A apraxia da fala se tornou um tema cada vez mais relevante entre pediatras, neurologistas, fonoaudiólogos e médicos da atenção primária. Embora muitos profissionais associem o termo principalmente a quadros neurológicos adquiridos, a literatura atual demonstra que a apraxia, especialmente na infância, exige um olhar clínico atento desde os primeiros sintomas.
Além disso, compreender o transtorno com profundidade ajuda o médico a diferenciar apraxia de condições mais comuns, como atraso simples de fala, transtornos fonológicos e disartrias.
O que é apraxia da fala?
A apraxia da fala é um transtorno motor da comunicação que afeta o planejamento e a programação dos movimentos necessários para a produção da fala. O paciente compreende a linguagem, sabe exatamente o que deseja dizer e preserva força muscular, mas não consegue organizar de forma precisa as sequências articulatórias. Portanto, o problema ocorre no nível neurológico do planejamento motor, e não no nível muscular.
Os artigos que investigam apraxia, tanto na forma adquirida quanto na infantil, descrevem de maneira consistente que o transtorno envolve falhas nos circuitos cortico-subcorticais responsáveis pela conversão da intenção linguística em comandos motores articulatórios. Assim, o córtex pré-motor, a ínsula anterior, o giro frontal inferior e o fascículo arqueado participam desse processo, e qualquer disfunção nessas regiões pode prejudicar a programação dos movimentos da fala.
Entretanto, a apraxia infantil (childhood apraxia of speech – CAS) ainda apresenta etiologia multifatorial. O UpToDate destaca que fatores genéticos, alterações no neurodesenvolvimento e condições médicas associadas, como prematuridade, epilepsias e transtornos sensoriais, podem aumentar a probabilidade de manifestação. Por outro lado, muitos pacientes não apresentam nenhuma alteração estrutural em exames de imagem, o que reforça a natureza funcional e central do transtorno.
Além disso, a literatura lembra que a apraxia infantil não se trata de um atraso fonológico, e sim de um transtorno motor específico. Consequentemente, intervenções terapêuticas exigem abordagens baseadas em repetições motoras, prática distribuída e feedback sensório-motor — e não técnicas estritamente linguísticas.
Como a apraxia se manifesta: sinais clínicos essenciais
Na consulta, o médico encontra grande variedade de sintomas. Entretanto, alguns padrões ajudam a diferenciar apraxia de outras condições:
Inconsistência na produção de sons
A criança produz uma palavra corretamente em um momento, mas erra completamente em outro.
Essa inconsistência é um dos marcadores mais importantes e aparece em praticamente todas as descrições clínicas dos estudos.
Transições lentificadas e esforço para articular
A fala apresenta pausas, hesitações e esforço visível para mover lábios, língua e mandíbula.
Além disso, a criança muitas vezes tenta diversas vezes até conseguir articular uma sílaba.
Dificuldade com sequências motoras
Palavras mais longas ou mais complexas causam grande aumento do erro, porque exigem coordenação articulatória mais sofisticada.
Prosódia alterada
O paciente apresenta entonação monotônica, acentuação inadequada ou ritmo atípico. Esse aspecto aparece repetidamente tanto no artigo da SciELO quanto nas revisões clínicas do UpToDate, reforçando que a prosódia é um componente motor crucial da fala.
Substituições fonêmicas que mudam a cada tentativa
Diferentemente de transtornos fonológicos, em que o erro segue um padrão previsível, as substituições na apraxia variam muito.
Diferenças fundamentais entre apraxia, disartria e transtorno fonológico
A distinção entre esses três quadros garante diagnóstico adequado e orienta o encaminhamento para fonoaudiologia especializada.
| Característica | Apraxia da fala | Disartria | Transtorno fonológico |
|---|---|---|---|
| Mecanismo | Falha no planejamento motor | Fraqueza/coordenação muscular alterada | Problema linguístico de processamento |
| Força muscular | Preservada | Alterada | Preservada |
| Consistência do erro | Inconsistente | Consistente | Consistente |
| Prosódia | Muito alterada | Levemente alterada | Pouco afetada |
| Exame neurológico | Normal na maioria das crianças | Geralmente alterado | Normal |
Essa diferenciação se apoia diretamente nos achados clínicos descritos no artigo da SciELO e nos estudos revisados no PMC, que analisam apraxia adquirida e correlacionam achados motores a padrões articulatórios.
