O bicarbonato de sódio, é conhecido quimicamente como NaHCO₃, um sal que desempenha um papel fundamental na manutenção do equilíbrio ácido-base no corpo humano.
A prática médica utiliza o bicarbonato de sódio de diversas maneiras, desde o tratamento de condições benignas, como a indigestão ácida, até intervenções críticas em situações de acidose metabólica grave.
Assim, os médicos consideram o bicarbonato um recurso essencial na prática clínica devido à sua acessibilidade e eficácia, especialmente na atenção primária à saúde, onde o manejo de condições crônicas e agudas frequentemente exige uma abordagem cuidadosa do equilíbrio ácido-base.
Além disso, utiliza-se o bicarbonato para corrigir desequilíbrios sistêmicos quando o pH do sangue se torna perigosamente ácido, como em casos de insuficiência renal crônica ou cetoacidose diabética grave.
Por ter um impacto significativo no estado clínico do paciente, o uso do bicarbonato deve ser bem fundamentado e rigorosamente monitorado. Portanto, exige avaliação contínua e acompanhamento para garantir resultados positivos.
Fisiologia do bicarbonato
O bicarbonato é um componente do sistema tampão bicarbonato-ácido carbônico, um dos principais mecanismos do corpo para manter o pH sanguíneo dentro da faixa de normalidade, que é ligeiramente alcalina, variando entre 7,35 e 7,45.
Assim, este sistema tampão atua neutralizando ácidos fortes, convertendo-os em formas mais fracas, como o ácido carbônico (H₂CO₃). O corpo rapidamente converte o ácido carbônico em água (H₂O) e dióxido de carbono (CO₂), e os pulmões eliminam o dióxido de carbono. Portanto, essa dinâmica torna o bicarbonato crucial na homeostase do pH, especialmente em situações onde o corpo enfrenta uma sobrecarga de ácidos.
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Em condições normais, os rins desempenham um papel fundamental na regulação do bicarbonato. Eles filtram o bicarbonato do sangue, reabsorvendo-o conforme necessário para manter o equilíbrio ácido-base. Quando o pH do sangue cai, indicando acidose, os rins aumentam a reabsorção de bicarbonato e excretam íons de hidrogênio (H+), ajudando a neutralizar a acidez. Entretanto, em condições patológicas como a insuficiência renal, há o prejuízo nesta regulação, o que resulta em acidose metabólica. Nessas situações, a administração exógena de bicarbonato pode ser necessária para corrigir o desequilíbrio.
No entanto, é importante notar que a administração de bicarbonato de sódio deve ser criteriosa. Uma correção excessiva pode levar à alcalose metabólica, uma condição na qual o pH do sangue se torna excessivamente alcalino. A alcalose pode causar uma série de complicações, incluindo a hipocalcemia, que se manifesta por sintomas neuromusculares como tetania e convulsões. Além disso, a alcalose pode reduzir a disponibilidade de oxigênio para os tecidos, agravando o quadro clínico do paciente.
Indicações de uso do bicarbonato
Acidose metabólica
Na prática clínica, o bicarbonato de sódio é indicado principalmente no tratamento de acidose metabólica grave, condição na qual o pH do sangue cai abaixo 7.2 devido a um acúmulo excessivo de ácidos e o paciente possui Lesão Renal Aguda em estágio II ou III.
A acidose metabólica pode ocorrer em uma variedade de situações clínicas, sendo mais comum em pacientes com insuficiência renal crônica, cetoacidose diabética, intoxicação por substâncias como metanol ou etilenoglicol. Bem como, em casos de diarreia crônica, onde há uma perda significativa de bicarbonato através do trato gastrointestinal.
Cetoacidose diabética
Na cetoacidose diabética, por exemplo, o corpo acumula corpos cetônicos ácidos devido à falta de insulina, resultando em acidose metabólica. O manejo principal da cetoacidose diabética é administração de insulina e volume.
A administração de bicarbonato pode ajudar a neutralizar a acidez e a estabilizar o paciente. Contudo, o uso de bicarbonato de sódio é recomendado apenas em situação de cetoacidose grave para pacientes adultos que apresentam acidose com pH inferior a 6,9. Quando indicado, a dose sugerida para adultos é de 50 a 100 mmol, diluída em 200 a 400 mL de solução isotônica, visando minimizar o risco de hipocontratilidade cardíaca e arritmias.
Parada cardiorrespiratória
O bicarbonato de sódio também é utilizado em emergências médicas, como durante a reanimação cardiopulmonar (RCP) prolongada. Assim, durante a RCP, a acidose metabólica pode se desenvolver rapidamente devido à hipoperfusão dos tecidos e à produção de ácido láctico.
Nesses casos, o bicarbonato pode ser administrado para corrigir a acidose e melhorar a eficácia das manobras de reanimação. Contudo, não recomenda-se o uso rotineiro de bicarbonato em paradas cardíacas, exceto em circunstâncias específicas, como casos de hiperpotassemia ou acidose metabólica pré-existente.
Intoxicação por drogas
Outra indicação relevante é o uso de bicarbonato para alcalinizar a urina em casos de intoxicação por drogas, como a aspirina (ácido acetilsalicílico) e o fenobarbital. Assim, a alcalinização da urina aumenta a excreção desses medicamentos, reduzindo sua toxicidade e acelerando a recuperação do paciente.
