Em estudos recentes, foi descoberto que pacientes com COVID-19 exibem grandes aumentos nas atividades de autoanticorpos. Foi estabelecido que esses autoanticorpos perturbam a função imunológica e prejudicam o controle virológico, inibindo a sinalização de imunorreceptores e alterando a composição de células imunológicas periféricas. Assim, exacerbando a gravidade da SARS-CoV-2.
No Geral, os dados indicam que além da possível citopatia direta de múltiplos órgãos induzida pelo vírus, existem os anticorpos autorreativos possivelmente patogênicos, mecanismos de autorreatividade podem ser a raiz do cenário patológico que acompanha a infecção por SARS-CoV-2. Pesquisas anteriores com foco em SARS-CoV, que do mesmo jeito do SARS-CoV-2, causa uma síndrome de insuficiência respiratória, demonstrou que a proteína IgG anti-spike poderia causar dano pulmonar ao afetar diretamente mecanismos inflamatórios.
Autoimunidade à Anexina A2
A Anexina A2 é uma proteína de ligação a fosfolipídios que envolve a fibrinólise, estabilizando, reparando a membrana celular e garantindo a integralidade da microvasculatura pulmonar.
Anticorpos anti-Anexina A2
Em um estudo que utilizou autoanticorpos IgG que faziam o reconhecimento da Anexina A2 e A5 entre 86 pacientes hospitalizados por COVID-19 no NYU Langone Health, usando a regressão logística, foi analisado e associado os níveis de anticorpos anti-Anexia A2 com a mortalidade após o ajuste para idade, sexo, raça e comorbidades principais.
Nos casos, foram encontrados níveis elevados de anticorpos anti-Anexina A2 entre os pacientes com COVID-19 hospitalizados que morreram comparado aos pacientes com COVID-19 hospitalizados não graves. Sabe-se que a inibição da Anexina A2 é responsável por induzir a trombose sistêmica, morte celular e edema pulmonar não cardiogênico. Sendo assim, pode ser que os níveis de Anexina A2 possam prever a mortalidade nos casos de COVID-19, sendo o seu mecanismo uma potencial forma de explicar os principais achados clínicos de COVID-19 grave.
Autoimunidade a IgA e IgG
O COVID-19 normalmente acarreta complicações que apresentam semelhanças com doenças autoimunes. Até agora, há poucos dados sobre possíveis respostas autoimunes mediadas por imunoglobulina (Ig).
Em um estudo de coorte retrospectivo, achados clínicos e a aPL de 64 pacientes com COVID-19 foram comparados a partir de 3 hospitais terciários independentes, 1 em Liechtenstein e 2 na Suíça. Resultando numa elevação notória do IgA total que foi significativamente associada com o COVID-19 grave. Em contrapartida, diferente do SARS-CoV, não foi observada nenhuma associação significativa com o IgG total no SARS-CoV-2.
Resposta imune induzida por IgA
Essa resposta imune, possivelmente emerge do tecido linfoide associados aos brônquios quando o SARS-CoV-2 afeta o trato respiratório profundo. A trombose, também pode ser explicada por uma elevação dos anticorpos IgA total e aPL IgA, que foi descoberto estar significativamente associado a doença grave.
Por mais que a associação de aPL elevado e a COVID-19 grave tenha sido sugerida, a elevação de IgA total junto com IgA-aPL ao comparar COVID-19 leve e grave é possivelmente o elo perdido entre a resposta imune e a hipercoagulação, uma vez que sugere uma forte indução da síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (SAAF).
Infecção como gatilho para SAAF
Outra forma de gatilho para a SAAF é a infecção, incluindo a pneumonia, que leva à autoimunidade por meio de mimetismo molecular. No caso do COVID-19, esse mecanismo pode ser mediado pelo surfactante pulmonar, por ser rico em proteínas ligantes de fosfolipídios. Esse surfactante é produzido por pneumócitos do tipo II que expressam altos níveis de receptores de enzima conversora de angiotensina 2, sendo o alvo primário do SARS-CoV-2.
Autoimunidade a Interferons (IFNs) do tipo I
Os interferons (IFNs) são genes que codificam citocinas, indivíduos que carecem de IFNs específicos, podem ser mais suscetíveis a doenças infecciosas. Ademais, o sistema de autoanticorpos suaviza a resposta do INF para prevenir danos da inflamação induzida por patógenos.
Pneumonia e IFNs
Neste estudo, pelo menos 10% dos pacientes com pneumonia causada pelo COVID-19 com condição grave tinham autoanticorpos neutralizantes contra IFNs do tipo I. Clinicamente, esses autoanticorpos foram silenciosos até que os pacientes foram infectados com SARS-CoV-2, que é um indutor pobre de IFNs do tipo I. Sugerindo que as pequenas quantidades de IFNs induzidas pelo vírus são importantes para a proteção de casos graves. Os autores, também defendem que esse estudo abre portas para mais intervenções terapêuticas ou preventivas. Incluindo a plasmaférese, plasmablastos de depleção de anticorpos monoclonais e a inibição específica de células B reativas a IFN tipo I.
Conclusão
Assim, tendo a sua comprovação, a autoimunidade da proteína Anexina A2, pode ser útil para prever casos graves e tromboses sistemáticas. Do mesmo modo que a detecção de problemas relacionados ao IgA pode ajudar a prevenir uma trombose, além da SAAF. Além disso, o Interferon do tipo, também pode ajudar na detecção da pneumonia causada pela COVID-19 e trazer mais alternativas terapêuticas ou preventivas. Portanto, diversas teorias de como os autoanticorpos se relacionam estão sendo desenvolvidas, porém a maioria precisa de mais estudos.
Referências
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BRASIL. INSTITUTO NACIONAL DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL. (org.). Observatório de Tecnologias Relacionadas à COVID-19. Brasília, 2021.
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