Segundo dados oficiais do Ministério da Educação, mais de 21 mil vagas de residência médica não foram preenchidas em 2025. As especialidades mais afetadas são justamente as mais estratégicas para o SUS — como Medicina de Família, Clínica Médica e Pediatria.
Um retrato preocupante da formação médica no Brasil
O Painel da Educação da Saúde do MEC revelou um dado alarmante: em junho de 2025, o Brasil contava com 75.471 vagas de residência médica autorizadas, mas apenas 54.402 foram ocupadas.
Isso significa que mais de 21 mil vagas ficaram ociosas, uma taxa de 27,9% de não preenchimento — praticamente 3 em cada 10 vagas de residência médica sem residentes.
O fenômeno é nacional e afeta todas as regiões do país, com destaque para os estados que lideram o ranking da ociosidade:
- Mato Grosso (40,7%)
- Espírito Santo (38,7%)
- Paraná (35,2%)
- Roraima (34,2%)
- Bahia (33,3%)
Por outro lado, os estados com melhor desempenho no preenchimento das vagas foram Amapá (12,3%), Paraíba (14,2%) e Distrito Federal (16,1%).
Além disso, mesmo em estados de forte tradição médica, como São Paulo (28%) e Rio de Janeiro (25%), milhares de vagas ficaram sem ocupação — sinal de que o problema é estrutural e não regional.
Especialidades com mais e menos procura
A análise por especialidade expõe um contraste claro entre áreas superconcorridas e áreas abandonadas.
Entre as especialidades com menor taxa de preenchimento, estão:
- Patologia Clínica / Medicina Laboratorial — 72,7% de ociosidade
- Radioterapia — 66%
- Medicina do Tráfego — 64%
- Medicina Nuclear — 61%
- Medicina Preventiva e Social — 57%
- Medicina de Família e Comunidade (MFC) — 55,7%
Essas são, justamente, áreas essenciais para o SUS e para a Atenção Primária, mas que enfrentam baixa atratividade entre jovens médicos.
No extremo oposto, especialidades de alta concorrência seguem com ocupação quase total:
- Cirurgia Geral, Clínica Médica e Dermatologia superaram 80% de preenchimento;
- Subespecialidades como Medicina Fetal, Reprodução Assistida, Gastroenterologia e Geriatria chegaram a 90–100% de ocupação;
Áreas como Atendimento ao Queimado, Foniatria e Nutrição Parenteral e Enteral tiveram 100% de preenchimento.
Onde as vagas sobram: o perfil das residências ociosas
A ociosidade é mais comum em instituições públicas de menor porte, muitas vezes fora dos grandes centros urbanos. Hospitais regionais, municipais e do interior enfrentam dificuldades para atrair residentes por falta de:
- Estrutura física adequada;
- Preceptores qualificados;
- Volume de casos suficiente para aprendizado.
Além disso, muitas vagas são autorizadas mas não ofertadas efetivamente, por falta de financiamento, bolsas ou infraestrutura. Além disso, segundo a CNRM, se uma instituição deixa de ofertar uma vaga por dois anos, ela pode ser suspensa, o que já vem acontecendo em alguns estados.
O resultado é paradoxal: há vagas sobrando em locais carentes de médicos, enquanto sobram médicos nas capitais.
O impacto no SUS e na distribuição de médicos
O efeito mais grave da ociosidade é sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).
A cada ano, milhares de especialistas deixam de ser formados, o que compromete a reposição de profissionais em áreas críticas como:
- Pediatria (1.593 vagas ociosas em 2025);
- Clínica Médica;
- Medicina de Família e Comunidade (quase 3 mil vagas sem preenchimento).
Assim, essas áreas são a base do cuidado primário e hospitalar, e a falta de residentes nelas fragiliza a atenção básica — especialmente em regiões vulneráveis.
Além disso, a má distribuição geográfica de médicos se agrava: os profissionais continuam se concentrando no Sudeste (58,5% dos residentes), enquanto o Norte e o interior do país têm vagas abertas sem interessados.
Dinheiro e desinteresse: por que as vagas ficam vazias?
Entre os fatores que explicam a alta ociosidade estão:
- Bolsa de residência baixa (R$ 4.106,09 em 2025), muito inferior à renda possível em plantões privados;
- Condições de trabalho precárias em alguns programas;
- Falta de perspectiva de carreira na atenção básica;
- Aumento da oferta de vagas sem aumento proporcional no número de interessados.
Dessa forma, na prática, muitos recém-formados preferem começar a trabalhar como generalistas, em vez de passar anos em formação com bolsa insuficiente.
Ociosidade é estrutural — e o desafio é repensar o modelo
A taxa de ociosidade da residência médica se mantém estável há anos, girando entre 25% e 30% desde 2020, mesmo com a expansão das vagas. Ou seja: não faltam vagas, faltam incentivos e planejamento.
Iniciativas como o Enare (Exame Nacional de Residência) melhoraram o acesso unificado, mas não resolveram o problema central: a residência médica ainda é pouco atraente para quem precisa de estabilidade e retorno financeiro rápido.
Especialistas defendem que é preciso:
- Revalorizar o papel do residente,
- Aumentar as bolsas,
- Fortalecer a preceptoria e melhorar a infraestrutura de ensino nos hospitais regionais.
Conclusão: um problema de distribuição e prioridade
O Brasil forma milhares de médicos por ano — mas não forma especialistas na mesma proporção.
A ociosidade das residências revela uma desconexão entre a política de formação e as reais condições de trabalho.
Enquanto faltam pediatras, clínicos e médicos de família nas UBS, sobram vagas abertas em hospitais públicos que não conseguem atrair residentes.
Resolver esse gargalo não é apenas uma questão de gestão educacional. É uma urgência de saúde pública — e talvez o maior desafio para o futuro do SUS.

