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Cannabis na gravidez: quais são os riscos associados?

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O uso de Cannabis na gravidez ocorre em todo o mundo. No entanto, existem diversos desafios para o cuidado de grávidas que fazem uso dessa e de outras substâncias, como a ausência de ferramentas de rastreamento em diferentes culturas e idiomas, obstáculos à revelação do uso de substância pelo paciente e escassez de recursos para tratamento

Além disso, definir o efeito dessas substâncias durante a gestação é um desafio, pois os dados disponíveis são limitados e frequentemente influenciados por diversos fatores, como o uso simultâneo de múltiplas substâncias, desnutrição, condições socioeconômicas desfavoráveis, comorbidades, acesso inadequado ao pré-natal e fatores ambientais.

Epidemiologia da Cannabis na gravidez

A Cannabis é uma das substâncias mais frequentemente consumidas durante a gestação, com taxa de consumo que varia conforme a idade materna, etnia e condição socioeconômica. Estudos apontam que as taxas de uso autorrelatadas oscilam entre 2% e 7%, podendo chegar a aproximadamente 30% entre indivíduos mais jovens, residentes em áreas urbanas e com menor nível socioeconômico.

Além disso, uma pesquisa nos Estados Unidos baseada em relatos individuais mostrou que, entre as gestantes que consumiram Cannabis no último ano, 18% atenderam aos critérios para abuso e/ou dependência da substância conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV (DSM-IV). Ademais, estudos sugerem uma associação entre o uso de Cannabis na gravidez e transtornos como depressão e ansiedade.

No Brasil, por sua vez, os dados sobre o uso de Cannabis pela população em geral são limitados, e não há estudos epidemiológicos específicos sobre a prevalência do uso entre mulheres grávidas. Entretanto, estima-se que, entre as mulheres na faixa etária de 25 a 34 anos aproximadamente 7,1% tenham utilizado Cannabis alguma vez na vida.

Aumento do consumo

O uso de Cannabis entre gestantes tem crescido, provavelmente devido à percepção reduzida de risco, à legalização e às mudanças nas atitudes sociais. Esse crescimento tem sido observado em diferentes grupos raciais, étnicos e etários, ressaltando a necessidade de estratégias universais de educação, triagem e intervenção.

Além disso, o aumento do uso de Cannabis é preocupante, pois cerca de 50% das mulheres que utilizam a substância antes da gestação continua consumindo durante a gravidez. Ademais, há evidências de que a potência da Cannabis tem aumentado.

Esses resultados ressaltam a necessidade de que profissionais da obstetrícia e outros profissionais da área da saúde forneçam informações sobre os riscos potenciais do uso de Cannabis durante a gravidez.

Farmacologia dos canabinóides

A planta de Cannabis contém mais de 400 compostos químicos. Entre esses compostos, os que são reconhecidos por suas propriedades psicoativas e terapêuticas são os canabinoides, enquanto os outros são classificados como compostos não-canabinoides.

O delta-9-tetraidrocanabinol (THC) é o principal canabinoide responsável pelos efeitos psicoativos conhecidos como “eufóricos” que ocorrem após o consumo da Cannabis. No corpo humano, o THC exerce seus efeitos ao interagir com os receptores endocanabinoides CB1 e CB2, atuando principalmente como agonista parcial. Os receptores CB1 são encontrados principalmente no sistema nervoso central, nos pulmões, no fígado e nos rins, enquanto os do tipo CB2 localizam-se no sistema imune e no sistema hematopoiético.

Além do THC, outro fitocanabinoide presente na Cannabis é o canabidiol (CBD). Diferente do THC, o CBD quase não tem efeito psicoativo e é o principal canabinoide estudado pelas suas propriedades terapêuticas. Uma outra diferença é que o CBD não interage diretamente com os receptores CB1 e CB2 e possui afinidade com uma variedade de outros receptores e proteínas.

Além dos canabinoides, a Cannabis contém vários outros compostos, como terpenos, flavonóides e alcaloides. Esses componentes atuam em conjunto com os canabinoides, gerando um efeito conhecido como entourage, que refere-se a um sinergismo entre os dois tipos de substância.

Os canabinoides sintéticos, por sua vez, são compostos com efeitos semelhantes aos dos canabinoides, mas com uma estrutura química diferente dos fitocanabinoides. Embora muitos dos efeitos fisiológicos dos canabinóides sintéticos assemelhem-se à Cannabis, aqueles encontrados em substâncias ilícitas tendem a ser mais intensos ou duradouros (às vezes por dias) e apresentam maior potencial de toxicidade, com risco de vida.

Farmacocinética da Cannabis na gravidez

Os compostos químicos da Cannabis são transmitidos pela placenta para o feto e, além disso, podem ser encontrados no leite materno.

Um estudo realizado entre 2014 e 2017, por exemplo, analisou 54 amostras de leite materno de usuárias de Cannabis e revelou que mais de 60% das amostras continham concentrações detectáveis ​​de delta-9-tetrahidrocanabinol (delta-9-THC) por até seis dias após o último uso relatado de Cannabis.

Triagem para uso de Cannabis na gravidez

Os métodos para avaliação do consumo materno de Cannabis incluem:

  • Autorrelato da paciente, por meio da anamnese ou questionários.
  • Exames laboratoriais, como a análise de urina, sangue do cordão umbilical e mecônio.

Teste de urina

O teste de urina pode detectar tanto o uso recente e esporádico (até dois ou três dias anteriores) quanto o consumo crônico, devido à longa meia-vida da Cannabis. Em usuários crônicos, um resultado positivo pode indicar um novo episódio de uso ou a eliminação contínua de resíduos da substância.

