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Mamografia pode prever risco cardiovascular? Entenda a relação com a calcificação arterial mamária

Imagem de mamografia exibida em monitor ao lado de equipamento de mamografia em sala de radiologia.

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A doença cardiovascular ainda é a principal causa de morte em mulheres. A quantificação automática da calcificação arterial mamária (CAM) em mamografias de rotina está associada a desfechos cardiovasculares?

Um estudo recente publicado no European Heart Journal em fevereiro de 2026, demonstrou que é possível agregar novas informações em um exame que já faz parte da rotina da mulher. 

Resumo

Calcificação arterial mamária leve, moderada e grave estavam associadas a um aumento de eventos cardiovasculares em comparação com CAM ausente. Essas associações permaneceram significativas em todos os grupos etários, incluindo mulheres com menos de 50 anos, e foram independentes dos fatores de risco tradicionais e do escore de risco PREVENT.

A doença cardiovascular continua sendo a principal causa de mortalidade entre as mulheres em todo o mundo, responsável por aproximadamente 9 milhões de óbitos por ano, o que corresponde a cerca de 35% de todas as mortes femininas. Apesar disso, o reconhecimento e a estratificação do risco cardiovascular feminino ainda permanecem historicamente abaixo do ideal.

Em contraste, o câncer de mama — o câncer mais comum entre mulheres — é responsável por cerca de 670 mil óbitos por ano. Ou seja, as doenças cardiovasculares continuam sendo responsáveis por um número muito maior de mortes femininas.

No cenário atual, milhões de mulheres realizam mamografia de rotina anualmente, criando uma oportunidade única para o chamado rastreamento oportunístico, no qual é possível extrair informações cardiovasculares a partir de um exame já amplamente utilizado na prevenção oncológica.

O achado de calcificação arterial mamária na mamografia

Apesar de as mulheres apresentarem aproximadamente 13 vezes mais óbitos por doenças cardiovasculares do que por câncer de mama, existe uma grande conscientização populacional sobre a importância da mamografia periódica.

Por outro lado, quando questionadas sobre seus níveis de colesterol LDL, muitas mulheres não sabem informar esse valor.

Nesse contexto, pesquisadores investigaram se a quantificação automatizada da calcificação arterial mamária (CAM) identificada em mamografias poderia predizer eventos cardiovasculares futuros.

A calcificação arterial mamária é um achado relativamente frequente em exames de mamografia e corresponde à calcificação da parede das artérias da mama.

Entretanto, ela possui características diferentes da calcificação da artéria coronária (CAC).

Enquanto a CAC reflete predominantemente alterações ateroscleróticas na camada íntima associadas ao estreitamento luminal, a calcificação arterial mamária ocorre principalmente na camada média da parede arterial, levando ao aumento da rigidez vascular e à redução da pulsatilidade — sem necessariamente provocar obstrução do vaso.

Embora compartilhe alguns fatores de risco com a aterosclerose, como idade avançada e diabetes, a CAM também pode se associar de forma independente ao risco de eventos cardiovasculares.

Historicamente, esse achado sempre foi considerado incidental e sem relevância clínica no contexto do rastreamento do câncer de mama. Entretanto, nas últimas duas décadas, estudos observacionais passaram a sugerir uma associação entre CAM e maior risco de doença cardiovascular, mortalidade e eventos ateroscleróticos.

O desafio da quantificação: o papel da inteligência artificial

O principal desafio sempre foi a quantificação objetiva da CAM, algo difícil de padronizar na prática clínica — lacuna que a inteligência artificial começa a preencher.

O estudo analisou 123.762 mulheres submetidas a mamografia de rastreamento em dois grandes sistemas de saúde norte-americanos.

Os critérios de inclusão envolveram mulheres entre 40 e 79 anos com acompanhamento clínico registrado. Para avaliar a CAM como marcador de risco em exame de rotina, foram excluídas mulheres com doença cardiovascular prévia conhecida, histórico de eventos cardiovasculares maiores (MACE) ou que tivessem realizado escore de cálcio coronariano (CAC) ou angiografia coronária antes da mamografia índice.

Esses critérios rigorosos tiveram como objetivo reduzir a probabilidade de inclusão de mulheres com doença cardiovascular já estabelecida, evitando superestimar artificialmente o valor prognóstico da CAM em uma população assintomática.

Os autores quantificaram automaticamente a área total de calcificação arterial mamária em cada exame.

Figura. Exemplos de quantificação automatizada da calcificação arterial mamária (CAM) em mamografias utilizando algoritmo de inteligência artificial. As imagens à direita demonstram o mapeamento das áreas calcificadas detectadas pelo modelo, permitindo a classificação da CAM em leve, moderada e grave de acordo com a área total de calcificação.

