Identificação do paciente
L.G.F., 30 anos, brasileiro, estudante universitário e funcionário da rede privada, branco, heterossexual, de origem católica, solteiro.
Queixa principal
O paciente apresentava as seguintes queixas: sentia-se deprimido; com um cansaço constante e excessivo (físico e mental); irritabilidade; dores de tensão na nuca e na cabeça; taquicardia e falta de ar; mudança no estado de ânimo sem razão aparente; relato de medo da morte; medo de sair de casa; acessos de nervoso e descontrole emocional, relato de sensação de pânico.
História da doença Atual (HDA)
Paciente apresentou início dos sintomas aos 13 anos, relatou crise nervosa, dispneia e sensação constante de medo na realização das atividades normais, evoluindo com piora clínica aos 19 anos ao apresentar fobia social e apatia. Atualmente refere intensificação dos sintomas, além de irritabilidade, dificuldade de concentração, com impacto nas atividades laborais e uma sensação eminente de morte (com duração média de 10 à 15 minutos) ao realizar atividades cotidianas, como sair de casa.
Queixa-se de dores crônicas na cabeça, nos músculos intercostais, nos seios nasais e nas órbitas oculares. Apresenta também um cansaço constante associado a falta de ar, tremor e sudorese excessiva nos membros.
Já fez uso de fluoxetina, clomipramina e cloridrato de trazodona, sem eficácia clínica. Além disso, já fizera tratamento com psicanalista clínico, durante o período de 15 meses, sem relato de melhora. A família o descreve como impulsivo, com dificuldade de se relacionar e instável.
Antecedentes pessoais, familiares e sociais
O paciente relata falecimento da mãe aos 52 anos, devido a neoplasia cerebral, resultando em piora do quadro clínico do paciente e afastamento do restante do núcleo familiar, composto pelo pai, irmão gêmeo e irmã mais velha.
Antecedentes fisiológicos e patológicos sem alterações em saúde física. À avaliação minuciosa, apresenta-se com sintomas evidentes de ansiedade, melancolia, porém sem ideação suicida. Relata insônia e episódios de sono agitado e descontínuo (insônia de manutenção), sensação de medo contínua, falta de libido e inapetência.
Sem relato de drogas ilícitas, cessou tabagismo aos 26 anos, carga tabágica de 8 maços-ano, não faz uso de álcool e oscila entre dias de desânimo e quadros de compulsão por atividades físicas e baixo consumo nutricional.
Exame físico
Exame físico completo sem alterações
Suspeitas diagnósticas
- Depressão
- Transtorno de Ansiedade
- Transtorno de Pânico
Diagnóstico
Apesar de preencher critérios clínicos tanto para depressão maior como para transtorno de ansiedade, é possível inferir que a sensação constante de medo, os relatos dores crônicas, a falta de ar e a agorafobia estão associados a Síndrome do Pânico.
De acordo com o DSM-V, no Transtorno de Pânico (TP), o indivíduo apresenta um padrão instável com ataques de pânicos recorrentes e inesperados, associados ao medo e ao desconforto intenso, que estão presentes em uma variedade de contextos, partindo de um estado calmo ou de um estado ansioso, alcançando o pico em minutos, durante o qual ocorrem 4 ou mais sintomas físicos e cognitivos dos critérios citados abaixo.
- Medo de morrer
- Medo de enlouquecer ou de perder o controle
- Sensações de irrealidade, estranhamento (desrealização) ou desligamento de si mesmo (despersonalização)
- Dor ou desconforto no peito
- Tontura, sensação de instabilidade ou de desmaio
- Sensação de sufocação
- Ondas de calor ou calafrios
- Náuseas ou desconforto abdominal
- Sensações de anestesia ou parestesia
- Palpitação ou aceleração da frequência cardíaca
- Sensação de falta de ar ou asfixia
- Sudorese
- Tremores
Para o diagnóstico o(s) ataque(s) deve ter sido seguido das seguintes características:
- Apreensão persistente acerca de ataques de pânico adicionais ou sobre suas consequências, como a perda de controle física e emocional.
- Mudança comportamental significativa com o intuito de evitar os ataques de pânico, como a esquiva de atividades físicas, entre outros.
Além dessas características a perturbação não deve ser consequência dos efeitos de uma substância (drogas de abuso e medicamentos) ou de outra condição médica (hipertireoidismo, doenças cardiopulmonares).
Discussão do caso de Transtorno de Pânico
1. O que é o Transtorno de Pânico?
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) define o Transtorno de Pânico é a ocorrência de ataques de pânico repetidos e intensos, acompanhados de sensação de mal-estar, medo de mudanças comportamentais e até mesmo de outros ataques, fazendo com que o paciente evite situações que possibilitem a recorrência desse quadro. A crise estabelece seu pico em alguns minutos, acarretando intenso sofrimento psíquico.
2. Quais os prováveis diagnósticos?
Transtorno de Pânico.
De acordo com o DSM-V o Transtorno de Pânico está associado ao relato de 4 ou mais sintomas dos 13 característicos, além de sintomas específicos de cada paciente, tais eventos devem estar em conjunto com uma mudança comportamental em virtude do medo dos quadros de pânico e não associados a outras patologias clínicas que causem a sintomatologia. Além disso, o TP pode acontecer em conjunto com a agorafobia.
3. Qual o tratamento adequado para o Transtorno de Pânico?
Atualmente, o tratamento mais adequado para esses transtornos é a abordagem multidisciplinar, com destaque para associação entre a psicoterapia e o tratamento farmacológico dos sintomas – como a sensação de medo constante, a apatia para as tarefas cotidianas, o humor deprimido e os ataques repentinos de pânico. Assim, é possível prescrever antidepressivos associados a benzodiazepínicos. A psicoterapia focada na terapia cognitivo-comportamental e na terapia de exposição são os que demonstram maior eficácia no que diz respeito à psicologia.
4. Qual é o prognóstico do caso?
Apesar de serem transtorno de ocorrência crônica com oscilações, como relatado pelo paciente, o tratamento continuado com a psicoterapia e o uso correto dos fármacos tende a uma melhora significativa da qualidade de vida.
Conclusão
Haja vista a sintomatologia multifatorial e os efeitos físicos e psíquicos abordados, torna-se evidente a importância do tratamento multidisciplinar, contando com médico psiquiatra e psicólogo, com o intuído de reinserir o paciente no ambiente social, além de oferecer mecanismos para lidar com os ataques de pânico e, até mesmo, evitá-los.
Temos como principais aprendizados do caso:
- O Transtorno de Pânico causa grande sofrimento devido ao contínuo convívio com o medo levando o paciente a um distanciamento social exagerado.
- O tratamento multidisciplinar é indispensável para a tranquilização do paciente e para a educação em saúde no que tange ao convívio com a ansiedade.
- Apesar da cronicidade, o tratamento para o Transtorno de Pânico ajuda a controlar os sintomas e assim, melhora a qualidade de vida do paciente.
Autores, revisores e orientadores:
Liga: Liga Acadêmica de Saúde Mental – @liasmeunesaju
Autora: Gabrielle Barros – @gabi_barros
Revisor: Marcelo Pontes P. Bastos- @mppbastos
Orientadora: Dra Fátima Vasconcellos
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
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