As anemias carenciais são um grupo de anemias caracterizadas por apresentar carência de elementos fundamentais para a eritropoese: ferro, vitamina B12 ou folato.
- ANEMIA FERROPÊNICA
A anemia ferropênica é uma das doenças mais frequentes no mundo, já que a deficiência de ferro é uma das deficiências nutricionais mais prevalentes. É associada à redução da capacidade de trabalho em adultos e ao retardo no desenvolvimento mental e motor da criança. É a principal causa de anemia microcítica e hipocrômica.
1.1 Etiologia
A deficiência de ferro ocorre quando sua demanda é maior que sua absorção pela dieta, como por exemplo na gravidez e crescimento acelerado na infância. As principais causas de deficiência de ferro são:
- Perda de sangue: perdas menstruais excessivas, doenças do trato gastrointestinal (varizes, úlcera péptica, doenças inflamatórias intestinais, etc); doadores habituais de sangue, distúrbios da hemostasia, hematúria, uso de AINEs e anticoagulantes.
- Má absorção: doença celíaca, gastrite atrófica, gastrectomia, cirurgias bariátricas.
- Dieta: vegetarianos, crianças entre 6 meses e 2 anos, idosos.
1.2 Quadro Clínico
Como a instalação da anemia ferropriva é lenta, o organismo se adapta e suporta de forma assintomática níveis muito baixos de hemoglobina. Os sintomas mais comuns são:
- Fadiga
- Perda da capacidade de exercer atividades habituais
- Irritabilidade
- Cefaleia
- Palpitações
- Dispneia aos esforços
O exame físico não traz muitos achados além de mucosas descoradas. O paciente pode apresentar queilite angular (figura abaixo) e alterações ungueais.

1.3 Diagnóstico
A anemia ferropênica é caracteristicamente hipocrômica e microcítica (VCM < 80). A redução da ferritina sérica é o melhor exame para comprovar deficiência de ferro. No quadro abaixo estão as principais alterações laboratoriais da anemia ferropênica:

OBS: Após o diagnóstico laboratorial da anemia ferropênica, deve ser feita a investigação das perdas.
1.4 Tratamento
O tratamento de escolha é a reposição de ferro via oral. O composto mais utilizado é o sulfato ferroso 120 a 180 mg de ferro elementar/dia.
Efeitos adversos: distensão abdominal, diarreia e obstipação.
O tratamento visa normalizar a concentração da hemoglobina e a reposição de estoques de ferro. Pode durar até 6 meses a depender da doença de base.
2. ANEMIAS MEGALOBLÁSTICAS
Constituem um subgrupo das anemias macrocíticas caracterizadas por anormalidades morfológicas típicas das células precursoras das linhagens eritroide, granulocítica e megacariocitária da medula óssea. As principais causas de anemia megaloblástica são as deficiências de vitamina B12 ou de ácido fólico (folato).
Deficiência de B12
A vitamina B12 está presente somente em bactérias e alimentos de origem animal, como carnes, vísceras, ovos e laticínios, sendo absorvida no íleo terminal. Dietas vegetarianas, portanto, não são suficientes para manter equilíbrio adequado.
Folatos
Os folatos são sintetizados por microrganismos e plantas, como folhas verdes, frutas e proteína animal. A absorção é feita principalmente no jejuno.
2.1 Etiologia e fisiopatologia
Deficiência de vitamina B12
- Deficiência nutricional: ocorre nos vegetarianos que não consomem produto de origem animal e populações com hábitos vegetarianos impostos pela pobreza.
- Má absorção da vitamina B12 dos alimentos: ocorre em pacientes com cirurgia gástrica, uso de medicamentos supressores da secreção gástrica (omeprazol).
- Ausência de secreção gástrica: deficiência da produção do fator intrínseco associada à produção deficiente de ácido clorídrico pode ser decorrente de gastrectomia, gastrite atrófica crônica secundária à destruição autoimune das células parietais da mucosa.
- Má absorção induzida por drogas: biguanidas, cloreto de potássio, colchicina, neomicina.
Deficiência de folatos
- Aumento das necessidades nutricionais: gravidez e lactação
- Doenças do intestino delgado: o espru tropical e doença celíaca podem ocorrer por deficiência de folatos decorrentes da má absorção causadas pelas anormalidades da mucosa intestinal
- Abuso de álcool
- Medicamentos: trimetoprina, pirimetamina, metotrexato, sulfassalazina, quimioterápicos, antirretrovirais.
2.2 Quadro clínico
Os sintomas geralmente são os de anemia crônica. Com a progressão da doença pode ocorrer sintomas cardiovasculares e palidez combinada com hiperbilirrubinemia. Os principais sintomas são:
- Falta de apetite
- Perda de peso
- Atrofia das papilas linguais (glossite)
- Aspecto envelhecido
- Esplenomegalia (casos graves)
2.3 Laboratório
- Anemia macrocítica com reticulócitos baixos
- Sangue periférico: hipersegmentação dos neutrófilos e macroovalocitose dos eritrócitos

- Concentração plasmática do ferro pode está moderadamente elevada quando não há deficiência associada
- Nível sérico de B12 reduzido
- Nível de folato sérico reduzido
2.4 Tratamento
- Vitamina B12: reposição parenteral com 1.ooo mcg de vitamina B12/semana durante 4 semanas, via intramuscular, seguido de injeções mensais;
- Folatos: reposição com ácido fólico, 1mg, via oral, 1 x por dia
REFERÊNCIAS
Clínica Médica, volume 3: doenças hematológicas, oncologia, doenças renais. – 2 ed. – Barueri, SP; Manole, 2016.
Hoffbrand, A. Victor. Fundamentos em hematologia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.