Quando o médico deve suspeitar de apraxia da fala?
Embora muitos casos apareçam inicialmente na fonoaudiologia, o diagnóstico precoce começa na atenção primária e nas consultas de puericultura. O médico deve suspeitar do transtorno quando observa:
- Atraso de fala com compreensão preservada
- Frustração intensa ao tentar se comunicar
- Busca visual constante do movimento articulatório (a criança “olha para a boca do adulto”)
- Histórico familiar de distúrbios de linguagem
- Presença de comorbidades neurológicas ou genéticas
- Ausência de melhora significativa após intervenções fonológicas tradicionais.
Além disso, o UpToDate reforça que a dificuldade de imitação de sons e gestos orofaciais também serve como marcador importante, já que o planejamento motor falha mesmo em tarefas simples.
Quando investigar: critérios clínicos e justificativas
A decisão de investigar apraxia não depende apenas da gravidade da fala. Em vez disso, ocorre quando o conjunto clínico sugere um transtorno motor persistente com risco de repercussão funcional relevante.
O médico deve iniciar investigação quando:
Há falha importante no desenvolvimento da fala aos 18–24 meses
Se a criança não produz sílabas variadas, não tenta combinar dois sons ou demonstra esforço para articular, a investigação precoce permite intervenção mais efetiva.
Os erros articulatórios seguem padrão inconsistente
Erros altamente variáveis não coincidem com o desenvolvimento fonológico típico, indicando que o problema está no planejamento motor.
Há histórico pessoal ou familiar de distúrbios de linguagem
O artigo da SciELO destaca que fatores genéticos contribuem significativamente para os transtornos fonológicos e motores.
Há suspeita de comorbidades
Entre elas:
- TEA
- Epilepsias
- Atrasos globais do desenvolvimento
- Distúrbios sensoriais.
Esses quadros aparecem com frequência em crianças com transtornos de fala persistentes.
A evolução terapêutica não progride como esperado
Quando a criança não apresenta melhora significativa com abordagens fonológicas tradicionais, a hipótese de apraxia ganha força, pois a intervenção motora específica é fundamental.
Quais exames solicitar
A investigação depende da apresentação clínica. Embora muitos casos de apraxia infantil não apresentem alterações em exames de imagem, os artigos reforçam que exames complementares ajudam a esclarecer diagnósticos diferenciais, principalmente quando há sinais neurológicos associados.
Ressonância magnética cerebral
Indicado quando:
- Existe regressão de marcos de desenvolvimento
- Há convulsões
- O exame neurológico apresenta alterações
- Há suspeita de lesão estrutural.
Além disso, o artigo do PMC reforça que apraxia adquirida pode decorrer de lesões focais envolvendo ínsula anterior e regiões pré-motoras.
Avaliação genética
Importante quando:
- Há atraso global
- Histórico familiar
- Dismorfismos
- Combinação de transtornos motores e linguísticos.
Embora o artigo da SciELO discuta mais distúrbios fonológicos que apraxia, ele reforça o papel da genética na determinação dos transtornos de fala persistentes.
Audiometria e avaliação auditiva completa
Fundamental para descartar perdas auditivas, já que elas alteram o desenvolvimento de fala e confundem o diagnóstico.
Avaliação fonoaudiológica especializada
É indispensável. Portanto, nenhum dos exames substitui o diagnóstico clínico fonoaudiológico de apraxia da fala.
Manejo clínico: como orientar a família e conduzir o cuidado médico
O manejo da apraxia exige abordagem multidisciplinar. O médico tem papel essencial ao orientar a família sobre o caráter motor do transtorno. Por isso, o acompanhamento deve incluir:
- Sessões frequentes de fonoaudiologia com enfoque motor
- Orientação à família para manter repetição e prática funcional
- Acompanhamento neurológico quando há comorbidades
- Monitoramento do desenvolvimento global.
Além disso, como o transtorno geralmente demanda tratamento prolongado, o médico pode reforçar a importância de metas realistas, já que a criança progride, porém, muitas vezes de forma gradual.
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Referências bibliográficas
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