Os índices de morte súbita no país são extremamente altos, acometendo cerca de 17,5 milhões de pessoas no mundo, sendo as mais comuns por problemas relacionados ao coração, e mais da metade por ocorrências de arritmias cardíacas, ou inteiramente ligadas a ela, sendo a maior parte delas por falta de informação e por estilos de vida exagerados, principalmente relacionados com a má alimentação e falta de exercícios físicos.
“As doenças cardiológicas são as que mais matam no mundo, superando casos de câncer e acidentes de trânsito. E, dentre elas, as arritmias cardíacas, que causam morte súbita em mais de 300 mil brasileiros todos os anos”, cardiologista Luiz Pereira de Magalhães, Presidente da SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas), 2014.
Para a SOBRAC, a prevenção começa através da conscientização da população. Bem informado, o indivíduo terá condições de promover para a sua vida mais saúde, privilegiando hábitos saudáveis. Por isso, a importância de se falar sobre a tão temida arritmia.
Arritmia significa a = não, e ritmia = ritmo, ou seja, ao pé da letra, é o mesmo que dizer que é um coração sem ritmo. Elas são problemas que acometem alguma região do miocárdio, impedindo que os impulsos elétricos que “bombeiam” o coração sejam transmitidos de maneira normal. Quando o coração está batendo de forma rítmica, significa que seu sistema de geração e distribuição de “energia” está ocorrendo de forma esperada, ou seja, o impulso surge no nó sinoatrial, passa pelo nó atrioventricular e despois é distribuído por todo o miocárdio pelo feixe de His e, consequentemente, pelas fibras de Purkinje. Quando o nó sinoatrial começa a falhar, outros vão assumindo o lugar como marca-passos subsidiários, como por exemplo, o nó atrioventricular. Outra origem para a doença pode ser no sistema de condução do impulso, surgindo bloqueios que impedem que a ‘eletricidade’ se propague pelo caminho normal, não atingindo todas as regiões necessárias para o bom funcionamento do órgão e, como dito anteriormente, as arritmias podem levar à morte súbitapois o desconhecimento dos sintomas, e mesmo a falta deles, aceleram esse risco.

Morte súbita
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a morte súbita (MS) é caracterizada como sendo mortes que ocorrem de forma inesperada, são aquelas que ocorrem ao acaso, sem previsão ou intenção. Em 1970, a MS foi caracterizada como sendo aquelas que ocorrem em até 2 horas após os primeiros sintomas, porém, alguns autores definem que são aquelas que ocorrem dentro de 24 horas após os sintomas, e, principalmente, aquelas que ocorrem instantaneamente.
Em um estudo recente, a Organização revelou que a MS mata mais que acidentes de trânsito, sendo no Brasil de 250 mil a 300 mil pessoas afetadas todos os anos, e analisando o território mundial, o número de casos ultrapassam os 17, 5 milhões. As diversas causas que levam à MS dificultam a sua prevenção. As principais causas de MS em pessoas que não apresentam Cardiopatia evidente são:
- Tromboembolismo Pulmonar;
- Dissecção da Aorta;
- Ações indesejadas de substâncias químicas (Fármacos, diuréticos, anti-inflamatórios não hormonais, drogas ilícitas, plantas venenosas, etc.)
- Hipocalcemia;
- Dietas Anoréxicas.
No entanto, as principais causas de MS estão relacionadas a questões cardíacas, podendo ser através de:
- Doenças cardíacas isquêmicas (Aguda/crônica);
- Cardiomiopatias (hipertensão, atletas que treinam exageradamente, etc.);
- Valvopatias (Endocardite Infecciosa);
- Congênitas (Doença de Fallot);
- Tumores cardíacos;
- Pós-operatório;
- Síndrome de Woff-Parkinson-White;
- Arritmias cardíacas.
Arritmias cardíacas
O nosso coração necessita de um impulso elétrico para poder bombear o sangue por todo nosso corpo, este impulso tem origem no nó sinoatrial presente na porção superior do átrio direito, que contrai os átrios ao mesmo tempo, vai para o nó atrioventricular e depois este impulso é mandado até o feixe de His, que, pelas fibras de Purkinje, libera-os para o resto do miocárdio, contraindo os ventrículos e relaxando os átrios, e assim sucessivamente. Quando há uma alteração neste ciclo, é o que se caracteriza como arritmia cardíaca. Arritmias cardíacas são uma das principais causas de morte súbita no mundo. Elas são definidas como qualquer alteração na formação e/ou na condução do impulso cardíaco normal, sendo muitas delas de caráter maligno, responsáveis pela morte de milhões de indivíduos (TENO, 2009), fazendo com que o coração não execute de forma esperada a sístole e a diástole, provocando alterações no ritmo cardíaco.
