Em um cenário nacional de saúde onde há um aumento da prevalência de doenças crônicas sobre as agudas, tem-se evidenciado a necessidade de uma equipe multiprofissional para o manejo de tais moléstias. Essa equipe é composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes sociais e, quando se trata da Estratégia Saúde da Família (ESF), os agentes comunitários de saúde (ACS), entre outras profissões que forem julgadas necessárias para aquela abordagem em específico.
Uma boa parte dos pacientes quando vão em busca dos serviços de saúde, estão vivenciando um dos momentos de maior fragilidade e medo, então é imprescindível que esse serviço seja prestado da melhor forma possível e com uma margem de erros praticamente nula.
Uma relação multiprofissional garante a esses pacientes um olhar diversificado sobre uma mesma situação, afim de buscar uma solução que se enquadre no contexto sociocultural em que aqueles indivíduos estão inseridos.
A Estratégia Saúde da Família, neste contexto, se configurou como uma iniciativa inovadora no campo sanitário internacional. Diferente de outros países que também basearam seus sistemas na Atenção Primária à Saúde, a ESF pressupõe o trabalho multiprofissional e em equipe (Campos, Cherchiglia, Aguiar, 2002).
Esse trabalho multiprofissional proposto pela ESF tornou-se uma das principais formas de intervenção, em que as ações e práticas realizadas, nesse tipo de trabalho em saúde em específico, podem ser ampliadas além do âmbito individual e clínico.
A atuação conjunta entre os diferentes membros da equipe da ESF, com destaque aos agentes comunitários em saúde, possibilita o desenvolvimento dessas atividades extramuros para um maior entendimento da realidade em que aquele paciente está inserido, uma vez que diversas patologias, principalmente as crônicas como hipertensão e diabetes, estão associadas aos hábitos de vida do paciente em questão.
Isso justifica a capacidade da Atenção Primária à Saúde (APS), apresentada em diversos estudos, em resolver 80% dos problemas de saúde de uma população adscrita, sem que haja necessidade de referenciação para um serviço especializado de maior densidade tecnológica.
Os benefícios dessa articulação são refletidos nos pacientes quando esse tem um acompanhamento longitudinal em diversas áreas do cuidado para enfrentar a injúria que o acomete, como, por exemplo, um acompanhamento nutricional e médico para pacientes hipertensos, ou o acompanhamento de um psicólogo para pacientes com algum comprometimento dos processos mentais, seja primário ou secundário, em alguma situação desagradável.
Outro ponto favorecido por uma interação multiprofissional é o cuidado paliativo. Tal assistência é um processo de abordagem complexa que visa atender as dimensões do paciente a ser cuidado e de sua família. Por isso, um olhar diversificado e ampliado por diversas áreas profissionais é necessário para garantir o maior conforto possível a esses indivíduos, a partir da adoção de uma postura reflexiva em relação às práticas de cuidado.
A atuação dessa equipe multiprofissional é fundamental para atenuar o sofrimento do paciente, que irá se projetar tanto em um campo físico, por meio de dor, desconforto e fadiga, quanto psicológico através de angústia, ansiedade e até mesmo depressão, que pode também acometer os familiares.
Vale lembrar também, que esses benefícios de atuação multiprofissional, tanto nas situações situadas quanto em outras existentes, são amplificados quando a equipe se inter-relaciona de forma harmônica e com articulação dos saberes, evitando ao máximo conflitos internos e especificidade de diferentes trabalhos que levem a um déficit no desempenho dos profissionais para com o paciente.
Para exemplificar a necessidade de uma relação multiprofissional em benefício do paciente, é válido citar uma situação fictícia apresentada na série brasileira “Unidade Básica”, em que um Agente Comunitário de Saúde, durante a etapa de territorialização e visita domiciliar em sua área, se depara com um curioso caso de uma família, composta por um casal e dois filhos, que vive em condições precárias, armazenando diversos produtos antigos, e estão em meio a algum tipo de ritual, segundo o relato do ACS.
Tal caso chama ainda mais a atenção quando durante a reunião de equipe a enfermeira relata que a filha do casal, com 7 anos de idade, foi levada pelo irmão, de 13 anos de idade, ao atendimento no pronto-socorro com febre de 40° e sinais de subnutrição. Para averiguar a situação, um dos médicos, em companhia do ACS, decidiu realizar uma visita domiciliar.
A mãe das crianças, que também estava grávida, durante a conversa, pediu para que o ACS desligasse o celular para evitar a entrada de “ondas do controle da mente” no local, e quando questionada sobre a ferida na perna do filho, ela responde que já fez o uso de determinados produtos naturais e que não era preciso levá-lo na Unidade, e nega também atendimento à filha alegando que está bem sobre os cuidados da própria família.
Observando a resistência da família em aceitar o atendimento, o médico convida-os para uma reunião na Unidade e ao chegarem no local, os pais se espantam com as tecnologias presentes, como televisão e câmeras de segurança e vão embora.
Para prestar o melhor atendimento em tal caso, o médico adapta as condições de atendimento, em parceria com os membros da Equipe de Saúde da Família, com o aconselhamento também psiquiátrico para medicação correta do pai das crianças, vacinação das crianças, cuidados pré-natais da mãe grávida e também entra em contato com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para acompanhar a família.
Neste exemplo pode-se evidenciar a importância dessa relação integrativa entre diferentes profissionais e serviços de saúde para a resolução de moléstias que acometem o paciente e sua família.
Autor: Rhyan Coelho, Estudante de Medicina