Na gestação o organismo da mulher apresenta um estado de sobrecarga fisiológica, pois o desenvolvimento do feto não só se sobrepõe ao metabolismo materno, como também o modifica. A deficiência de ferro pode causar várias consequências, entre elas: partos prematuros e recém-nascidos de baixo peso.
Na gestação ocorre normalmente uma queda nos níveis de hemoglobina decorrente da desproporção do aumento do volume sanguíneo em relação ao aumento do volume de hemácias.
No segundo
trimestre, a deficiência de ferro se manifesta frequentemente por uma queda na concentração
de hemoglobina. Já no terceiro trimestre, há necessidade de maior quantidade de
ferro para aumento da hemoglobina da mãe e transporte para o feto. Tudo isso,
resulta em quedas de hemoglobinas, hematócrito e viscosidade sanguínea no
organismo da gestante, podendo ocasionar anemia ferropriva na gravidez.
A dieta normal de gestantes nem sempre é suficiente para suprir as
necessidades de ferro, por isso, por precaução, tem sido proposto a
suplementação de ferro durante a gestação, mesmo em mulheres sem deficiência de
ferro. Quando a gravidez ocorre em mulheres com reservas suficientes para
atender às necessidades da formação da placenta e do feto, o organismo materno
mantém-se em equilíbrio, não acontecendo o mesmo com aquelas que apresentam
poucas reservas de ferro, facilmente se tornarão anêmicas durante a gravidez.
1. Epidemiologia
As duas principais causas de anemia na
gestação no puerpério tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos
são aquelas por deficiência de ferro e perda do volume sanguíneo. Acredita-se
que 8 milhões de mulheres norte-americanas em idade reprodutiva apresentam
deficiência de ferro. Existem regiões da
África onde mais de 75% das grávidas são anêmicas. As necessidades de ferro em
uma gestação variam, com cerca de 300 a 800mg para o feto e 500mg para a
placenta, além daquele disponível para a massa hemoglobina da gestante, e
acredita-se que 200mg são excretados pelo intestino, urina e pele. Somando
todas essas necessidades de ferro, percebe-se que ela excede consideravelmente a
capacidade de estocagem de ferro da maioria das mulheres jovens (cerca de 300mg)
e, em geral, não se consegue obter com uma dieta usual. Mesmo em gestantes com deficiência grave de ferro, a produção de
hemoglobina fetal permanece intacta. A anemia por deficiência de ferro é mais comum
entre gestantes de baixo nível socioeconômico devido a menor suplementação de
ferro na gestação.
2. Metabolismo do ferro
Uma série de eventos
contribui para o estado de deficiência de ferro:
- Consumo pela unidade fetoplacentária;
- Utilização para produção de hemoglobina e mioglobina
resultante do aumento da massa eritrocitária e da musculatura uterina; - Depleção por meio de perdas sanguíneas.
Por isso, se não houver suplementação
exógena adequada, a maioria das grávidas irão evoluir para anemia por
deficiência de ferro.
3. Complicações
Gestantes com deficiência de ferro ou que
evoluíram para anemia, podem apresentar pica que consiste em desvio de apetite
para alimentos estranhos, como gelo (5%), lixo (14%)
e terra (64%). A prevalência observada de
anemia em gestantes com pica foi de 15%, comparada a 6% nas gestantes sem o
sintoma, e a taxa de partos prematuros nessas gestantes em idade gestacional
<35 semanas é duas vezes maior que nas pacientes que não possuem anemia.
4. Diagnóstico
Para realizar o diagnóstico é
necessário primeiramente avaliar a paciente através de hemograma completo, pesquisa
de falcização para mulheres afrodescendentes e dosagem de ferritina e ferro
sérico. Os níveis de ferritina declinam durante a gravidez, sendo considerados
indicativos de anemia quando abaixo de 15μg/L.
As gestantes anêmicas com
moderada deficiência de ferro respondem rapidamente à terapia, com rápida
elevação da contagem de reticulócitos. O aumento das taxas de hemoglobina e
hematócrito é mais lento em gestantes em relação a mulheres não grávidas, por
causa das diferenças de volume sanguíneo. As alterações encontradas em
gestantes com anemia por deficiência de ferro são:
- Hemoglobina <11g/dL;
- Microcitose e hipocromia (volume corpuscular médio e hemoglobina
corpuscular média diminuídos); - Ferritina sérica <12μg/L;
- Índice de saturação de transferrina <15%;
- Coeficiente de variação de valor eritrocitário >14,8%.
5. Tratamento
Durante a
gravidez ocorre um aumento no consumo de ferro, isso aumenta o risco de baixo
peso ao nascimento e anemia na gestação e no puerpério. Dessa maneira, a
suplementação de ferro reduz em 70% o risco dessas comorbidades. O Ministério
da Saúde recomenda o uso de ferro na gestação com ingesta de 40mg/dia de
ferro elementar (200mg de sulfato ferroso) sempre 1 hora antes das
refeições devendo a mesma ser mantida por 3 meses no pós-parto ou
pós-aborto.
Mudanças na
dieta se mostram importantes para a prevenção da anemia, como por exemplo a
ingestão de carne vermelha, frango, peixe, vegetais de folhas verde-escuras e
leguminosas pode servir como outras fontes de ferro (imagem 1). Em outros
situações, como intolerância ao ferro por via oral, síndrome de má-absorção, a
não capacidade da gestante de se medicar por via oral e taxa de perda de ferro
superior à possibilidade de reposição, então, deve-se realizar a reposição do
ferro por via parenteral, especificamente por via intravenosa.

Podem ocorrer alguns efeitos colaterais de
reposição parenteral do ferro, sendo dor, inflamação, abscesso, necrose
tecidual no local de injeção, manchas na pele, aumento dos linfonodos
regionais, sensação de gosto metálico, hipotensão, cefaleia, urticária,
náuseas, febre, artralgia, mialgia e até reação anafilática.
Autora: Suzana
Vasconcelos, estudante de medicina
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