As arritmias, podem ser classificadas como primária, quando surgem espontaneamente, ou podem ser secundárias, que é pelo resultado de outros distúrbios. Ainda podem ser subdivididas de formas diversas, sendo que as principais arritmias conhecidas são a bradicardia (bradiarritmia), quando o coração diminui seus batimentos, em geral abaixo de 60 bpm, podendo ou não apresentar palpitações, no entanto, “a maioria das arritmias, por não apresentarem sinais ou sintomas, só podem ser detectadas através de estudo clínico e exames como o eletrocardiograma (MELTZER, 1997)”; e a taquicardia (taquiarritmias), caracterizada como aumento súbito dos batimentos cardíacos, geralmente acima de 100 bpm, mas não quando se está em intensa movimentação, como na prática de exercícios, neste caso é normal, uma vez que o coração acelera para a rápida troca gasosa em nosso organismo, mas quando relaxamos, o coração volta ao seu batimento regular, porém, se ocorre em repouso é necessário consultar um especialista, uma vez que pode levar à morte. Ainda existem outras, como por exemplo, a fibrilação atrial, que se caracteriza como batimentos rápidos e irregulares dos átrios do coração; a principal preocupação deste tipo de arritmia é que ela aumenta as chances de se desenvolver o AVC (acidente vascular cerebral – derrame). Este tipo de problema acomete principalmente idosos de 75 a 80 anos de idade.
Alteração da condução
Como já foi dito anteriormente, as arritmias podem ter algumas formas e regiões do miocárdio diferentes para se desenvolverem, e uma delas é por bloqueios, que consistem em impedir que o impulso chegue até a região necessitada, ou faz com que chegue com atraso. Os bloqueios podem ser de três graus: No Grau 1, os estímulos são transmitidos, porém com atraso; O grau 2 se subdivide em Mobitz I e II; no Mobitz I, ocorre o atraso progressivo dos estímulos até a não condução de um deles; no Mobitz II, a duração dos estímulos prévios, aquele falho é fixo; e o Grau 3 é o bloqueio total do estímulo pela região com anormalidade.
Há ainda as arritmias por reentrada, que desvia do problema para alcançar a região almejada, o que causa um atraso ainda maior, porque tem que dar a volta pelo bloqueio para poder passar. O fenômeno de reentrada depende da velocidade de condução e do período refratário dos componentes do circuito, tornando mais fácil o aparecimento de conduções lentas e os períodos refratários curtos.
Sintomas
A maior parte das pessoas com arritmias cardíacas são assintomáticas, ou seja, a maioria dos portadores desse tipo de problema não sabe que possuem uma falha no coração. Porém, aqueles que possuem sintomas, podem apresentar:
- Pré-síncope (tontura);
- Síncope (perda dos sentidos);
- Fadiga extrema;
- Palpitação;
- Queda da pressão arterial;
- Angina (dor extrema no peito);
- Dispneia (dificuldade em respirar, sendo caracterizada como respiração rápida e curta);
- Pulso irregular e lento/ irregular e rápido.

Diagnóstico
Para que o profissional da saúde saiba qual método aplicar no tratamento é necessário que o paciente passe por alguns exames para, só então, iniciar o processo de cuidados; alguns exames realizados são:
- Primeiramente é realizado o exame físico em conjunto com a anamnese;
- Em seguida, o eletrocardiograma, que analisa o ritmo cardíaco;
- E, por fim, o exame chamado Holter, que é um aparelho que mede a frequência cardíaca durante 24 horas, onde o indivíduo realiza todas as funções normais de um dia-a-dia, com o objetivo de verificar em que momento ocorre o não funcionamento normal do ritmo, sendo acompanhado de uma espécie de diário onde o paciente deve anotar as coisas que fez e em quais horários, para se ter uma ideia mais ampla do diagnóstico.
Estes exames são realizados em um paciente que não apresenta urgência de tratamento, porém, quando isto ocorre, apenas o eletrocardiograma é suficiente para que inicie a conduta terapêutica.
Tratamento das arritmias
Assim como existem diversas formas de arritmias, também há tratamentos diversificados, que são passados pelo médico responsável pelo caso, que analisa qual será o melhor meio de tratamento, mediante o tipo de arritmia que o indivíduo apresenta. Os tratamentos podem ser através de medicamentos, porém, há casos que necessitam da intervenção cirúrgica com a implantação de marca-passos, que é um aparelho que emite os impulsos elétricos para o coração, com o objetivo de ‘descansá-lo’ e manter o ritmo cardíaco o mais próximo possível do normal.
