Sabemos
das dificuldades dos fatores estressores intrínsecos ao trabalho do médico, como
as condições de trabalho, a falta de reconhecimento, afinal, isso já está muito
bem definido. Pesquisa recente divulgada
pelo Conselho Federal de Medicina revelou que mais da metade dos médicos no
Brasil apresenta distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e depressão, além de
estafa. Também apontou que 5% dos médicos se sentem sem esperança, infelizes e apresentando
pensamentos suicidas. No entanto, um assunto pouco ainda discutido e quase
nunca abordado na faculdade de medicina é a baixa qualidade de vida e até mesmo
a Síndrome de Burnout no estudante de medicina.
A Síndrome de Burnout ocorre devido a
exposições crônicas a agentes estressores na qual a pessoa não dispõe de
mecanismos de enfrentamentos suficientes para confrontar tais agentes e, assim,
acaba por desenvolver a síndrome constituída pelas dimensões: exaustão
emocional, despersonalização e baixa realização profissional.
No
caso da medicina, as atividades estudantis podem ser tidas como pré-profissionais,
pois estamos inseridos em uma estrutura organizacional com obrigatoriedade de
desenvolver atividades específicas, como estudar e confrontar-se com aulas
práticas, estágios e atividades avaliativas, além de lidar com o ambiente
acadêmico altamente competitivo, gerador de conflitos e de estresse.
Nos
poucos estudos que temos sobre esse assunto, ficou muito bem claro que o nível
de estresse e ansiedade cresce ao longo do curso, ficando mais evidente no
terceiro ano em diante. A fase do internato tem altíssimos índices de ansiedade
e desesperança, pois os estudantes são expostos a doenças graves, perda de
pacientes que se tornam queridos e ainda devem lidar com o bullying médico,
em que alguns profissionais acreditam na necessidade de praticar bullying contra
seus alunos para que eles aprendam.
Fato é
que pesquisas recentes, como “O
impacto da grosseria na performance da equipe médica”, demonstram que a iatrogênese
geralmente resulta de deficiências de desempenho entre os membros da equipe
médica. A grosseria direcionada à equipe pode estar subjacente a essas
deficiências de desempenho, com indivíduos expostos a comportamentos rudes
sendo menos úteis e cooperativos. Avaliou-se que o impacto da grosseria no
tratamento do doente tem como resultado o fato de que a grosseria não apenas prejudica o
desempenho diagnóstico e processual dos médicos, mas também afeta negativamente
os processos colaborativos que, de outra forma, permitiriam às equipes
compensar esses efeitos. Ou seja, afeta a todos.
As
conseqüências para a saúde dos estudantes, com toda essa pressão para aprender,
grande quantidade de novas informações, falta de tempo para atividades sociais,
contato com doenças graves e com a morte no cuidado clínico dos pacientes, podem
culminar no aparecimento de sintomas depressivos, chegando até mesmo a ao desenvolvimento de Burnout.
Enfatizando que estes ainda passam por diversos tipos de abuso (verbal,
institucional, por risco médico desnecessário, físico e sexual) que podem
agravar seu estresse.
O
resultado de todo esse estresse é a alta prevalência de depressão, suicídio,
uso de drogas, problemas conjugais e disfunções profissionais nos estudantes de
medicina, e tudo isso também pode prejudicar o cuidado do paciente. Novos
estudos sobre esse assunto são necessários no Brasil, pois aqui é um tema
pouquíssimo desenvolvido e pouquíssimo abordado, mas de grande importância, afinal,
quem cuida também precisa de cuidados.