Teste do cordão umbilical e do mecônio

Identifica-se a exposição à Cannabis a partir do segundo trimestre da gestação tanto através do teste do cordão umbilical quanto através do teste do mecônio. Todavia, o teste do cordão umbilical, que analisa a presença do metabólito mais estável, o ácido 11-nor-delta-9-tetrahidrocanabinol-9-carboxílico, é o mais utilizado na prática clínica.

Riscos associados ao consumo de Cannabis na gravidez

Como já mencionado, a avaliação dos efeitos do uso de Cannabis durante a gravidez nos resultados obstétricos é um desafio, devido a dados conflitantes, amostras de estudo limitadas, dependência do autorrelato da paciente, uso de outras substâncias (como tabaco e álcool) e diversos fatores de confusão.

Impactos obstétricos

Alguns estudos associam o uso da Cannabis na gravidez a alguns eventos adversos, todavia a magnitude do impacto desses eventos é menos clara, sendo necessário a realização de mais estudos acerca do tema. Entre os eventos adversos relatados, estão:

  • Aumento do risco de descolamento prematuro da placenta.
  • Hipertensão gestacional.
  • Pré-eclâmpsia.
  • Aumento da resistência vascular placentária.

Impactos neonatais e pediátricos

Evidências sugerem que o consumo de Cannabis na gravidez tem efeitos adversos fetais e neonatais. Por exemplo, grandes estudos populacionais sugerem um risco de parto prematuro espontâneo e restrição de crescimento fetal.

Dessa forma, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) e a Academia de Medicina da Amamentação (ABM) recomendam evitar o uso de Cannabis durante a gestação e a amamentação.

Impactos neonatais

Como já mencionado, o uso de Cannabis durante a gestação resulta na restrição do crescimento fetal, aumentando o risco de recém-nascidos com peso abaixo do esperado para a idade gestacional, especialmente quando há consumo de cigarro concomitantemente. Em um estudo, observou-se também redução da circunferência cefálica em grávidas que fizeram uso de Cannabis.

Além disso, consequências neurológicas também foram observadas em recém-nascidos cujas mães consumiram Cannabis na gravidez, incluindo dificuldades de adaptação à luz e aumento de reflexos de alarme e tremores.

Ademais, um outro estudo identificou alterações no padrão de sono entre recém-nascidos expostos e recém-nascidos não expostos à Cannabis.

Quanto às anomalias congênitas, os dados disponíveis não indicam um aumento significativo em crianças expostas à Cannabis. Entretanto, as evidências são variadas, sendo limitadas por estudos com amostras pequenas de indivíduos e influenciadas por fatores de confusão, como o menor consumo de ácido fólico entre a população estudada. Em contrapartida, uma meta-análise sugeriu aumento no risco de anomalia de Ebstein e gastrosquise em recém-nascidos cujas mães fizeram uso de Cannabis durante a gestação.

Impactos pediátricos

O uso de Cannabis durante a gravidez pode ter efeitos duradouros, com consequências que podem se estender até a infância e adolescência.

Contudo, os estudos acerca do tema são escassos e, por vezes, contraditórios. Fatores confusos, como o uso simultâneo de várias substâncias durante a gestação, além de aspectos socioeconômicos, desempenham um papel importante, influenciando aspectos psicológicos e comportamentais da criança nas primeiras fases da vida.

Na primeira infância, estudos relataram efeitos neurocognitivos negativos associados ao uso de Cannabis durante a gestação, como redução na capacidade verbal, diminuição da atenção, aumento da agressividade e comprometimento no desenvolvimento mental e na memória de curto prazo.

Nas fases posteriores da infância, as crianças expostas à Cannabis apresentaram, além da diminuição da capacidade verbal e da memória, um aumento na impulsividade, hiperatividade e sintomas depressivos.

A partir dos 9 anos, observou-se um desempenho cognitivo prejudicado, especialmente nas funções executivas, com efeitos persistentes na adolescência e na vida adulta.

Por fim, durante a adolescência, foi identificado um aumento nos comportamentos delinquentes e um maior risco de uso precoce de Cannabis entre os adolescentes expostos ao consumo de Cannabis na gestação.

Conclusão

As informações sobre os efeitos do consumo de Cannabis durante a gestação são, em sua maioria, oriundas de estudos observacionais. Além disso, a falta de estudos clínicos controlados devido à aspectos éticos, torna difícil estabelecer uma relação precisa entre a dose e o efeito do consumo de Cannabis na gravidez. Portanto, torna-se necessário a realização de mais estudos sobre o tema.

Em resumo, o uso de Cannabis na gravidez deve ser evitado ou limitado. Nesse contexto, profissionais da área da saúde apresentam um papel importante na divulgação dos efeitos da Cannabis, especialmente para as populações vulneráveis, como as grávidas.

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Sugestão de leitura recomendada

Referências

  • CHANG, G. Substance use during pregnancy: Overview of selected drugs. UpToDate, 2024.
  • CHANG, G.; ROSENTHAL, E. Substance use during pregnancy: Screening and prenatal care. UpToDate, 2024.
  • GORELICK, D. A. Cannabis use and disorder: Epidemiology, pharmacology, comorbidities, and adverse effects. UpToDate, 2024.
  • RIBEIRO, C. D. Consequências do uso de Cannabis na gravidez na progênie: O que se sabe até o momento. São Paulo, 2022.

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