às vezes, principalmente nos momentos que está brigando ou irritada, mas que segundo ela, depois não escuta mais. A mãe afirma que a filha tem muita dificuldade em ter novas relações sociais.
Antecedentes pessoais, familiares e sociais
Antecedentes Pessoais: Internada duas vezes por tentativa de suicídio. Nega alergias e cirurgias.
Antecedentes Familiares: Irmãos hígidos, avó tem transtorno depressivo, mãe é diabética e pai hipertenso.
Histórico de Vida: fuma socialmente 1-2 maços por semana, afirma consumir álcool diariamente, principalmente nos finais de semana.
Condição Socioeconômica e Cultural: vive com o pai, a mãe, o irmão mais novo e a irmã mais velha em um apartamento de 4 quartos na cidade, onde possui acesso a saneamento básico e rede de luz. Possui um relacionamento difícil com a família e amigos, briga constantemente com os irmãos e amigos próximos.
Exame psíquico
Apresenta humor deprimido, alterações de sensopercepção com alucinações transitórias.
Suspeitas diagnósticas
- Transtorno de personalidade borderline;
- Transtorno depressivo maior;
- Transtorno afetivo bipolar;
- Esquizofrenia paranoide.
Diagnóstico do Transtorno de Personalidade Borderline
O diagnóstico é de transtorno de personalidade borderline, a paciente apresenta pelo menos 5 critérios presentes no DSM-5, esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado; padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos; impulsividade com compulsão alimentar, gastos e abuso de substâncias (álcool); recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas; instabilidade afetiva; raiva intensa e inapropriada e dificuldade de controlá-la além de ideação paranoide transitória.
Discussão do caso de Transtorno de Personalidade Borderline
O que é o Transtorno de personalidade?
O transtorno de personalidade se caracteriza como um padrão persistente de comportamento que desvia das expectativas sociais e culturais, segundo o DSM-V pode se manifestar em 2 ou mais das seguintes áreas: Cognição, afetividade, funcionamento interpessoal, controle de impulsos. O padrão deve ser persistente e abranger várias áreas da vida do indivíduo (não se limitar a apenas algumas situações) de forma a afetar sofrimento significativo e prejuízo no funcionamento social.
Por que transtorno de personalidade borderline?
Pois trata-se de um padrão de instabilidade global do humor, das relações interpessoais, da autoimagem, dos afetos e de uma impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta, estando presente em vários contextos. Fazem esforços absurdos para não serem abandonados, apresentam sentimento crônico de vazio e são comuns os atos e ameaças suicidas.
Como é Realizado o Diagnóstico?
O diagnóstico é clínico. E, segundo o DSM-5, (Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Doenças Mentais) os critérios para o diagnóstico são 5 ou mais dos seguintes:
- Esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado.
- Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização.
- Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou da percepção de si mesmo.
- Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (p. ex., gastos, sexo, abuso de substância, direção irresponsável, compulsão alimentar).
- Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante.
- Instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade de humor
- Sentimentos crônicos de vazio.
- Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la.
- Ideação paranoide transitória associada a estresse ou sintomas dissociativos intensos.
Como é Realizado o Tratamento?
O que é mecanismo de defesa
O psiquiatra deve compreender as defesas subjacentes do paciente, os processos mentais inconscientes usados para resolver conflitos entre os quatro princípios-guia da vida interior: instinto (desejo ou necessidade), realidade, pessoas importantes e consciência. Nos indivíduos com transtornos da personalidade, as defesas podem abolir a ansiedade e a depressão no nível consciente. Assim, abandonar uma defesa aumenta a consciência de ansiedade e depressão que estão entre os maiores motivos pelos quais indivíduos com transtornos da personalidade relutam em alterar seu comportamento.
Psicoterapia
Terapia dialético-comportamental: terapia desenvolvida especificamente para manejo de pacientes com TBP. Com terapeuta e com abordagens individuais, o paciente desenvolve habilidades para confrontar e lidar com os impulsos e as emoções volúveis que eles sentem.
Farmacoterapia
Pode ser usada no manejo de características específicas do transtorno. Como os antipsicóticos para controlar raiva, hostilidade e episódios psicóticos breves. Antidepressivos melhoram o humor deprimido comum em indivíduos com transtorno da personalidade borderline. Inibidores da MAO (IMAOs) modular com sucesso o comportamento impulsivo em alguns pacientes.
Autores, revisores e orientadores
Liga: Liga Acadêmica de Psiquiatria do DF: LIPSI – DF – @lipsi.df
Autora : Ana Luiza Antony Gomes de Matos da Costa e Silva – @analuizantony
Revisor(a): Vinicius Uler lavorato
Orientador(a): Dra Lais da Silva Gonçalves
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
KAPLAN, HI. & SADOCK, B. Compêndio de Psiquiatria. 11ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 2017
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 / American Psychiatric Association: Porto Alegre : Artmed, 2014.
Casos clínicos em psiquiatria / Toy, Klamen – 4. ed.. – Porto Alegre : AMGH, 2014