Confira um artigo completo que falamos sobre a Cardiomiopatia Chagásica para esclarecer todas as suas dúvidas. Ao final, confira alguns materiais educativos para complementar ainda mais os seus estudos.
Boa leitura!
A Cardiomiopatia Chagásica
A Doença de Chagas (DC) é uma antropozoonose causada pelo Trypanosoma cruzi (T. cruzi), protozoário flagelado que pode causar doença aguda ou crônica com reativação em função de condições de imunodepressão.
Sua transmissão é relacionada aos vetores, ao agente e aos reservatórios, além de um conjunto de fatores socioeconômicos e culturais. A doença de chagas estende-se do centro-oeste do México até o sul da Argentina e Chile, onde as péssimas condições de habitação favorecem o contato entre o triatomíneo vetor e o homem.
A Cardiomiopatia Chagásica é essencialmente uma miocardiopatia dilatada em que a inflamação crônica provocada pelo T. cruzi, usualmente de baixa intensidade, mas incessante, provoca destruição tissular progressiva e fibrose extensa no coração.
Epidemiologia da Cardiomiopatia Chagásica
A distribuição espacial da Cardiomiopatia Chagásica é limitada primariamente ao continente americano em virtude da distribuição de mais de 140 espécies do inseto vetor (Triatominae, Hemiptera, Reduviidae), daí ser também denominada “tripanossomíase americana”.
Progressivamente, no entanto, a Cardiomiopatia Chagásica tem alcançado países não endêmicos, mediante o deslocamento de pessoas infectadas e por meio de outros mecanismos de transmissão, como resultado do intenso processo de migração internacional.
A OMS estima em aproximadamente 6 a 7 milhões o número de pessoas infectadas em todo o mundo, a maioria na América Latina. Estimativas recentes para 21 países latino-americanos, com base em dados de 2010, indicavam 5.742.167 pessoas infectadas por T. cruzi, das quais 3.581.423 (62,4%) eram residentes em nações da Iniciativa dos Países do Cone Sul, destacando-se a Argentina (1.505.235), o Brasil (1.156.821) e o México (876.458), seguidos da Bolívia (607.186).
Todavia, estes dados divergem de outras estimativas realizadas por diferentes grupos de pesquisa e métodos para definição de infecção por T. cruzi em vários países, o que dificulta o estabelecimento exato da prevalência da doença de chagas nas Américas. Da centena de espécies de triatomíneos potencialmente vetores de T. cruzi, apenas alguns têm capacidade de boa adaptação à vivenda humana, com estreito contato com pessoas e mamíferos domésticos, reservatórios comuns da infecção.
A espécie mais importante na transmissão no Brasil, o Triatoma infestans, encontra-se sob controle após certificação recebida em todo o território nacional em junho de 2006. Na década de 1970, o vetor Triatoma infestans encontrava-se em 711 municípios, distribuídos em 13 estados e a soroprevalência da infecção na população rural brasileira era de 4,2%, para o país como um todo.
A partir dessa época, o controle da doença passou a ser exercido de forma mais sistematizada em âmbito nacional, sofrendo uma intensificação das ações de controle nos últimos anos, levando a um gradativo rompimento da transmissão vetorial por este vetor em todos os estados, culminando, em junho de 2006, com a certificação da interrupção no último estado, a Bahia. Isso, de forma alguma, representa a erradicação da doença, pois surtos isolados em diferentes estados brasileiros e registro de casos agudos esporádicos continuam a ocorrer.
Com o maior controle das formas vetorial e transfusional de transmissão, a forma oral ganhou relativamente maior importância, como visto nos surtos em 2005 em Santa Catarina e Pará, em 2006 no Ceará e Pará, e em 2007 no Pará e Amazonas, entre outros. Na região amazônica, o número de casos agudos vem aumentando, sendo menos de dez em 1968 e quase cem em 2007.
Em grande parte, isso ocorreu por surtos isolados com transmissão, usualmente pela via oral, ou, menos frequentemente, por vetores isolados não domiciliados, ou ainda por exposição de humanos à vetores na selva. Visto esse aumento de casos na região amazônica, um programa específico (AMCHA) foi criado em 2004 para mapeamento e detecção da transmissão da doença.
Formas de transmissão da Cardiomiopatia Chagásica
Na sua forma clássica, a Cardiomiopatia Chagásica é adquirida pelo homem por meio de triatomíneos hematófagos (transmissão vetorial), dos quais se conhecem até hoje mais de 140 espécies. Estes insetos são popularmente conhecidos como barbeiros.
Na doença de chadas têm importância os triatomíneos que vivem no ambiente intradomiciliar. Em inquérito triatomínico feito pelo Ministério da Saúde do Brasil, 17 espécies estavam presentes em domicílios. Cinco foram identificadas como responsáveis por transmissão direta da doença a seres humanos: Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, Triatoma brasiliensis, Triatoma sórdida e Triatoma pseudomaculata.
Algumas espécies adaptaram-se completamente aos domicílios em determinadas regiões e são altamente antropofílicas, como o T. infestans, nos países do Cone Sul da América (responsável por 85% dos casos), e o Rhodnius prolixus e Triatoma dimidiata, em muitos países da América Central. O indivíduo contamina-se por contato de dejeções do inseto infectado com as mucosas ou a pele.
Imagem: Triatomíneo vetor da doença de chagas.

SAIBA MAIS! Considerando o mecanismo natural de infecção pelo T. cruzi, os tripomastigotas metacíclicos eliminados nas fezes e urina do vetor (barbeiro), durante ou logo após o repasto sanguíneo, penetram pelo local da picada e interagem com células fagocitárias da pele ou mucosas. Neste local, ocorre a transformação dos tripomastigotas em amastigotas, que aí se multiplicam por divisão binária simples. A seguir, ocorre a diferenciação dos amastigotas em tripomastigotas, que são liberados da célula hospedeira caindo no interstício.
Estes tripomastigotas caem na corrente circulatória, atingem outras células de qualquer tecido ou órgão para cumprir novo ciclo celular ou são destruídos por mecanismos imunológicos do hospedeiro. Podem ainda ser ingeridos por triatomíneos, onde cumprirão seu ciclo extracelular.
Os triatomíneos vetores se infectam ao ingerir as formas tripomastígotas presentes na corrente circulatória do hospedeiro vertebrado (ser humano, por exemplo) durante o hematofagismo. No estômago do inseto eles se transformam em formas arredondadas e epimastigotas. No intestino médio, os epimastigotas se multiplicam por divisão binária simples, sendo, portanto, responsáveis pela manutenção da infecção no vetor. No reto, porção terminal do tubo digestivo, os epimastigotas se diferenciam em tripomastigotas (infectantes para os vertebrados), sendo eliminados nas fezes ou na urina. Esta é a descrição clássica adotada para o ciclo do T. cruzi no invertebrado.
Posts relacionados
- Cardiomiopatia da Doença de Chagas
- Resumo sobre doença de Chagas (completo)
- Abordagem Imunofarmacológica do Carvedilol na Cardiomiopatia Chagásica Crônica
- Descobertas de Carlos Chagas como Pano de Fundo para a Construção Científica da Cardiopatia Chagásica Crônica
- Preditores clínicos e ecocardiográficos de mortalidade na cardiopatia chagásica
- Variabilidade de Frequência Cardíaca e Cardiopatia Chagásica