Apresentação do caso clínico
Paciente
do sexo masculino, 21 anos, pardo, estudante, natural e procedente de Salvador,
Bahia, procurou serviço de coloproctologia se queixando de dor muito forte em
região sacrococcígea, que iniciou há 1 semana após o paciente percorrer um
longo percurso de bicicleta. A dor foi evoluindo de leve até se tornar a pior
dor que o paciente já sentiu na vida, causando dificuldade de deambulação e
impossibilitando o paciente de se sentar, não apresentando fatores de melhora
ou piora. Há cerca de dois dias, apresentou quadro de febre, responsiva ao uso
de dipirona, somado a um episódio de náusea e vômito, melhorando com o uso de dimenidrinato.
Nega doenças prévias, alergias medicamentosas e histórico familiar para quadro
similar.
Ao exame
físico, o paciente apresentava-se em regular estado geral, lúcido e orientado
em tempo e espaço, afebril, acianótico, anictérico, hidratado, com fáceis de
sofrimento e marcha alterada. Ao analisar a região coccígea, constatou-se a
presença de um cisto hiperemiado, quente e dolorido, com coleção purulenta em
seu centro, de aspecto endurecido. Demais sistemas sem alterações.
O médico
constatou que se tratava de um cisto pilonidal infectado e prescreveu
antibioticoterapia por 5 dias para o paciente, orientando que seria necessária
a drenagem cirúrgica daquele abscesso após o fim do tratamento com
antibióticos. Prescreveu também analgésicos opioides para o paciente.
Após 3
dias da consulta, fazendo uso do tratamento adequado, evoluiu com piora do
quadro álgico, impossibilitando a deambulação e levando o paciente a situação
de prostração. Uma ambulância foi chamada para a administração de analgésicos
endovenosa e o paciente foi levado para a emergência cirúrgica para a drenagem
do abscesso.
No centro
cirúrgico, o paciente foi colocado em decúbito ventral, com posterior
antissepsia e assepsia da região sacrococcígea, e submetido a anestesia local,
em botão, com Lidocaína 5%. Posteriormente foi feita uma incisão no ponto de
maior sensibilidade do abscesso, em forma de cruz, e o conteúdo foi esvaziado
utilizando uma colher estéril. Após esvaziar todo o conteúdo purulento, foi
colocado um dreno laminar, com orientação de removê-lo após o quarto dia de
uso.
Após o
fim do procedimento de drenagem, o paciente evoluiu com melhora imediata do
quadro álgico e febril. Um mês após o procedimento, foi realizada uma cirurgia
para remoção do cisto pilonidal, com a finalidade de evitar recidivas. A
cirurgia foi realizada fazendo uso da técnica de excisão com sutura primária.
No pós-operatório, o paciente evoluiu bem, recebendo alta hospitalar no dia
seguinte.
Questões para orientar
a discussão
- O que um cisto pilonidal
e qual sua fisiopatologia? - Como é feito o
tratamento imediato e definitivo para o cisto pilonidal infectado? - Qual a
antibioticoterapia recomendada e qual suas alternativas? - Quais
diagnósticos diferenciais podem ser feitos com a doença descrita? - Quais os cuidados
que um paciente que teve quadro de cisto pilonidal infectado deve tomar?

Respostas
- O cisto pilonidal é definido como uma inflamação
crônica, localizado na camada subcutânea da pele, em região sacrococcígea,
quase sempre ocupado por pelos soltos, que desencadeiam um processo
inflamatório intenso, com a formação de secreção purulenta, que é exteriorizada
na pele por óstios localizados desde a região posterior anal até o sacro.
Geralmente a primeira manifestação de um cisto pilonidal é a sua infecção, com
formação de abscesso.

Fonte: http://apps.einstein.br/revista/arquivos/PDF/520-Einstein5-2_Online_AO520_pg148-152.pdf
- O tratamento para
a fase aguda da infecção de um cisto pilonidal vai depender ou não da formação
de um abscesso. Caso haja a formação de abscesso, como geralmente ocorre, é
preconizado a antibioticoterapia seguida por drenagem cirúrgica do conteúdo
purulento. Caso não haja formação de abscesso, é necessário apenas a antibioticoterapia
completa, para eliminação dos agentes infecciosos.
A cirurgia é
aceita atualmente como a única forma efetiva de tratamento. Atualmente na
literatura não existem dados científicos que possam garantir qual a melhor
técnica para remoção do cisto. Os mais bem aceitos são ressecção com ou sem
fechamento primário, abertura dos trajetos com curetagem e o método aberto com
eletro cauterização.
- Atualmente a
antibioticoterapia é feita utilizando-se de medicamentos que atinjam tanto
gram-negativos quanto anaeróbios, os mais comuns agentes causadores de
infecções de pele. É preconizado o uso de Ciprofloxacina (1g/dia) e Metronizadol
(1,2g/dia) pelo período mínimo de 1 semana. A clindamicina (1,2g) pode ser
utilizada como alternativa ao Metronidazol com efeito similar.
- O cisto pilonidal pode fazer diagnóstico
diferencial com outras doenças comuns na coloproctologia, como por exemplo, a
hidradenite supurativa, a fístula anal e de afecções congênitas que acometem a
região sacrococcígea.
A hidradenite supurativa é uma doença das glândulas
sudoríparas e apócrinas que atinge, além da região sacrococcígea, a pele de
ambas as nádegas. Diferente do cisto pilonidal que possui apenas um único
orifício primário, na hidradenite temos a presença de inúmeros pequenos
orifícios cutâneos, pelo qual sai conteúdo purulento.
Por outro lado, a fístula anal pode se assemelhar ao
cisto pilonidal pelo fato de apresentar seu trajeto em direção causal, o quadro
de dor e extravasamento de pus semelhante. No entanto, muito raramente se
estende para regiões pós anais. No caso de dúvida, é recomendado uma
retosigmoidoscopia.
Por fim, existem inúmeras afecções em neonatos que
podem se assemelhar ao cisto pilonidal, como por exemplo as fístulas e os
teratomas sacrococcígeos.
- Os traumas na
região sacrococcígea são os principais fatores que predispões a inflamação do
cisto pilonidal. Atividades como andar a cavalo, de bicicleta ou de jipes pode
influenciar bastante no prognóstico da doença. A remoção dos pelos da região
sacrococcígea também é indispensável para que não haja uma penetração de um
folículo piloso na região subcutânea, com consequente inflamação e infecção
deste. Manter-se sentado por muito tempo e utilizar roupas íntimas que não
sejam de algodão devem ser evitadas em pacientes que possuam cisto pilonidal.