Como dito anteriormente, cada tipo de arritmia tem seu tratamento específico, sendo então:
- Bradicardia: Atropina, 0,5mg, EV, em bólus, repetindo de 3 a 5 minutos, até obter o máximo de 3 mg. Não funcionando, entra-se com outro tipo de terapia, com adrenalina 2-10 mcg/min, EV, dopamina 2-10 mcg/kg/min, EV, e o marca-passo.
- Taquicardia: Existem diversos medicamentos que podem ser utilizados para controle das arritmias deste tipo, que são os betabloqueadores ou bloqueadores de canais de cálcio não-dihidropiridínicos, para que diminua os batimentos cardíacos. Alguns pacientes necessitam do uso de marca-passo.
- Fibrilação atrial: para o controle do ritmo se utiliza o amiodarona ou propafenona e, para regular a frequência cardíaca, utiliza-se de betabloqueadores e/ou bloqueadores de canais de cálcio não-dihidropiridínicos.
Papel do profissional de saúde quanto às arritmias cardíacas
A maior parte das pessoas que desenvolvem as arritmias não apresentam sintomas para serem diagnosticada precocemente e, por isso, a falta de informações acarreta em um aumento de mortes súbitas envolvendo a doença. E, neste contexto, se insere a assistência do profissional de saúde, uma vez que os pacientes com a doença necessitam de cuidados e atenção redobrada, principalmente nos setores de urgência e nos Centros de Terapia Intensiva (CTI), onde os pacientes se encontram em situação mais grave. Para tanto, estes profissionais devem realizar procedimentos visando o conforto e a recuperação do paciente, tais quais:
- Monitorização: observar o monitor cardíaco, checar eletrodos e se não há interferência;
- Comunicar o quadro clínico e os avanços e/ou retrocessos aos responsáveis pelo paciente;
- Preparar e administrar medicação conforme prescrição médica: administrar medicamentos prescritos;
- Realizar manobras de reanimação do paciente: medicamentos, intubação, massagem cardíaca, desfibrilação e acesso venoso;
- Informar ao paciente ou à família cada passo realizado e, consequentemente, cada ação e decisão a ser tomada, deve partir do livre consentimento deles.
Educação em saúde
Marcondes (apud Santos, 1998) define educação em saúde como sendo um conjunto de atividades que sofrem influência e modificação de conhecimentos, atitudes, religiões e comportamentos, sempre em prol da melhoria da qualidade de vida e saúde do indivíduo.
É pensando na melhoria da saúde das pessoas, que grupos de médicos e enfermeiros, através de programas voltados para a saúde da família, fazem visitas em domicílio para atender quem necessita e quem não se encontra em condições de se locomover até a UPA ou ao hospital. A partir destas iniciativas, as pessoas podem receber um atendimento diferenciado e obter informações que, por vezes, são omitidos de seus conhecimentos. A educação em saúde tem por objetivo orientar as pessoas para que elas possam mudar seus comportamentos e hábitos, visando uma vida mais saudável.
No entanto, um dos maiores problemas é a orientação sobre as arritmias cardíacas, uma vez que as mortes súbitas por arritmias cardíacas aumentam por falta de informação e cuidados, tendendo a piorar com a má alimentação. O atendimento dos profissionais nas regiões mais carentes auxilia o paciente cardíaco com informações sobre os devidos cuidados e quais alimentos ingerir, como por exemplo: não ingerir bebidas que contenham cafeína, alimentos gordurosos, alimentos ricos em açúcar, bebidas alcoólicas, entre outros; informa também sobre a importância da realização de exercícios físicos e sobre os riscos do estresse diário.
Pensando na educação em saúde e na profilaxia, foi implantado o dia para conscientização e informação: o dia 12 de novembro, onde comemora-se o Dia Nacional de Prevenção de Arritmias Cardíacas e Morte Súbita. O objetivo deste dia é de conscientizar as pessoas leigas sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e dos tratamentos.

Conclusão
Concluímos então que as arritmias cardíacas são problemas geralmente silenciosos e perigosos que podem levar à morte, se não diagnosticadas e tratadas de forma adequada por um profissional de saúde especializado. A forma que uma pessoa vive pode influenciar muito no surgimento das arritmias, pois o uso de drogas lícitas e ilícitas, a má alimentação, a falta de exercícios físicos, estresse, entre outros fatores, aumentam as chances de ter a doença. É necessário estar sempre atento para quaisquer sinais ou sintomas, e estar sempre em dia com exames e idas ao especialista, para que seja diagnosticada e tratada da melhor forma.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
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