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Animais peçonhentos: serpentes e escorpiões | Colunistas

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A peçonha é uma estrutura especializada em inocular toxina. Considera-se como exemplo de animais peçonhentos as serpentes, por apresentar as presas, os escorpiões, por apresentar o aguilhão, e as aranhas, pela presença dos quelíceros. Já os animais venenosos diferem-se dos animais peçonhentos devido não apresentarem estrutura especializada para inocular veneno, temos como exemplo os sapos e os peixes baiacus.

Por esse motivo, torna-se fundamental o conhecimento básico a respeito das características dos animais peçonhentos, os mecanismos e efeitos do seu veneno e a maneira adequada de tratar. Conforme o Ministério da Saúde, mais de 60% dos casos são picadas de escorpião, seguido das serpentes (12%) e aranhas (11,5%).  Por esse motivo, veja a tabela com o resumo das características dos dois grupos mais importantes, epidemiologicamente, referentes a presença de peçonha:

Tabela – Características principais das serpentes e escorpiões, mecanismo do seu veneno e o tratamento. 

Animal Característica Veneno Efeitos Tratamento
Botrópico (Jararaca)
Presença de fosseta loreal e cauda lisa. Apresenta, geralmente, triângulos em sua porção lateral Proteolítico (edema, bolhas e necrose)
Coagulante (do fator X e da protrombina – incoagulabilidade sanguínea, Plaquetopenia)
Hemorrágica (lesões na membrana basal dos capilares)
Em gestantes, há risco de hemorragia uterina.
Leve: sangramento em pele;
Moderado: edema além do local da picada, gengivorragia, epistaxe e hematúria;
Grave: bolhas, edema local endurado intenso e extenso, dor intensa, isquemia.
Hipotensão arterial, choque, oligo/anúria ou hemorragias intensas
Complicações: Sd. compartimental, abscesso, necrose, choque e IRA.
Soro antibotrópico (SAB) por via intravenosa e, na falta deste, usar associações antibotrópico-crotálica (SABC) ou antibotrópicolaquética (SABL)
a) Se sintomas leves: 2-4 ampolas; b) Se moderado: 4-8 ampolas; c) Se grave: 12 ampolas.
OBS:  Se Tempo de coagulação permanecer alterado > 24 h após a soroterapia:
dose adicional de duas ampolas de antiveneno.
d) Outras medidas:
1) Elevar membro picado;2) Analgésicos3) Hidratação: manter o paciente hidratado, com diurese entre 30 a 40 ml/hora no adulto, e 1 a 2 ml/kg/hora na criança;4) Antibioticoterapia, se infeccção (Morganella morganii, Escherichia coli, Providentia sp e Streptococo do grupo D) geralmente sensíveis ao cloranfenicol. Ou clindamicina com aminoglicosídeo
Crotálico(Cascavel)
http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/cascavel.jpg

Presença de fosseta loreal e presença de chocalho na cauda. Neurotóxica (ação pré-sináptica que atua nas terminações nervosas inibindo a liberação de acetilcolina.)
Coagulante (converte o fibrinogênio diretamente em fibrina)

Miotóxica (lesões de fibras musculares esqueléticas (rabdomiólise) com liberação de enzimas e mioglobina)
Leve: sintomas neurotóxicos discretos, de aparecimento tardio, sem mialgia ou alteração da cor da urina ou mialgia discreta.Moderado: sinais e sintomas neurotóxicos discretos, de instalação precoce, mialgia discreta e a urina alteradaGrave: neurotóxicos são evidentes e intensos (fácies miastênica, fraqueza muscular), a mialgia é intensa e generalizada, a urina é escura, podendo haver oligúria ou anúria.

