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Caso Clínico: Neurotoxoplasmose na sala de emergência | Ligas

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Área: Emergência / Neurologia
Autor: Jobson Felipe Soares de Jesus
Revisor: Danielle Correia Paixão
Orientador: André Gusmão
Liga: Liga Acadêmica de Emergência e Trauma da Uneb (LIET)

Apresentação do caso clínico

Paciente
do sexo feminino, 26 anos, parda, auxiliar de serviços administrativos,
procedente e residente de Salvador, Bahia, procurou atendimento em Unidade de
Pronto Atendimento do Cabula, com queixa de crise convulsiva tônico-clônica
generalizada (TCG) há cerca de meia hora. Veio trazida por familiares que
presenciaram o episódio, porém a paciente não recorda com precisão do ocorrido,
referindo apenas “perda” repentina da consciência (SIC).  Paciente relata que há cerca de 12 dias,
iniciou-se parestesia em membro inferior direito, que se manteve estável.
Refere também cefaléia holocraniana, intensa, que melhora com dipirona sódica,
sem fatores de melhora e piora, que iniciou juntamente à parestesia. Refere ser
portadora do vírus HIV, e parou de tomar medicamentos pois refere que “se
sentia mal” quando os ingeria. Refere ter perdido peso recentemente, e nega
outras intercorrências. Nega episódios convulsivos anteriores.

Ao exame
físico, a paciente encontrava-se em estado geral regular, lúcida e orientada em
tempo e espaço, afebril (36,6ºC), acianótica,
anictérica, hidratada, eupneica (frequência
respiratória = 18 irp), normocárdica (frequência
cardíaca = 74 bpm) e normotensa (110 x
80 mmHg). Apresentava-se confusa quanto a descrição do
evento consulsivo. Extremidades sem edema e bem perfundidas. Aparelho
respiratório com murmúrio vesicular presente e bem distribuído bilateralmente,
sem ruídos adventícios. Aparelho cardiovascular, bulhas rítmicas normofonéticas
em dois tempos e sem sopros. Abdome globoso, flácido, ruídos hidroaéreos
presentes, fígado e baço não palpáveis e indolor à palpação superficial e
profunda.

A paciente foi mantida sob observação para realizar exames complementares e apresentou nova crise TCG e foi estabilizada com diazepam, intravenoso. Foram solicitados exames laboratoriais, cujos resultados vieram na faixa de normalidade, destacando-se apenas sorologia positiva para Toxoplasmose gondii (IgG). Na TC de crânio com contraste, observou-se lesão anelar hipercaptante em região do lobo parietal com edema perilesional e desvio de linha média. Análise do líquor foi inespecífica, com discreta pleocitose. Os exames laboratoriais revelavam: Hemoglobina 7.9 g/dl, leucócitos 3.230/mm3, TCD4+ 134 células/mm³, plaquetas de 180.000/mm3, ureia 28 mg/dl, creatinina 0,9 mg/dl, sódio 140 mmol/L e potássio 4,0 mmol/L. Após os exames e história clínica, a equipe composta por clínico geral e infectologista, presumiram Neurotoxoplasmose (NTX) como diagnóstico para quadro da paciente instituindo-se o tratamento com Sulfadiazina+ Pirimetamina+ Ácido Folínico, e a paciente evoluiu com melhora clínica satisfatória após seis semanas com esquema terapêutico. Foi também iniciada terapia antirretroviral adequada. Após receber alta hospitalar, manteve acompanhamento ambulatorial com infectologista e foi recomendado profilaxia secundária com fármacos anteriormente mencionados, sendo suspensa após boa resposta a TARV e manutenção dos níveis de TCD4 acima de 200 células/mm³ por mais de seis meses.

Questões para orientar a discussão

  1. Quais os
    principais sintomas de um quadro de Neurotoxoplasmose?
  2. Em quais situações
    a biópsia da lesão é recomendada?
  3.  Quais outros achados podem ser vistos na
    análise do líquor?
  4.  É possível prevenir esse tipo de quadro?
  5.  Como avaliar a resposta clínica dos
    pacientes nesse caso?

Respostas

  1. Os
    sintomas incluem: Hemiparesia, cefaleia, confusão mental, letargia e
    convulsões. Geralmente o quadro se manifesta de maneira subaguda, assim como
    outras infecções oportunistas, com duração de 2-3 semanas, podendo os sintomas
    variarem de acordo a topografia encefálica acometida. Outros sintomas que podem
    estar presentes são: febre, paralisia de nervos cranianos e acidentes
    vasculares encefálicos, inclusive com sinais de irritação meníngea.
  2. O
    diagnóstico de Neurotoxoplasmose é na maior parte das vezes presuntivo,
    associado os achados clínicos com a presença de lesão característica em exames
    de imagem do crânio (RM e TC). Dessa forma, na maior parte das vezes trata-se
    empiricamente, sendo a biópsia resguardada para lesões únicas com sorologia
    para T. gondii negativa, lesões sugestivas de linfoma e para pacientes
    tratados empiracamente e refratários clinicamente após 10-14 dias. O tratamento
    empírico é prescindido também em casos de lesões com efeito de massa gigantes
    nas quais o paciente necessita  de
    descompressão cirúrgica.
  3. O
    exame do Líquido cérebro-espinal (LCE) do paciente com NTX pode ser
    inespecífico. Além da pleocitose, geralmente inferior a 200 leucócitos por mm³,
    com baixos percentuais de neutrófilos, pode haver aumento do teor proteico e
    aumento de globulinas-gama. Geralmente a glicose é normal. A identificação do
    parasita no LCE é difícil. Pode auxiliar no diagnóstico afastando outros tipos
    de infecção do SNC, bem como se mostrar níveis de IgG para Toxoplasmose
    superiores ao soro, ou se aumento do IgG em amostras sucessivas ou mesmo
    mostrando IgM para T.gondii, sendo a ultimasituação rara mesmo
    na fase aguda da doença em pacientes imunossuprimidos.
  4. A
    profilaxia primária do quadro é recomendada em indivíduos IgG+ para T.gondii
    e contagem de TCD4 inferior a 100 células/mm³. A escolha inicial consiste em
    esquema com Sulfametoxazol + Trimetoprima (800/160 mg/dia) uma vez ao dia, com
    suspensão se boa resposta  à TARV e
    elevação de TCD4 para mais de 200 células/mm³ por mais de seis meses.
  5. Espera-se
    melhora clínica progressiva em quase todos os pacientes após 14 dias, com
    recuperação completa ao fim do tratamento. Podem ocorrer recidivas em pacientes
    muito imunossuprimidos mesmo com boa adesão terapêutica. Recomenda-se avaliação
    clínica diária e repetição de exame de imagem (TC ou RM) após duas semanas do
    início do tratamento. Antecipa-se o exame se deterioração clínica antes do
    prazo mencionado.

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