É cada vez mais comum a preocupação de mães com o
desenvolvimento dos seus filhos. O excesso de bebês e crianças “prodígios”
visto hoje, em especial nas redes sociais, parece trazer à tona angústias que
antes não eram tão evidentes. De fato, seja porque o bebê da vizinha é mais
novo e já come sozinho, seja porque a avó afirma que a criança já devia estar
andando sem apoio, quase todos os dias os pediatras recebem a seguinte pergunta
no consultório: “Doutor, será que meu
filho é normal?”.
Em verdade, essas preocupações são extremamente
válidas, e é imprescindível ao médico sempre acolher a angústia da mãe e
avaliar corretamente a criança para notar possíveis alterações o mais precoce
possível. Mas como definir se o desenvolvimento infantil está dentro da margem
considerada normal ou se realmente há um atraso?
1. Definição:
Primeiramente, é preciso entender que
desenvolvimento, de acordo com Marcondes et al., significa o aumento da
capacidade do indivíduo em realizar funções cada vez mais complexas. Esse
desenvolvimento neuropsicomotor é, em geral, dividido entre os campos motor,
cognitivo, social e linguístico.
Para a avaliação desses quesitos, existem os
chamados marcos da infância, que demonstram a faixa etária esperada para que a
criança apresente evoluções, como sentar sem apoio, balbuciar as primeiras
palavras ou andar sozinha. Ressalta-se que esses marcos não são escalas rígidas,
e sim apenas parâmetros de comparação nos quais, eventualmente, podem ser
vistas leves alterações em algumas crianças.
Entretanto, em casos de múltiplas variações e/ou
de variações mais exageradas, deve-se reconhecer um atraso no desenvolvimento e
investigar a sua causa. O chamado atraso de desenvolvimento pode ser de caráter
transitório ou duradouro e pode ocorrer devido a fatores genéticos, pré-natais,
perinatais ou pós-natais, como será visto mais adiante. Além disso, esse termo
é extremamente amplo e heterogêneo, podendo abranger diferentes graus de atraso
e manifestações comportamentais, o que requer do médico uma investigação
aprofundada e individual para cada paciente observado.
2. O que pode causar esse
atraso?
São muitas as causas para um atraso no
desenvolvimento. Por isso, é importante reconhecer os principais fatores de
riscos e, principalmente, diferenciar as causas genéticas das causas
não-genéticas.
2.1. Causas de origem genética
Apresentam diferentes origens e
manifestações. Alguns exemplos são síndromes características, como a síndrome de
Down ou a síndrome do X frágil, além de doenças como a atrofia muscular espinhal (AME) e a
fenilcetonúria. Muitas dessas doenças são detectadas já no período de triagem
neonatal, o que ajuda a garantir um melhor prognóstico a essas crianças.
2.2. Causas de origem não-genética
Podem ser divididas em três períodos:
o período pré-natal, o perinatal (durante o parto) e o pós-natal.
2.2.1.
No período pré-natal, são alguns fatores de risco: o tabagismo, o consumo de
álcool – mesmo em poucas quantidades –, a idade avançada da mãe e a
multiparidade. Além disso, a não-realização de acompanhamento médico no período
pré-natal é uma das maiores causas para a ocorrência de atraso no
desenvolvimento em crianças.
2.2.2. No período perinatal, o parto
prematuro (inferior a 37 semanas), o trabalho de parto prolongado, a hipóxia
neonatal, o baixo peso ao nascimento, a icterícia significativa e as convulsões
neonatais são os principais fatores de risco.
2.2.3. Já no período pós-natal, deve-se
ficar atento a infecções no sistema nervoso central, em especial às meningites,
a traumatismos e a condições de desnutrição e desidratação.
Além disso, as condições familiares e sociais em
que a criança vive e os estímulos que ela recebe (ou não) também são fatores
que podem interferir no seu desenvolvimento, podendo, inclusive, ser a causa do
atraso.
3. Atraso no desenvolvimento x deficiência
intelectual
É comum algumas pessoas confundirem os termos
atraso no desenvolvimento e deficiência intelectual (DI) e tratá-los como
sinônimos. Na verdade, dizer que uma pessoa apresenta deficiência intelectual
significa que ela, no período de desenvolvimento (até os 18 anos), apresentou
redução do funcionamento intelectual e déficits no comportamento adaptativo,
incluindo os domínios conceitual, social e prático. Ou seja, a DI abrange
apenas o funcionamento propriamente ligado ao intelecto da pessoa, enquanto o
atraso no desenvolvimento pode abranger também áreas relacionadas ao
desenvolvimento motor.