Classificação da calcificação arterial mamária

As pacientes foram classificadas em quatro categorias de acordo com a área de calcificação identificada:

Classificação da CAMÁrea de calcificação arterial mamária
CAM ausente0 mm²
CAM leve0 – 10 mm²
CAM moderada10 – 25 mm²
CAM grave25 mm²

Figura 2: 
Quantificação automatizada da calcificação arterial mamária(CAM) em mamografias de rotina e sua associação com eventos cardiovasculares. O algoritmo de inteligência artificial identifica e segmenta áreas de calcificação arterial nas imagens mamográficas, permitindo calcular a área total de CAM e classificar sua gravidade em ausente, leve, moderada e grave. Observa-se uma relação dose-dependente entre o aumento da área de CAM e a redução da sobrevida livre de eventos cardiovasculares maiores (MACE), incluindo infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e mortalidade por todas as causas.
O seguimento mediano foi de aproximadamente 7 anos, e o desfecho primário avaliado foi MACE, incluindo:
• infarto do miocárdio
• acidente vascular cerebral
• insuficiência cardíaca
• mortalidade por todas as causas

Relação dose–resposta entre CAM e eventos cardiovasculares

A presença de CAM foi relativamente comum. O achado mais relevante foi a existência de uma relação dose–resposta clara entre a quantidade de CAM e o risco de eventos cardiovasculares.

Em comparação com mulheres sem CAM, o risco de eventos aumentou progressivamente:

CategoriaHazard Ratio aproximado
CAM leve~1,3
CAM moderada~1,7
CAM grave ~2,8 – 3,3

Portanto, quanto maior a quantidade de calcificação arterial mamária, maior foi o risco de eventos cardiovasculares ao longo do seguimento.

Associação com fatores de risco cardiometabólicos

O estudo também observou que quanto maior a gravidade da CAM, maior era a prevalência de fatores de risco cardiovasculares tradicionais.

Mulheres com calcificação mais avançada apresentaram:

  • maior prevalência de diabetes mellitus
  • maior uso de anti-hipertensivos
  • maior uso de estatinas
  • pressão arterial sistólica mais elevada
  • maior índice de massa corporal
  • taxa de filtração glomerular estimada mais baixa

Esses achados reforçam a associação entre calcificação arterial mamária e um perfil cardiometabólico de maior risco.

Calcificação arterial mamária como marcador independente de risco cardiovascular

Além disso, a CAM manteve valor prognóstico independente, mesmo após ajuste para fatores de risco tradicionais e para o escore PREVENT, sugerindo que esse marcador pode fornecer informação adicional na estratificação de risco cardiovascular em mulheres!

Rastreamento cardiovascular oportunístico com mamografia

Nesse contexto, a quantificação automatizada da calcificação arterial mamária por inteligência artificial em mamografias de rotina surge como uma estratégia promissora de rastreamento cardiovascular em larga escala.

Essa abordagem apresenta algumas vantagens importantes:

  • utiliza um exame já amplamente realizado
  • não exige exposição adicional à radiação
  • não aumenta significativamente os custos diagnósticos

Além disso, pode ser especialmente útil em mulheres mais jovens, nas quais os escores tradicionais frequentemente subestimam o risco cardiovascular devido ao peso da idade nos modelos preditivos.

Nessa população, a presença de CAM pode funcionar como um marcador precoce de envelhecimento vascular.

Limitações e questões ainda em aberto

Apesar dos resultados promissores, algumas limitações precisam ser consideradas.

O estudo possui desenho observacional retrospectivo, o que permite identificar associação prognóstica, mas não estabelecer relação causal.

Além disso, a calcificação arterial mamária não é equivalente ao escore de cálcio coronariano e não deve ser interpretada como evidência direta de aterosclerose coronariana obstrutiva.

Outro ponto importante é que ainda não existe consenso sobre a conduta clínica após a identificação de CAM significativa.

Algumas perguntas permanecem em aberto:

  • Deve-se recalcular o risco cardiovascular global?
  • A presença de CAM moderada ou grave deveria indicar investigação adicional, como escore de cálcio coronariano?
  • Em quais situações estaria indicado encaminhamento para avaliação cardiológica?

Essas questões provavelmente serão respondidas apenas por estudos prospectivos e ensaios clínicos futuros.

Implicações para saúde pública

Apesar dessas incertezas, o conceito por trás desse trabalho é particularmente relevante do ponto de vista de saúde pública.

Estima-se que cerca de dois terços das mulheres entre 50 e 69 anos na União Europeia realizam mamografia a cada dois anos.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 70% das mulheres com 45 anos ou mais realizam rastreamento mamográfico, conforme recomendações da American Cancer Society.

Em contraste, menos de 40% das mulheres relatam conhecer seus níveis de colesterol.

Nesse cenário, aproveitar a mamografia — um exame já amplamente incorporado aos programas de rastreamento — para identificar mulheres com maior risco cardiovascular pode representar uma estratégia importante de prevenção integrada.

Conclusão: uma nova fronteira da prevenção cardiovascular

Assim, a calcificação arterial mamária identificada por inteligência artificial em mamografias de rotina surge como um potencial biomarcador de risco cardiovascular em mulheres.

Embora ainda não constitua uma ferramenta diagnóstica para doença coronariana, pode ampliar a capacidade de estratificação precoce de risco em uma população frequentemente subavaliada do ponto de vista cardiovascular.

Se confirmada por estudos prospectivos, essa abordagem poderá transformar a mamografia em uma ferramenta dupla de prevenção — oncológica e cardiovascular. Aguardemos os próximos estudos sobre esse tema que aparenta ser muito promissor, feliz dia das mulheres à todas que leram esse artigo.

Referências

DAPAMEDE, Theodorus et al. Artificial intelligence–based quantification of breast arterial calcifications to predict cardiovascular morbidity and mortality. European Heart Journal, Oxford, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehag128








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