O câncer de cabeça e pescoço representa um grupo heterogêneo de neoplasias malignas que acometem diversas estruturas anatômicas, incluindo a cavidade oral, orofaringe, hipofaringe, laringe, cavidade nasal, seios paranasais, glândulas salivares e a região cervical. A maioria desses tumores tem origem epitelial, sendo classificados como carcinomas espinocelulares (CEC). Ainda que tratáveis quando diagnosticados precocemente, muitos casos apresentam-se em estágios avançados, exigindo abordagens terapêuticas complexas e multimodais.
Epidemiologia do câncer de cabeça e pescoço
O câncer de cabeça e pescoço constitui um dos dez grupos de neoplasias malignas mais prevalentes em todo o mundo. De acordo com estimativas globais recentes, mais de 900 mil novos casos são diagnosticados anualmente, resultando em aproximadamente 400 mil óbitos por ano. No Brasil, os dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam para uma incidência anual superior a 30 mil novos casos, com predominância entre homens a partir da sexta década de vida.
Esse grupo de cânceres engloba tumores que acometem a cavidade oral, faringe (naso, oro e hipofaringe), laringe, fossas nasais, seios paranasais, glândulas salivares e linfonodos cervicais. A grande maioria desses tumores é representada pelo carcinoma espinocelular (CEC), que responde por mais de 90% dos casos.
Vale ressaltar que a incidência do câncer de cabeça e pescoço varia consideravelmente conforme fatores geográficos, culturais e socioeconômicos. Regiões com maior consumo de tabaco e álcool, especialmente em populações com acesso limitado a cuidados de saúde e prevenção, apresentam índices significativamente mais elevados. Em contrapartida, países que implementaram campanhas de vacinação contra o HPV e redução do tabagismo têm observado uma queda na incidência de determinados subtipos, como os tumores de orofaringe.
Fatores de risco para o câncer de cabeça e pescoço
Os principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço são bem estabelecidos na literatura médica, sendo o tabagismo e o etilismo crônico os mais relevantes. O uso prolongado de produtos derivados do tabaco – sejam cigarros, charutos, cachimbos ou tabaco de mascar – está fortemente associado ao aumento do risco de carcinogênese em múltiplos sítios da região cervicofacial. Quando associado ao consumo excessivo de álcool, o efeito é sinérgico, elevando consideravelmente o risco relativo da doença.
Além disso, a infecção pelo papilomavírus humano (HPV), sobretudo os subtipos oncogênicos como o HPV-16, tem ganhado importância crescente como fator etiológico nos carcinomas de orofaringe, especialmente em pacientes mais jovens e não tabagistas. Já os tumores de nasofaringe, mais prevalentes em regiões como o sudeste asiático e norte da África, apresentam forte associação com a infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV).
Outros fatores contribuintes incluem:
- Má higiene oral e presença de traumatismos crônicos da mucosa (por próteses mal adaptadas ou dentes fraturados)
- Exposição ocupacional a substâncias como pó de madeira, formaldeído, asbestos e solventes químicos
- Fatores genéticos e imunológicos, incluindo polimorfismos em genes de reparo do DNA e estados de imunossupressão
Portanto, a identificação precoce desses fatores de risco é crucial para a elaboração de estratégias preventivas, rastreamento de grupos vulneráveis e aconselhamento clínico individualizado, com vistas à redução da incidência e mortalidade associadas à doença.
Quadro clínico e sinais de alerta
As manifestações clínicas do câncer de cabeça e pescoço variam significativamente conforme o sítio anatômico acometido. Ainda assim, alguns sinais e sintomas são comuns a diferentes localizações e, por isso, devem ser prontamente reconhecidos na prática clínica. A identificação precoce desses achados é fundamental, uma vez que o atraso diagnóstico está diretamente associado a pior prognóstico e menores taxas de sobrevida.
Entre os sintomas mais frequentes, destacam-se a disfagia progressiva e a odinofagia persistente, que podem indicar comprometimento da orofaringe, hipofaringe ou laringe. Da mesma forma, a rouquidão que persiste por mais de três semanas deve sempre levantar suspeita de lesões laríngeas, especialmente em indivíduos tabagistas. Além disso, a presença de um nódulo cervical palpável, indolor e de crescimento progressivo é altamente sugestiva de envolvimento linfonodal metastático, sendo um dos principais motivos de encaminhamento ao especialista.
Outro sinal de alerta relevante é a ocorrência de úlceras orais ou lesões mucosas que não cicatrizam em até três semanas, particularmente em pacientes com história de etilismo ou tabagismo. A otalgia referida, quando não associada a alterações otoscópicas, pode indicar tumor de base de língua, tonsila palatina ou parede lateral da faringe. Já a epistaxe recorrente ou obstrução nasal unilateral devem levantar suspeita de tumores nasais ou nasofaríngeos. Em estágios mais avançados, a paralisia de nervos cranianos pode surgir, sinalizando invasão perineural ou comprometimento da base do crânio.mprometer significativamente o prognóstico.
Diagnóstico: como abordar de forma eficiente?