Para entender melhor, é preciso saber que uma
forma de diagnosticar a DI é por meio do quociente de inteligência (QI).
Pacientes com QI abaixo de 70 são ditos portadores de DI. Entretanto, até os
cinco anos, nenhuma criança pode ser diagnosticada com deficiência intelectual,
exatamente pela impossibilidade de realizar testes de QI em crianças tão
pequenas. Por isso, antes dessa idade, essas crianças são designadas apenas
como portadoras de algum atraso no desenvolvimento.
Dessa forma, se fôssemos montar um diagrama
matemático, o conjunto maior seria o atraso do desenvolvimento e dentro dele
estaria inserido o conjunto da deficiência intelectual. Em termos práticos,
todos os indivíduos que apresentam deficiência intelectual possuem um atraso no
desenvolvimento, todavia nem todos que possuem um atraso no desenvolvimento
apresentam uma deficiência intelectual.
4. Como avaliar o atraso no
desenvolvimento?
Maria Montessori, médica que se dedicou
especialmente à educação infantil, disse que “para ajudar uma criança, devemos
fornecer-lhes um ambiente que lhes permita desenvolver-se livremente”. Por
isso, é primeiramente importante reiterar que o desenvolvimento infantil, em
geral, depende diretamente do estímulo que o indivíduo recebe. De fato, ao
analisar o desenvolvimento de uma criança, é importante perceber se o ambiente
em que ela está inserida fornece os estímulos necessários para a evolução de
suas potencialidades.
Além disso, uma boa anamnese deve ser realizada
nesses pacientes. Recomenda-se analisar detalhadamente antecedentes pessoais e
patológicos da mãe e da criança, a fim de perceber fatores de risco que
justifiquem um possível atraso.
Ademais, o médico pediatra deve sempre, seguindo
os princípios da propedêutica pediátrica, realizar um exame físico que avalie
comportamento, aquisições motoras, sistema sensorial, interações sociais e
outros aspectos, a depender da idade. Detectar possíveis dismorfias faciais ou
corporais na realização do exame físico também é importante para o
reconhecimento o mais precoce possível de possíveis patologias congênitas, como
síndromes genéticas.
Vale lembrar que, em muitas crianças, a avaliação
de um atraso de desenvolvimento requer uma análise multidisciplinar, com
neurologistas, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, por exemplo, devido à
complexidade das múltiplas áreas que precisam ser avaliadas. Por isso, até
mesmo os médicos mais experientes necessitam agir com cautela nessas situações,
a fim de não fornecer falsos diagnósticos, nem ser negligentes com o paciente
em questão.
5. Detectou-se um atraso no
desenvolvimento, e agora?
Agir o mais rápido possível, tentando promover um
melhor prognóstico quanto ao desenvolvimento dessa criança, é o mais
importante. Desse modo, se necessário, deve-se encaminhá-la para avaliação
neurológica, além de avaliações oftalmológicas e auditivas. Além disso,
terapias ocupacionais, fisioterapias e acompanhamento com fonoaudiólogos podem
ser iniciadas ainda em lactentes e geralmente são indicadas até mesmo para
pacientes com um atraso leve e transitório no desenvolvimento.
Dessa forma, cabe ao médico, baseado no princípio
do aconselhamento não-diretivo, informar os pais sobre a importância de um
acompanhamento multidisciplinar para essas crianças, que as estimulem a
progredir nos campos de desenvolvimento que estão deficitários. Educar os familiares
sobre a importância de promover um ambiente domiciliar que estimule a criança a
desenvolver todas as suas habilidades, com liberdade e segurança, também é uma
atitude necessária do médico.
Por fim, vale lembrar que, em casos pediátricos,
garantir a autonomia e a decisão final aos pais ou aos responsáveis legais,
após eles estarem bem instruídos da situação e cientes das opções existentes, é
indispensável e eticamente correto.
Autora:
Beatriz Fonteles
Instagram: @beatrizfonteles
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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