Caso Clínico: Paralisia Infantil | Ligas

  • maio 3, 2021
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O caso clínico abaixo refere-se sobre uma paciente do sexo feminino, 58 anos de idade, acamada, com sequelas de paralisia infantil que teve aos 2 anos de idade.

Identificação do paciente

Paciente do sexo feminino, 58 anos, data de nascimento 31/12/1963, brasileira, natural de Pindorama-TO, ocupação/profissão relatada como do lar, reside em Porto Nacional -TO. Faz acompanhamento clínico na UBS da região.

Queixa principal

Acompanhante relata sequelas de paralisia infantil que se contaminou aos 2 anos de idade, manifestando déficit motor e psíquico.

História da doença Atual (HDA)

A paciente possui sequela de AVC com alterações motoras e psíquicas, é acamada, possui retardo mental, acompanhante relata que parou de caminhar há 8 anos. Era cuidada pela mãe, que faleceu em 2013, após isso os irmãos se revezavam nos períodos do dia para cuidar e contrataram uma cuidadora diurna. Histórico de quedas, sem fraturas, piora dos movimentos e rigidez ao longo do tempo, não faz fisioterapia, alimentação variada com mais frequência as sopas.

Antecedentes pessoais, familiares e sociais

Acompanhante nega comorbidades como DM e HAS, nega alergias. Teve pneumonia aspirativa há 8 anos e nega antecedentes cirúrgicos. Faz uso das seguintes medicações: Depakene 500 mg 12/12 h; Clonazepam 2,5 mg/ml 9 gotas a noite; Carbamazepina 400 mg 12/12 h; Risperidona 1 cp a noite; Quetiapina 25 mg 1 cp a noite; Gardenal 100 mg 12/12h.

Irmão com hipotireoidismo; irmãos (3): um irmão teve infarto aos 46, outro fez cirurgia para colocação de Stent, e outro está em tratamento de aterosclerose; mãe faleceu de AVC aos 82 anos e foi diagnosticada com Alzheimer aos 81 anos; pai faleceu de infarto aos 63 anos.

Exame físico

Ao exame físico, apresenta-se regular em bom estado geral, lúcida, orientada em espaço, acianótica, anictérica e afebril, bem cuidada, sabe cidade e local, mas não tem noção do tempo. ACV: BNF, R 2T, s/s. AR: MV presente sem ruídos adventícios. SpO2: 98%. FC: 82 bpm. PA: 110×80 mmHg. MMII: sem edemas. Apresenta rigidez muscular e dificuldade de movimentos. Foi solicitado exames laboratoriais: hemograma, TGO, TGP, EAS, lipidograma, creatinina e glicemia em jejum como de rotina e monitoramento. Solicitou-se também eletroencefalograma e RM do crânio para avaliação das sequelas.

Suspeitas diagnósticas

  • Paralisia infantil com sequelas motoras e psíquicas
  • AVC
  • Síndrome de Guillain-Barré pela paralisia
  • Infecção enterovírus 71 que causou encefalite

Exames complementares

Os exames solicitados foram a análise do líquido cefalorraquidiano, Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), eletroencefalograma e Ressonância Magnética (RM) do crânio.

Diagnóstico

Além do exame clínico, sinais e sintomas, o diagnóstico de paralisia infantil é feito através da análise do líquido cefalorraquidiano. O líquido vai apresentar quantidade de proteína elevada e uma pleocitose com predominância linfocítica. E também através da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR). Quando o vírus acomete o sistema nervoso central, deixa sequelas que podem ser progressivas com o aumento da idade. Para um acompanhamento mais minucioso do caso é recomendado solicitar eletroencefalograma e RM do crânio.

Discussão do caso da paralisia infantil

Perguntas para orientar a discussão:

  1. Como é a fisiopatologia da doença?
  2. Quais os possíveis tratamentos?
  3. Como prevenir?
  4. Quais os diagnósticos diferenciais?
  5. Qual o prognóstico?

Respostas

1 – A poliomielite é uma doença viral aguda causada pelo poliovírus, um enterovírus. Esse vírus entra no organismo através da via oral-fecal e replica-se, inicialmente, no sistema linfático do trato gastrointestinal, especialmente nas placas de Peyer no intestino delgado. A disseminação para os canais linfáticos gastrointestinais locais é seguida por viremia sistêmica, que se propaga no sistema nervoso, no tecido musculoesquelético, atinge a medula espinal e replica-se nas células do corno anterior. A morte das células do corno anterior pode levar a paralisia permanente (infecções paralíticas), mas uma compensação pelo crescimento colateral de células não infectadas no mesmo segmento da medula pode permitir melhora no estado funcional e na recuperação motora destes pacientes. A disseminação do vírus ocorre pelo sistema reticuloendotelial e assim ocorre a infecção disseminada.

2 – Não há tratamento específico para poliomielite (paralisia infantil) causada por poliovírus. É feito a terapia de suporte para manter o paciente com os sistemas preservados.

3 – A prevenção é feita através da imunização com a vacina contra a poliomielite: três doses da vacina injetável – VIP (aos 2, 4 e 6 meses) e mais duas doses de reforço com a vacina oral bivalente – VOP (gotinha).

4 – Encefalite causada pelo enterovírus 71, Coxsackievirus 7 e o enterovírus 70, síndrome de Guillain-Barré e mielopatia inflamatória.

5 – Na forma não paralítica (que não atinge o sistema nervoso central) a recuperação é completa com bom prognóstico. Na forma paralítica, aproximadamente dois terços dos pacientes têm fraqueza permanente residual. A paralisia bulbar tem mais probabilidade de resolução do que a paralisia periférica. A mortalidade é de 4 a 6%, mas aumenta para 10 a 20% em adultos e em pessoas com doença bulbar. A lesão neurológica pode progredir com o aumento da idade, tonsilectomia recente ou injeção intramuscular, gestação, comprometimento da função das células B, esforço físico simultâneo ao início da fase no sistema nervoso central.

Figura 1: Sequelas da Poliomielite. Fonte: Ministério da Saúde, 2018.

Conclusão

Dado a situação atual da paciente, é necessário que seja feita a terapia de suporte para que a paciente se mantenha estável, com inserção de fisioterapia no mínimo 2 vezes na semana. 

Portanto, os principais aprendizados do caso foram:

  • Compreensão da patologia paralisia infantil
  • Estudo amplo do prontuário do paciente
  • Distinção dessa patologia com outros possíveis diagnósticos
  • Análise das formas de contágios da poliomelite
  • Conhecimento com características interdisciplinar.

Autores, revisores e orientadores:

Liga: Liga Acadêmica de Anatomia Humana e Cirúrgica – @laahcporto

Autor(a): Isabela Milaneis

Coautor(a): Laryssa Ribeiro Cardoso

Revisor: Rafaela França

Orientador: Sara Janai Corado Lopes

O texto acima é de total responsabilidade do(s) autor(es) e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

GOLDMAN, Lee; AUSIELLO, D.A. (Ed.). Cecil Medicina. 24 ed. Rio de Janeiro, RJ: Elsevier Saunders, c2014. 1v. p. 2759-2760.

ABBAS, A.K.; FAUSTO, N.; KUMAR, V. Robbins & Cotran – Patologia – Bases Patológicas das Doenças, 8ª ed., Elsevier/Medicina Nacionais, Rio de Janeiro, 2010. p. 1312.

BRASIL. Ministério da saúde. Poliomielite (paralisia infantil). Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/2854-poliomielite-paralisia-infantil. Acesso em: 30/03/2021. – Figura 1

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