Índice
História Clínica
Paciente, sexo masculino, 14 anos.
Queixa principal: disfagia e dor retroesternal há 3 meses.
História da moléstia atual: paciente cursou com disfagia intermitente e dor retroesternal, sem relação com a deglutição, sem irradiação, há 3 meses. Associada a náuseas e vômitos com restos alimentares, além de pirose na região epigástrica, que piora com a alimentação, sem melhora após uso de omeprazol. Paciente relatou impactação alimentar. Urina de coloração habitual (amarelo clara). Nega febre, hematêmese, disúria, polaciúria, oligúria e uso de medicações contínuas. Nega diarreia.
Hábitos de vida: Dieta rica em carboidratos e proteína. Nega tabagismo e etilismo.
Antecedentes patológicos: É alérgico a Amoxicilina.
Antecedentes familiares: A mãe asmática e o pai falecido por doença coronariana aguda.
Exame Físico
Geral: Bom estado geral e nutricional, acianótico, anictérico, facie de dor, afebril.
Sinais vitais: PA: 120 x 90 mmHg FC: 90 bpm FR: 14 ipm TA: 36.6°C
Cabeça e pescoço: Sem adenopatias, língua de tamanho habitual, dentes em perfeito estado, uso de aparelho ortodôntico.
Aparelho respiratório: Expansão preservada, murmúrios vesiculares bem distribuídos em ambos hemitórax, sem ruídos adventícios. Frêmito toracovocal presente, som claro pulmonar a percussão.
Aparelho cardiovascular: Tórax sem abaulamento ou cicatrizes, ictus palpável no 5º EIE, na linha hemiclavicular. Bulhas normofonéticas, em 2 tempos, sem sopros audíveis. Ausência de estase jugular.
Abdome: Flácido às custas de panículo adiposo, levemente distendido, sem dor à palpação superficial e profunda. Ausência de sinais de irritação peritoneal. Murphy, Blumberg no ponto de McBurney ausentes. Sem cicatrizes cirúrgicas, cicatriz umbilical protrusa e centrada.
Aparelho locomotor: Ausência de edema ou dores articulares.
Neurológico: Ausência de déficits e sinais de irritação meníngea.
Exames Complementares
Endoscopia Digestiva:
Sinais de Traqueização do esôfago (anéis concêntricos)
Fig. 1


Biópsia: Biópsia esofágica proximal e distal: esofagite crônica moderada com 20 eosinófilos intraepiteliais / cga
Biópsia de estômago e duodeno: ausência de eosinófilos.


pHmetria: 7 (normal)
Pontos de Discussão
- Revisão sobre Esofagite Eosinofílica
- Diagnóstico de Esofagite Eosinofílica
- Método terapêutico da Esofagite Eosinofílica
Discussão
A Esofagite eosinofílica (EoE) é uma doença crônica com sintomas próximos aos da Doença do Refluxo Esofágico (DRGE), com achados histopatológicos de eosinófilos no esôfago tanto proximal quanto distal. A doença pode se apresentar em qualquer idade, ocorrendo em cerca de 80% dos casos nos homens. Seus sintomas se caracterizam por disfunção esofágica e podem ser vistas inflamações esinofílicas histologicamente. A EoE é associada a pHmetria normal, e tem sido considerada a segunda causa de esofagite crônica e causa frequente de disfagia. Esse é o sintoma principal entre adolescentes e adultos, associado ao risco de “trancar a comida”, traduzida com o nome de impactação alimentar do inglês para o português.
O diagnóstico é realizado através dos aspectos clínicos juntamente com os exames complementares, já que a EoE é uma comorbidade clinico patológica da qual o diagnóstico depende de demonstração de contagem de eosinófilos aumentados nas biopsias esofágicas.
Os critérios diagnósticos pleiteados pelo First International Gastrointestinal Eosinophil Research Symposium (FIGERS) são: quadro clínico com disfagia, impactação alimentar, dor torácica, problemas alimentares, vômitos e dor abdominal, sendo que não necessariamente a doença irá se apresentar com todos os sintomas associados. A histopatologia com 15 ou mais eosinófilos/cga (x 400) no epitélio esofágico. Sem DRGE: resposta pobre aos inibidores de prótons em altas doses, ou pHmetria normal. Além do antro e duodeno sem infiltrados eosinofílicos.
Os achados da Endoscopia Digestiva são essenciais para compor a investigação e observar a progressão após o início do tratamento, que pode ser com uso de inibidores da bomba de prótons, corticoides tópicos e a retirada de alimentos que podem causar alergia (dieta de exclusão). Os achados endoscópicos podem ser eritema, friabilidade da mucosa, perda da vascularização normal do esôfago, pregueamento linear vertical, anéis concêntricos e mucosa com aspecto de papel crepom.
Diferenças com DRGE
A EoE e a DRGE são doenças diferentes que muitas vezes respondem a terapêuticas diferentes, mas podem estas associadas. Alguns estudos mostram que existem infiltrados eosinófilos na DRGE contudo de contagem menor que 7 eosinófilos / cga, e geralmente não acomete a porção distal do esôfago.
Diagnósticos diferencias principais
O diagnóstico diferencial principal para EoE é a DRGE, contudo a presença de eosinófilos no antro e no duodeno sinalizam para gastroenterite eosinofílica e enterite eosinofílica.
Objetivos de aprendizagem / competências
É essencial identificar os sintomas associados a EoE e a diferenciar da DRGE, afim de não causar uma subnotificação da doença e direcionar uma melhor conduta terapêutica, já que as duas doenças podem ser confundidas por apresentarem sintomas parecidos e até coexistir.
Pontos importantes
É de extrema importância que seja realizada a biópsia para complementar a suspeita clínica, e realizar cerca de 6 endoscopias digestivas para observar a progressão da doença durante o tratamento. Por isso a endoscopia, além de contribuir com o diagnóstico também é usada em benefício do paciente durante o uso de medicação.
Referências:
- DIAS, E; GUEDES, E; ADAM, M; FERREIRA, C; Esofagite eosinofílica: atualização e contribuição da endoscopia, Boletim Científico de Pediatria, Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul, 2012.
- http://endoscopiaterapeutica.com.b r/casosclinicos/caso-clinicodiagnosticando-corretamente-aesofagite-eosinofilica/. Acesso em 27/10/2016.
- EVAN, S; DELLON, MD; MPH; GONÇALVES, N; HIRANO, I; FURUTA, T; CRHIS, A; DAVID, A; ACG Clinical Guideline: Evidenced Based Approach to the Diagnosis and Management of Esophageal Eosinophilia and Eosinophilic Esophagitis (EoE); Guideline, American College of Gastroenterology, 2013.