Geralmente não há dor;Parestesia;
Gerais: mal-estar, prostração, sudorese, náuseas, vômitos, sonolência ou inquietação,
Neurológicas: surgem nas primeiras horas após a picada e se caracterizam com fácies miastênica (fácies neurotóxica de Rosenfeld) evidenciadas por ptose palpebral uni ou bilateral, flacidez da musculatura da face, alteração do diâmetro pupilar, oftalmoplegia, visão turva, diplopia, ageusia e agnosia.
Muscular: mialgias; mioglobinúria. A mioglobinúria constitui a manifestação clínica mais evidente da necrose da musculatura esquelética
O soro anticrotálico (SAC) IV. A dose varia de acordo com a gravidade do caso.
Se sintomas leves: 5 ampolas;
Se moderados: 10 ampolas;
Se grave: 20 ampolas.
OBS: pode ser utilizado o soro antibotrópico-crotálico (SABC)
Manter hidratação adequada (fluxo urinário de 1 ml a 2 ml/kg/hora na criança e 30 a 40 ml/hora no adulto.
Diurese osmótica pode ser induzida por manitol a 20% (5 ml/kg na criança e 100 ml adulto)
Caso persista a oligúria: furosemida por via intravenosa (1 mg/kg/ dose na criança e 40mg/dose no adulto)
Laquético(Surucucu pico-de-Jaca)  

http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/surucucu.jpg

Presença de fosseta loreal e cauda com escamas arrepiadas. Apresenta triângulos em sua porção central. Proteolítico (edema, bolhas e necrose)
Coagulante (do fator X e a protrombina – incoagulabilidade sanguínea, Plaquetopenia)

Hemorrágica (lesões na membrana basal dos capilares)
gengivorragias, epistaxes, hematêmese e hematúria
Em gestantes, há risco de hemorragia uterina.
Neurotóxica (estimulação vagal)- Vômitos, diarreia, dor abdominal.

Dor e edema;
Vesículas e bolhas de conteúdo seroso ou sero-hemorrágico;
Hipotensão arterial, tonturas, escurecimento da visão, bradicardia, cólicas abdominais e diarreia.
Acidentes laquéticos são classificados como moderados e graves, devido ao seu tamanho.
O soro antilaquético (SAL), ou antibotrópico-laquético (SABL) deve ser utilizado por via intravenosa .
10 a 20 ampolas de SAL OU SABL, IV.
Elapídico(Coral Verdadeira)
http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/cobra_coral1.jpg
Cobra mais venenosa do BRASIL. NÃO APRESENTA FOSSETA LOREAL. Apresenta coloração característica. Neurotóxico (ação pós e pré-sináptica).
Pos-sináptica: competem com a acetilcolina (Ach) pelos receptores colinérgicos da junção neuromuscular, atuando de modo semelhante ao curare.
Pré-sináptica: Atuam na junção neuromuscular, bloqueando a liberação de Ach pelos impulsos nervosos, impedindo a deflagração do potencial de ação.
Sintomas surgem em menos de 1h:
Vômitos, fraqueza muscular progressiva, ocorrendo ptose palpebral, oftalmoplegia e a presença de fácies miastênica ou “neurotóxica
Soro antielapídico (SAE) deve ser administrado na dose de 10 ampolas, IV.
Todos os casos SÃO potencialmente graves
Manter ventilação
Recomenda-se observação do indivíduo picado por até 24h.
Envenenamentos onde predomina essa ação pós-sináptica, o uso de substâncias anticolinesterásticas (edrofônio e neostigmina)* pode prolongar a vida média do neurotransmissor (Ach), levando a uma rápida melhora da sintomatologia.
Se pré-sináptica, esse mecanismo não é antagonizado pelas substâncias anticolinesterásicas.
Tityus (Escorpião)
T. Serrulatus (amarelo)

http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/escorp_tityus_serrulatus.jpg