Hiperpotassemia grave
Utiliza-se o bicarbonato no manejo da hiperpotassemia grave, condição potencialmente fatal caracterizada por níveis elevados de potássio no sangue. A administração de bicarbonato pode ajudar a deslocar o potássio para dentro das células, diminuindo assim os níveis plasmáticos de potássio e reduzindo o risco de arritmias fatais.
Como prescrever bicarbonato
A prescrição de bicarbonato de sódio deve ser baseada em uma avaliação cuidadosa do estado ácido-base do paciente, que geralmente é determinada por meio de uma gasometria arterial. Portanto, este exame fornece informações críticas sobre o pH sanguíneo, a pressão parcial de dióxido de carbono (pCO2), e o nível de bicarbonato (HCO3-) no sangue, permitindo uma avaliação precisa da necessidade de intervenção.
A dosagem do bicarbonato é calculada com base no déficit de bicarbonato, que pode ser estimado utilizando a seguinte fórmula:
HCO3- (mEq) = 0,5 x peso corporal (kg) x [24 – HCO3- sérico (mEq/L)]
ou alternativamente,
HCO3- (mEq) = 0,5 x peso corporal (kg) x [aumento desejado nos níveis de HCO3- sérico (mEq/L)].
Nesta fórmula:
- O espaço extracelular é aproximadamente 0,2 L/kg,
- O peso do paciente deve ser em quilogramas,
- A diferença de bicarbonato é a diferença entre o nível desejado de bicarbonato (geralmente 24 mEq/L) e o nível atual do paciente.
Administração:
- Administra-se inicialmente metade da dose calculada.
- Administra-se a outra metade ao longo das próximas 24 horas, com monitoramento contínuo do paciente para ajustar a dosagem conforme necessário.
Uma vez calculada a dose necessária, deve-se administrar o bicarbonato lentamente, geralmente por via intravenosa, em uma solução diluída. Assim, a infusão deve ser cuidadosamente monitorada para evitar a rápida correção do pH, o que pode resultar em alcalose metabólica. Além disso, é essencial monitorar os eletrólitos séricos, especialmente os níveis de potássio e cálcio, durante a administração de bicarbonato.
Em pacientes com acidose metabólica leve a moderada, os médicos podem administrar bicarbonato por via oral. No entanto, como a absorção do bicarbonato oral é menos previsível, deve-se monitorar os pacientes para detectar sintomas de alcalose metabólica ou distúrbios eletrolíticos.
Em situações de acidose metabólica severa, onde a vida do paciente está em risco imediato, a administração intravenosa rápida pode ser necessária. Contudo, mesmo nesses casos, é crucial monitorar o paciente de perto para ajustar a dosagem conforme necessário e evitar complicações.
Efeitos colaterais do uso de bicarbonato
Embora o bicarbonato de sódio seja uma ferramenta terapêutica valiosa, seu uso não está isento de riscos. O principal risco é o desenvolvimento de alcalose metabólica, que pode ocorrer ao administrarem bicarbonato em excesso.
A alcalose metabólica não apenas perturba o equilíbrio ácido-base, mas também pode levar a complicações como hipocalcemia e hipopotassemia, ambas com potenciais consequências graves para o paciente.
A hipocalcemia, que é a redução dos níveis de cálcio ionizado no sangue, pode causar uma variedade de sintomas, incluindo espasmos musculares, tetania e até mesmo convulsões. Isso ocorre porque o bicarbonato aumenta a ligação do cálcio aos ácidos, diminuindo assim a fração de cálcio ionizado que está disponível para funções fisiológicas normais.
Além disso, o uso excessivo pode resultar em sobrecarga de sódio, especialmente em pacientes com função renal comprometida ou insuficiência cardíaca. A hipernatremia, ou seja, o excesso de sódio no sangue, pode levar a um aumento do volume intravascular, exacerbando condições como a hipertensão arterial e a insuficiência cardíaca congestiva.
Portanto, em pacientes com risco de sobrecarga de volume, como aqueles com insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, os médicos devem administrar o bicarbonato com extrema cautela e monitorar rigorosamente os níveis de sódio.
Outro efeito colateral importante é a hipopotassemia, que pode ocorrer como resultado da administração de bicarbonato. Assim, a alcalinização do sangue promove a entrada de potássio nas células, diminuindo a concentração de potássio no plasma.
A hipopotassemia pode causar arritmias cardíacas, fraqueza muscular e, em casos graves, paralisia respiratória. Portanto, o monitoramento dos níveis de potássio é essencial durante o tratamento com bicarbonato, especialmente em pacientes com risco de distúrbios eletrolíticos.
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O uso do bicarbonato de sódio na prática médica representa um dos grandes desafios terapêuticos do século XXI, devido à sua aplicação em condições críticas e seu potencial impacto em situações de desequilíbrio ácido-base. Assim, utiliza-se o bicarbonato para tratar diversas condições, como acidose metabólica severa, insuficiência renal crônica e cetoacidose diabética, entre outras.
Como médicos, compreender a complexidade da administração de bicarbonato e as melhores práticas para seu uso é fundamental para garantir um atendimento de qualidade e fazer a diferença na recuperação e bem-estar de seus pacientes.

Sugestão de leitura complementar
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Referências bibliográficas
- Pontes, B. Filho, L. ACIDOSE METABÓLICA. Sociedade Brasileira de Nefrologia (2021).
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- Luft, F. C. (2015). “Lactic Acidosis Update for Critical Care Clinicians”. Journal of the American Society of Nephrology, 26(3), 654-661.