O diagnóstico do câncer de cabeça e pescoço envolve uma abordagem estruturada e multidisciplinar. Primeiramente, é essencial realizar uma anamnese detalhada e exame físico abrangente, com inspeção direta e palpação de todas as estruturas cervicofaciais.
A seguir, são indicadas investigações complementares, incluindo:
Endoscopia
A endoscopia rígida ou flexível (nasofibrolaringoscopia) permite a visualização direta de lesões suspeitas, especialmente na faringe, laringe e cavidade nasal. Ela também orienta a realização de biópsias dirigidas, fundamentais para o diagnóstico histológico definitivo.
Biópsia
A biópsia é imprescindível para confirmar a presença de malignidade e definir o subtipo histológico do tumor. Sempre que possível, deve-se obter uma amostra representativa por via endoscópica ou cirúrgica. Em nódulos cervicais isolados, a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) guiada por ultrassonografia é uma opção eficaz e segura.
Diagnóstico por imagem
A avaliação por imagem tem papel central no estadiamento e planejamento terapêutico. As modalidades mais utilizadas incluem:
- Tomografia computadorizada (TC) de cabeça e pescoço, útil para definir extensão local e comprometimento ósseo
- Ressonância magnética (RM), especialmente indicada para tumores da base de língua, nasofaringe e áreas de difícil acesso
- PET-CT com 18F-FDG, recomendado em casos avançados, recidivados ou quando há suspeita de doença metastática.
Estadiamento: por que é tão importante?
O estadiamento do câncer de cabeça e pescoço segue o sistema TNM da AJCC (American Joint Committee on Cancer), considerando:
- T: Tamanho e extensão do tumor primário
- N: Presença e características de linfonodos cervicais acometidos
- M: Presença de metástases à distância
A partir desses parâmetros, é possível classificar o tumor em estágios de I a IV, o que influencia diretamente na escolha terapêutica e no prognóstico.
Vale destacar que, na prática clínica, trata-se tumores em estágios I e II geralmente com modalidade única (cirurgia ou radioterapia), enquanto os estágios III e IV demandam terapias combinadas.
Abordagem terapêutica: individualização e multidisciplinaridade
Deve-se personalizar o tratamento do câncer de cabeça e pescoço, levando em conta o sítio tumoral, estadiamento, comorbidades do paciente e preferências individuais. Em todos os casos, a discussão em equipe multidisciplinar é indispensável.
Cirurgia
A ressecção cirúrgica continua sendo a principal modalidade terapêutica para muitos tumores localizados. Os avanços em técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia transoral a laser (TLM) bem como a cirurgia robótica transoral (TORS), têm ampliado as possibilidades de tratamento com menor morbidade.
Além da ressecção do tumor primário, pode-se indicar a dissecção cervical (esvaziamento ganglionar) mesmo na ausência de linfonodomegalia clínica, a depender do risco de disseminação linfática.
Radioterapia
A radioterapia pode ser utilizada como tratamento exclusivo em tumores precoces, adjuvante após a cirurgia ou como parte de esquemas combinados. Técnicas modernas, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), permitem maior precisão e menor toxicidade aos tecidos adjacentes.
Quimioterapia
A quimioterapia é frequentemente associada à radioterapia em esquemas de radioquimioterapia concomitante, especialmente nos casos localmente avançados. Agentes como o cisplatina permanecem como padrão terapêutico. Em casos de recidiva ou metástase, esquemas baseados em platina, taxanos e anticorpos monoclonais (como o cetuximabe) podem ser utilizados.
Imunoterapia
Mais recentemente, a imunoterapia tem ganhado espaço, sobretudo em tumores recorrentes ou metastáticos. Além disso, inibidores de checkpoint imunológico, como nivolumabe e pembrolizumabe, demonstraram benefício em pacientes selecionados, representando um novo horizonte no tratamento oncológico.
Seguimento e reabilitação
Após o tratamento inicial, o seguimento clínico rigoroso é essencial para detectar recidivas precoces e manejar eventuais sequelas funcionais. Recomenda-se avaliação periódica a cada 1 a 3 meses no primeiro ano, com intervalos progressivamente maiores nos anos subsequentes.
Além disso, deve-se investir na reabilitação fonoaudiológica, nutricional e psicológica, especialmente em pacientes que sofreram mutilações cirúrgicas ou disfunções respiratórias e deglutitórias. A reabilitação adequada melhora a qualidade de vida e reduz complicações a longo prazo.
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Referências bibliográficas
- RIDGE, John A.; MEHENDALE, Vedant; SHERMAN, Eric J. Overview of treatment for head and neck cancer. UpToDate, WALTHAM (MA): UpToDate Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-treatment-for-head-and-neck-cancer. Acesso em: 25 jun. 2025.
- RIDGE, John A.; MEHENDALE, Vedant; SHERMAN, Eric J. Overview of the diagnosis and staging of head and neck cancer. UpToDate, WALTHAM (MA): UpToDate Inc., 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-the-diagnosis-and-staging-of-head-and-neck-cancer. Acesso em: 25 jun. 2025.