Os vasos prévios correspondem a uma anomalia na qual vasos umbilicais cruzam o segmento inferior uterino, se colocando à frente da apresentação. Tal condição tem como principal fator de risco a inserção velamentosa do funículo umbilical, quando parte do cordão está inserido no meio das membranas amnióticas, o que ocorre em 1 a 2% de todas as gestações.
Apresentação do caso clínico
H.C.B, gestante, 26 anos, bancária, natural e procedente de Vassouras, Rio de Janeiro, com idade gestacional de 37 semanas, procurou o pronto atendimento obstétrico em franco trabalho de parto. Tercigesta (G3 P2 A0), com 2 partos vaginais prévios e acompanhamento pré-natal sem intercorrências. Engravidou através de fertilização in vitro por laqueadura tubária após a segunda gestação. Nega comorbidades, medicações de uso contínuo ou alergias.
Exame obstétrico: altura de fundo uterino = 32cm; dinâmica uterina = 5 contrações de 60 segundos em 10 minutos; dilatação total; apresentação fetal = cefálica, no plano 0 de De Lee; bolsa íntegra. Após 10 minutos nesta condição, ocorre a amniorrexe espontânea, que culmina em sangramento de grande quantidade por via vaginal e bradicardia fetal (FCF = 40 bpm).
Suspeitas diagnósticas
- Rotura de Vasa Prévia
- Rotura de Seio Marginal
- Rotura Uterina
Exames complementares
Rapidamente, foi feito um esfregaço do sangue exteriorizado em lâmina de vidro, corado pelo método de Wright, no qual foi possível observar hemácias nucleadas, indicando se tratar de sangue fetal e não materno.
Diagnóstico e tratamento
Com base no quadro clínico e no esfregaço de sangue realizado, a paciente foi diagnosticada com Rotura de Vasa Prévia e rapidamente encaminhada para a resolução da gestação através de cesariana.
Questões para orientar a discussão
- Quais são os fatores de risco?
- Existe rastreamento durante o pré-natal? Em quem está indicado e como ele é feito?
- Como é feito o tratamento?
- Qual é o prognóstico?
Respostas
- A rotura de vasa prévia é uma condição associada às inserções marginais do cordão, placentas bilobadas, placentas suscenturiadas (quando há lobo acessório separado da massa placentária) e inserção velamentosa do funículo umbilical (fator de risco mais frequentemente associado).
- Sim. O rastreamento dessa entidade é mandatório para mulheres que apresentem placentação baixa, placenta bilobada, placenta suscenturiada e/ou gravidez resultante de técnicas de reprodução assistida, através da ultrassonografia com dopplerfluxometria colorida. Estudos recentes demonstraram uma redução na mortalidade fetal quando é feito o diagnóstico de vasa prévia durante o pré-natal.

3. Quando é detectada durante o pré-natal, os estudos mais recentes indicam que a melhor conduta seria a interrupção eletiva da gestação através de cesariana em todas as pacientes com 36 semanas de idade gestacional ou mais. Quando ocorre durante o trabalho de parto, como o sangramento é fetal e não materno, o tratamento consiste em cesariana de emergência, uma vez que o risco de óbito fetal por hemorragia é grande (mortalidade fetal de 56% quando o diagnóstico é feito no momento do trabalho de parto).
4. O prognóstico é melhor quando a artéria umbilical é envolvida, já que a circulação pode se manter pela outra artéria umbilical. Por outro lado, quando a veia umbilical é acometida, o prognóstico é pior, com morte do feto quase imediata.
Autores e revisores
Autores: Breno Castro Corrêa de Figueiredo e Natália Parreira Arantes
Revisora: Renata Baptista dos Reis Rosa
Orientador: Osvaldo Luiz Aranda
Liga: Liga Acadêmica de Ginecologia e Obstetrícia
O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
MONTENEGRO, Carlos Antônio Barbosa; REZENDE FILHO, Jorge de. Rezende Obstetrícia. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
FREITAS, Fernando et al. Rotinas em Obstetrícia. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
ZUGAIB, Marcelo (ed.). Zugaib Obstetrícia. 3. ed. Barueri: Manole, 2016.
CUNNINGHAM, F. Gary et al. Obstetrícia de Williams. 24. ed. Porto Alegre: Amgh, 2016.