T. Cambridge (preto)
http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/escorp_tityus_cambrigdei.gif

Apresenta cauda formada por cinco seguimentos e, no final, há o telso, composto de vesículas e ferrão (aguilhão).  Gerais: hipo ou hipertermia e sudorese profusa.Digestivas: náuseas, vômitos, sialorréia e, mais raramente, dor abdominal e diarréia.  Cardiovasculares: arritmias cardíacas, hipertensão ou hipotensão arterial, insuficiência cardíaca congestiva e choque. Respiratórias: taquipnéia, dispnéia e edema pulmonar agudo.  Neurológicas: agitação, sonolência, confusão mental, hipertonia e tremores.
Ocorrem principalmente em crianças.
Dor local, parestesias
Leves: apresentam apenas dor no local da picada e, às vezes, parestesias. Moderados: dor intensa no local da picada e manifestações sistêmicas do tipo sudorese discreta, náuseas, vômitos ocasionais, taquicardia, taquipnéia e hipertensão leve.  Graves: além dos sinais e sintomas já mencionados apresenta-se mais um dos sintomas: sudorese profusa, vômitos incoercíveis, salivação excessiva, alternância de agitação com prostração, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema pulmonar, choque, convulsões e coma.
Os óbitos estão relacionados a complicações como edema pulmonar agudo e choque.
Solicitar ECG para avaliação bradicardia e taquicardia.
Raio-X tórax para verificar área cardíaca e edema agudo de pulmão.
Sintomáticos:
Infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor (1 ml a 2 ml para crianças; 3 ml a 4 ml para adultos) no local da picada ou uso de dipirona na dose de 10 mg/kg de peso a cada seis horas. Os distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básicos devem ser tratados de acordo com as medidas apropriadas a cada caso.
Consiste na administração de soro antiescorpiônico (SAEEs) ou antiaracnídico (SAAr) aos pacientes com formas moderadas e graves de escorpionismo, que são mais freqüentes nas crianças picadas pelo Tityus serrulatus (8% a 10 % dos casos)
Leve: sintomáticos; Moderado: 2 a 3 ampolas, IV. Grave: 4 a 6 ampolas.
Fonte: Tabela elaborada por Edy Alyson Ribeiro com informações do Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos

* a) Teste da Neostigmina: aplicar 0,05 mg/kg em crianças ou uma ampola no adulto, por via IV. A resposta é rápida, com melhora evidente do quadro neurotóxico nos primeiros 10 minutos. b) Terapêutica de Manutenção: se houver melhora dos fenômenos neuroparalíticos com o teste acima referido, a neostigmina pode ser utilizada na dose de manutenção de 0,05 a 0,1 mg/kg, IV, a cada quatro horas ou em intervalos menores, precedida da administração de atropina.

Atropina é um antagonista competitivo dos efeitos muscarínicos da Ach, principalmente a bradicardia e a hipersecreção. Deve ser administrada sempre antes da neostigmina, nas doses recomendadas.

Por fim, conhecer o animal, suas características e o mecanismo de atuação do veneno permitem uma melhor abordagem frente aos cuidados necessários para se evitar as complicações e até a morte do paciente picado por animais peçonhentos. 

Autor: Edy Alyson Costa Ribeiro

Instagram: @e.alysonribeiro

Podcast: “Do Jaleco ao Microfone” 

Referências:

FioCruz. Cascavel. Disponível em:http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/cascavel.htm. Acesso em: 06 mar. 2022.

FioCruz. Coral. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/coral.htm. Acesso em: 06 mar. 2022

FioCruz. Escorpionídeos. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/escorpionideos.htm. Acesso em: 20 mar. 2022

FioCruz. Jararaca. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/jararaca.htm. Acesso em: 06 mar. 2022.

FioCruz. Surucucu. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/surucucu.htm. Acesso em: 06 mar. 2022

Fundação Nacional de Saúde. Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. Disponível em: https://www.icict.fiocruz.br/sites/www.icict.fiocruz.br/files/Manual-de-Diagnostico-e-Tratamento-de-Acidentes-por-Animais-Pe–onhentos.pdf. Acesso em: 06 mar. 2022. ISBN: 85-7346-014-8.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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